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Covid-19

por Isabel Paulos, em 15.09.21

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Compor o mundo

por Isabel Paulos, em 09.03.21

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*

Ontem depois da fila habitual lá tive consulta com o cirurgião. Tudo muito bem e finalmente fiquei inscrita na lista de pacientes para o bypass gástrico. Como esperava, terei de aguardar cerca de um ano. O nosso SNS funciona muito melhor do que ioga para quietar ânimos. Sinto-me bem zen.

De regresso tentei espreitar as tílias, mas os Jardins do Palácio estão fechados. Entrei num Uber para mais uma pequena-grande conversa. Um cumprimento pelo Dia da Mulher e conversa sobre os números da Covid. O desabafo do condutor de que já deixou de ter vontade de ouvir as autoridades e a maioria dos opinion makers. A razão, percebi e concordei, está no ziguezaguear de opinião e decisão. Concordámos que perante o crescimento de casos por Itália e França (disse eu) e Alemanha e Suécia (acrescentou ele) é muito natural que venhamos a estar novamente em maus lençóis. Mas ele mais atento do que eu à televisão nos últimos dias, chamou a atenção para questão exemplar. Disse que se recorda de em meados de Janeiro, com números de mortos alarmantes, ter visto a senhora ministra da saúde, ladeada pela senhora directora da direcção geral de saúde e o secretário de estado da saúde, afirmar que o governo tinha uma arma poderosa que era a testagem. E que se ia apostar forte no aumento do número de testes. Sucede que, disse o avisado condutor da Uber, volvido mais de mês e meio, o que se verifica é que não só não aumentaram como diminuíram substancialmente, e não foi coisa para 20% diz ele, mas sim 60%. Repetiu a ideia e extrapolou daí para a leitura dos números enviesada caso não se conte com o factor da percentagem de testes. Pedi que me dissesse onde tinha obtido a informação sobre essa diminuição, acabou por me referir que costuma ver o comentário de Paulo Portas e que também ouviu o deputado Ricardo Baptista Leite, que considera perceber o que se vai passando, pela experiência profissional base. Face a isto hoje resolvi ver o último comentário de Domingo na TVI de Paulo Portas, de onde só consegui reter como importante para este tema a referência ao aumento do R (índice de transmissibilidade), mas não consegui encontrar intervenção recente do deputado do PSD. Como tenho andado um tanto arredada das notícias, limito-me a contar a conversa da mini viagem sem tomar a opinião nela expressa como factos incontestados. Fico-me pelas sensações e pelas palavras finais. Daqui a 15 dias vamos estar novamente enredados em maus números, disse eu. Não, Isabel (não haja dúvidas que a Uber é americana) lamentavelmente, penso que no final desta semana já vamos ter más notícias. Lá fora buzinavam por o carro estar atravessado na entrada da oficina automóvel junto da minha casa. Bom, muito boa tarde, tenho de sair. E eis que surge uma caixa de chocolate Raffaello. Pelo Dia da Mulher, diz o condutor. Ah, tiro um bombom, e muito obrigada, digo. Mais uma buzina, tenho de sair. Boa semana.

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É assim para quem cresceu a ver e tem o vício de compor o mundo (dito familiar) à mesa de jantar, ao telefone, num serão ao sofá, numa conversa online, num táxi ou Uber, numa caminhada na calçada junto ao mar. Onde quer que seja, sempre a compor o mundo.

Amizade

por Isabel Paulos, em 20.01.21

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*

O ritmo dos acontecidos no mundo lá fora e no espírito aí dentro é frenético. Têm sido meses de excepção, anos de espertina. Há momentos em que dá ideia teres acordado de um longo sono, de um longo descanso. Não te pesa o que perdeste enquanto adormecida, por saberes o quanto precisavas do afastamento, da redoma que permitisse voltares a acreditar. É curioso que tenhas saído do tronco onde hibernaste pouco antes do mundo virar do avesso. De repente ou paulatinamente, quando tudo se tornou mais frágil, começaram as aproximações dos que te são mais importantes. Nas vésperas do mundo virar do avesso, era a distância que marcava presença. Não te dedicavam tempo, nem tu a eles. Era espaço frio e sentido. E de repente ou paulatinamente começaram a abeirar-se como se o mundo pudesse acabar e quisessem dizer que ainda lhes vales qualquer coisa. E tu a eles. E chegaram também novos amigos e conhecidos. E dás por ti a sorrir e a lembrar do murro no estômago que levaste quando um dia, talvez há treze ou catorze anos, tomaste consciência que em várias semanas, e sem estares ligada a redes sociais ou quejantes, tinhas recebido uma única chamada. É certo que acabaras de trocar de telefone pela terceira vez, o que não ajuda. Mas eras tu e o teu deserto. O tal que se prolongou por alguns anos. Tu, a que estava habituada desde sempre à turba de amigos e conhecidos. Às saídas, aos cafés, às conversas, aos sorrisos, às piadas, às gargalhadas, às cumplicidades. Na Rotunda da Boavista com o telemóvel na mão e ao ver uma chamada única, perguntavas: onde estão todos? Para onde foram todos? E mais do que tudo, para onde tinhas ido tu, que não querias sair do tronco onde hibernaras.

Ontem tropeçaste num amigo e deste convosco em francos desabafos. À cabeça a constatação de que a fragilidade trazida pela Covid veio mexer com os afectos e ânimos terrenos. De alma exposta, falou-te do coração e tu radiante percebeste que já encontrou a ponta da meada do futuro risonho e mimado que já merecia; estavas certa em dizer que, apesar de tanto duvidar, era esse o seu destino. Também tu abriste a alma e o coração no teu velho costume de te sentires mais confortável e entendida aos olhos e ouvidos dos amigos masculinos. E sem outro conselho que não fosse a divertida proposta de mudares de vida e abrires uma linha de tarot ou de qualquer outra bruxaria divinatória, cada um foi à sua vida de alma mais leve. Supões que seja para isso que servem os amigos.  

Resta-te a pergunta: e depois, varrida a fragilidade e pousada a imunidade, que vai ser feito dos nossos agora mexidos corações? E da atenção e cumplicidade? E da amizade?

Natal & Covid

por Isabel Paulos, em 17.12.20

A ver se nos entendemos. Quero comprar um bilhete de comboio e estou à espera que a eminência parda que nos preside - muito afoita a sugerir o crime de desobediência, com a conivência da maioria e o encolher de ombros do País inteiro -, e o ilusionista que nos governa definam de uma vez por todas as regras. E se os bitaites que mandaram há duas semanas - sobre o regime excepcional dos 3 dias -, sempre valem no Natal ou se era só a brincar e nós, quais crianços, teremos de ficar em casa de castigo viradinhos contra a parede para não perdigotar outros crianços. Sim, está visto que a Covid levou todos os adultos para parte incerta; no mundo agora só existem dois tipos de criaturas: crianços e educadores de infância licenciados no Piaget.

Ao que parece é amanhã que Costa fala.

Segurem-me

por Isabel Paulos, em 16.12.20

Liguei a televisão e vi uma coisa ridícula a imitar gente - bem caricatural -, a perorar como devem ou não os portugueses comportar-se no Natal. 

Desde o início de Dezembro tenho ouvido - não só na televisão como pessoalmente, porque a loucura neste momento anda à solta impunemente pelo mundo fora -, gente absurda e sem um pingo de bom senso e respeito pela inteligência do próximo, a achar-se no direito de determinar como devo ou não estar. Gente a quem estou certa seria preciso ensinar tudo - mas mesmo tudo -, desde que nasceu, por manifesta desadequação à realidade. É trazê-los aos infantários e ensiná-los a apertar os atacadores, por amor de Deus!

(é o segundo ou terceiro ponto de exclamação que uso nas Comezinhas.)

*

Adenda: este texto tinha dois erros, entretanto corrigidos. Fúrias.

Duas pequenas questões

por Isabel Paulos, em 24.11.20

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  • A família. 

 

Quantos de nós, apesar de não o dizer em voz alta, pensam que esta treta da génese dos contágios ser a família é apenas uma decorrência lógica da estrutura da sociedade. Não vivemos em comunas ou seitas. Vivemos em família pelo que, independentemente do local onde tenhamos sido contagiados, vamos muito provavelmente infectar um familiar com quem coabitamos ou estamos regularmente. Estranho seria se 80% das contaminações se dessem entre monges ascetas. Parece uma banalidade. Mas talvez falte dizer o evidente.

Será que a solução para debelar a pandemia passa por desfazer a estrutura da sociedade?

 

  • A tolerância de ponto

 

Quantos de nós, apesar de não o dizer em voz alta, pensam que o Governo poderia ter decidido pelo teletrabalho nos dias 30 de Novembro e 7 de Dezembro, em vez de cavar ainda mais o fosso entre trabalhadores do sector público e privado? Será que a objecção é a de nem todos poderem fazer o trabalho a partir de casa? Muito bem. Seria injusto, de facto. Mas não é injusto premiar - como é tradição -, o sector público? É mais fácil sugerir a tolerância de ponto no privado: as empresas pagam a factura. Já a tolerância de ponto no público pagam os contribuintes. Perfeita noção de economia do nosso Governo: empresários e trabalhadores do privado contribuem para o todo. Trabalhadores do público são a base eleitoral dos sucessivos governos.

Não vos parece a receita mágica para perpectuar a injustiça?

(peço encarecidamente: não me recordem que os trabalhadores do público também pagam impostos; só para não ficar muito condoída.)

Indignações selectivas

por Isabel Paulos, em 19.06.20

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Trump e Costa, afinal o que os separa? Se ambos advogam a tese do há mais casos conhecidos porque foram realizados mais testes. Onde está a habitual indignação dos meios de comunicação social?

Estridência

por Isabel Paulos, em 09.03.20

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A ler Vorph Valknuk. 

*

Se o mundo se transforma na sala de espera do centro de saúde de bairro pode dar a ideia que parou. Mas não parou. Não é normal que de repente milhões fiquem reduzidos à conversa das cruzes. Que não haja o que dizer sobre política, economia ou ciência. Que não haja o que sentir sobre arte. Que não haja o que dizer sobre formigas, o céu, o automóvel, as algas, os vizinhos, qualquer coisa que não seja a doninha fedorenta.

Os rebanhos de ontem, orientados pelas religiões, converteram-se hoje na caixa de ressonância das vagas noticiosas. Isto não é o quarto poder. É o primeiro e é quase ditadura de pensamento único. 





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