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Associações discretas

por Isabel Paulos, em 19.03.21

Qual a reacção imediata de um democrata ao ler a notícia de que o líder do principal partido da oposição defende a obrigatoriedade para os deputados e detentores de cargos públicos de declarar a pertença a organizações ‘discretas’ como a Maçonaria e a Opus Dei?

Obviamente, negativa. Em atenção à fundamental liberdade de associação e à basilar liberdade de consciência, de religião e de culto. Assunto resolvido. Será? Pela realidade representada por essas associações, mas valia ir pela via da lei do lobbing. Seria mais esclarecedor.

É que a imediata rejeição da ideia estaria muito bem se não soasse ao lavar de mãos de Pilatos. Em Portugal o drama parece ser sempre o mesmo. A perversão da lei pela realidade faz com que as fundamentais liberdades enunciadas sirvam de escudo defensor de práticas lesivas dos interesses do país.

A desfaçatez, a cara de pau (como dizem os brasileiros) é de tal ordem que podemos ouvir ou ler membros da Maçonaria e da Opus Dei denunciar a endogamia na sociedade portuguesa. Nada a fazer senão rir da paródia. É como se juiz e carrasco se juntassem no momento da decapitação para declaração conjunta: desculpe qualquer coisinha, somos até contra a pena de morte. Rir muito do ridículo e aproveitar para reparar como se escarnece com cobiça dos velhos conservadores e dos seus anacrónicos ódios aos maçons, esquecendo que a velha reaccionária portuguesa é tão velha quanto a velha e falsa ressabiada que trepa e tenta usurpar o trono. Nada de novo: guerra pelo poder.

O que espanta é que não se fale com seriedade - seja no jornalismo seja entre bem pensantes -, do peso do nepotismo e da corrupção por acção da Maçonaria no sector político, cultural e também económico e da Opus Dei no sector económico e financeiro - designadamente na banca. As abordagens ao tema Opus Dei e Maçonaria são sempre de uma pobreza franciscana. Os poucos que se interessam por essas matérias têm uma espécie de deslumbramento rasca e ávido por intriga policial. Tratam a coisa com o espírito de quem acabou de ler um livro de Dan Brown e se prepara para comentar a notícia do Correio da Manhã sobre o homicídio de uma mulher de duas cabeças e três pernas. Fala-se da faca e do alguidar e às vezes dos lugaritos, sem nunca perceber que se está a tratar de uma das principais causas da podridão e atraso sistémico do país.

Em Portugal falta independência e coragem e vozes libertas das redes de interesse impostas pela pertença aos guetos, sejam eles discretos ou às escâncaras. Os que supostamente pensam estão na maioria dos casos encostados nas conveniências. Vivem em tribo ou grupelho pelo que é natural que entre os da sua tribo exista algum membro destas associações ditas discretas ou mesmo que não haja, têm com elas uma atitude complacente. Até por se sentirem identificados. Aliás, com verdade, nem vêem nada de mal no nepotismo e corrupção. Acham absolutamente normal. É assim que estão habituados a viver.

Tão mal vai quem propõe que se obrigue os políticos a declarar a pertença a uma associação, como quem é conivente por acção ou omissão com o nepotismo e a corrupção.

17/03/21

Redoma viciada

por Isabel Paulos, em 15.07.20

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Esta manhã ocorreu-me escrever sobre três ou quatro ideias tentando articular de modo lógico um todo inteligível. Entretanto, passei a tarde a dormir, que é o que mais me apetece fazer no terno de dias de férias que arranjei para este entremeio de calor insuportável. Como durmo de dia, dou por mim a vasculhar no youtube as ruas de N’dalatando às três e meia da manhã. Terra na qual a riqueza e beleza da vegetação são conquistas suadas e à custa de temperaturas muito elevadas e humidade usual de 90%. A ver vamos de um dia surge uma oportunidade de voltar a Angola e, finalmente, conhecer a cidade jardim. Não há duas sem três.

As ideias sobre as quais queria escrever estão longe dos devaneios sobre a terra onde nasci. E são quatro. Desde logo a quantidade de matrículas novas que vejo a circular nas estradas portuguesas. Depois de terem sido introduzidas em Fevereiro, impressiona a abundância de novas aquisições em tempo de covid-19. A segunda questão prende-se com a noção da inveja nacional e de como se pode transformar num conceito muito elástico e abusivo. A terceira (e, neste momento, esqueço-me do que pensei de manhã e é o cabo dos trabalhos para refazer a memória e o pensamento, mas lá acabo por me lembrar) é uma ideia recorrente no meu espírito e prende-se com o papel das consultoras internacionais na economia global. E, por fim, o paralelo entre as indesejáveis teses do socialismo e do capitalismo.

Tenho visto muitas matrículas novas a circular, o que me espanta. Na santa inocência julguei que a retracção na compra de novos automóveis iria ser uma realidade esmagadora. Fui investigar e li a quem sabe, que há de facto quebra, mais sentida nos segmentos ligados ao turismo do rent-a-car e TVDE, mas há também optimismo na recuperação por grande percentagem da classe média – em especial os trabalhadores do Estado – não ter sofrido quebras de rendimento. E se há retracção nas empresas, não é expectável que a haja tanta pelos donos das empresas e profissionais liberais. Nem me vou dar ao trabalho de comentar: a realidade do comércio automóvel é um dos melhores espelhos do País.

Vivemos a dizer que somos um País de invejosos. O que é verdade, mas o argumento pode ser usado abusivamente e com a maior das latas por sacripantas. Ando a tentar respeitar um período de nojo sobre as questões da EDP, até porque entramos naquele momento em que Portugal inteiro descobre com surpresa e estrondo o que esteve sempre à vista de todos e não é bonito bater numa pessoa que está no chão. Mas não posso deixar de registar que li citadas num jornal afirmações de António Mexia a referir-se à inveja e à demagogia na questão das remunerações da alta-gestão. Ora, o mínimo que se pode dizer é que é preciso ter muita lata e não ter a mais pequena noção do que é ser recto. Sabendo que os portugueses pagam uma das mais caras electricidades da Europa e das negociatas das rendas excessivas é absolutamente legítimo que os portugueses se indignem com os valores exorbitantes das remunerações e prémios dos gestores. Não é inveja, é revolta com a ladroagem e o despudor. E mais, muito do jornalismo português é manso com quem tem mais e efectivo poder, fazendo crer que estas questões do foro criminal não são as mais relevantes, mas sim as de economia e leis puras e duras. Não podem estar mais enganados. Estas questões são as que minam um Portugal decente. Alinhar em conversas abstractas sobre economia, finanças e leis sem perceber de que massa são feitos os negócios e corrupção associada é não (querer) ver nada do que pode contribuir para um País decente. Este pudor em encarar a realidade de frente e criar paliativos é revelador da educação de quem tem voz em Portugal e que está a léguas do sentimento e da mágoa da parcela da população portuguesa que tenta viver de uma forma honesta. No fundo, perdoem-me a franqueza, mas corruptos e bem pensantes tiveram as mesmas mães e os mesmos pais. Mulheres que educaram os filhos, como qualquer tia afectada que perde os dias a debitar lugares-comuns, incutindo no espírito das crias a ideia de que devem trabalhar para alcançar o bólide que tanto cobiçam num qualquer amigo ou conhecido. E pais que nos intervalos da bravatas sobre futebol os educam a manter-se longe das misérias humanas. É pena: criam gente viciada que vive na redoma da indolência.

Esta abstracção da realidade, por alguns, é ainda mais perigosa quando praticada por entidades e, pior, por organizações internacionais que condicionam de modo global a sobrevivência da economia em termos locais. Refiro-me às consultoras internacionais nas quais, a pretexto das sofisticadas especialização e globalização, ganapos (mesmo os que têm 40 ou 50 anos ou mais) treinados e doutrinados num bê à bá misto de fiscalês, financês e administrês, determinam por critérios quase algorítmicos e totalmente especulativos a vida e a morte de negócios sobre os quais na realidade percebem zero. Há quem considere que esta visão é ingénua e que se trata de lutar contra moinhos de vento, uma vez que é a evolução normal da economia internacional. Não só não concedo, como é por aqui – e pela escalada dos jogos de poder destas consultoras a nível interestadual - que a realidade económica que conhecemos vai ruir (aliás, a crise de 2008 foi um aviso para quem quiser perceber).

Resta saber para que lado vai pender a realidade dominante emergente. Se sobrevivem as teses capitalistas, ou as socialistas. A menos que haja mitigação, será mau para qualquer um dos lados. Se vencer a visão capitalista, transformar-se-á numa coisa mais selvagem ainda, potenciando regimes autoritários e populistas (em Portugal será quase impossível por continuar a ser contrária, ainda por muitos anos, à vontade maioritária). Se vencer a visão socialista idem aspas (mas, neste caso, em Portugal com o voto favorável da maioria de quem tem voz e, por conseguinte, da população). Já todos vimos o calibre  dos radicais da direita e da esquerda nas ruas. É só imaginá-los sentados uns bons anos no poder para perceber onde vai parar o liberalismo parlamentar e a democracia.

É também por isso que é essencial não dar pasto aos radicalismos, tendo coragem e atrevimento para atacar os podres do sistema. Denunciar gestores e governantes corruptos. Reivindicar verdadeira justiça social, não a encarando como a sopa aos pobres, mas como direito efectivo a iguais oportunidades. Defender mais exigência e equidade no ensino e no trabalho. E deixar de ter medo ou pudor de criticar o laxismo, o oportunismo e a falta de seriedade de muitos portugueses. Ao contrário do que parece ser o lema nacional - e que só serve como auto-justificação – não temos que ser uns para os outros. Temos que ser rectos e exigentes connosco e com os outros, isso sim.  

14/07/20

Rancho de corrupção

por Isabel Paulos, em 20.01.20

20181030-separacao-catacao

Grão bom inatacável (oh, que pena!) para a panela; grão mau inatacável (ossos do ofício, o que não mata engorda) para a panela; grão mau para o lixo (ah, que prazer) e pedras para quem as apanhar.





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