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Notas avulsas

por Isabel Paulos, em 01.06.21

Ando há dias para fazer um postal sobre opinião pública, contraditório e Democracia. Espiolhando a memória recente vejo que tenho ideias soterradas debaixo doutras ideias e começa a ser trabalho de arqueologia trazê-las à luz. A questão era a das contradições e a dificuldade em encontrar verdade no que se defende. Coerência, no mínimo. É difícil.

Vou por partes para ver se me entendo e faço entender. Há dados que tenho por adquiridos: 1.) a enumeração de factos per si, ainda que verdadeiros, não confere qualquer garantia de condução à verdade quando esses mesmos factos são reunidos num argumento orientado à defesa de um flanco (tal como nas ciências impostoras sabemos que quando se conhece ou procura legitimar uma conclusão de antemão, as hipóteses e todo o processo são falsos); 2.) como decorrência, o contraditório, feito à fase da enumeração de factos de cada um dos flancos, também não.

E desta limitação – acrescida das circunstâncias abaixo referidas -, nasce o tal chinfrim seja de opinião seja de contestação próprio das democracias. Por favor, dêem-me o benefício da dúvida: não estou a recusar ou denegrir as virtudes da Democracia – a tal pior forma de Governo, tirando todas as outras -, mas tão só a ver o lado negativo.

Até há poucas décadas poucos determinavam a orientação das decisões do poder central. Nos regimes autoritários, por força das restrições das liberdades e das hierarquias impostas pelo poder. Nas democracias, por força dos desníveis sociais e económicos reais que as ditas, tal como os regimes autoritários, não colmatam apesar da História nos ensinar que tendem a trazer melhores condições económicas ao grosso das populações.   

Em grande parte do mundo, vivemos no tempo em que quase todos têm opinião – livre ou condicionada - e além de direito a exprimi-la, estão munidos de ferramentas tecnológicas que permitem a sua difusão em massa. Os meios formais ou institucionais a que poucos acediam por sorte na hora do nascimento, por frequência do ensino ou por sucesso económico deixaram de ser vias únicas para ter voto na matéria.

Ao mesmo tempo, a base da organização política internacional, o Estado, perdeu espaço para estruturas supranacionais de natureza comercial. Além do que, os órgãos de soberania e todas a instituições garante da Democracia dentro dos Estados começaram também a deteriorar-se quer por impreparação dos titulares dos cargos quer por constante pressão e apetites da opinião pública irracional.

O peso da tecnologia é avassalador e a capacidade de condicionar e moldar o pensamento das massas aterrador. As grandes tecnológicas na área da comunicação têm hoje pelo peso económico capacidade de influência efectiva muito superior à maioria dos Estados, e tentem a escapar ao poder de decisão e controlo das entidades garante da Democracia. A opinião pública, que é hoje o principal barómetro dos governos, pode estar nas mãos dos joguetes e tacticismos políticos e económicos entre as grandes tecnológicas e os Estados com maior capacidade tecnológica. Enquanto isso os extremistas organizam-se e amplificam a sua voz através destes mesmos meios.

 

A preguiça e a falta de tempo – mais a primeira do que segunda -, faz com que não tenha leituras suficientes sobre a degeneração da Democracia. Talvez não seja inteiramente mau. Não estarei tão condicionada pelo que já foi escrito sobre o assunto e a coisa sairá naïf.

 

Fala-se em definhamento da Democracia seja qual for a falange política a que se pertence como uma inevitabilidade. Nego-me a desacreditar – apesar da evidência para aí apontar. Seria muito cómodo desacreditar e cair no cinismo. Uma tentação. Mas há-que contrariar e arranjar maneira de conseguir fazer perceber que o mero contraditório, a alternância de posições incompatíveis levará ao crescimento da bola de neve da intolerância.

Há cedências que devem ser feitas e por mais que custe a uma certa esquerda que se toma por dona, senhora e tutora dos bons princípios da Liberdade, Igualdade e Fraternidade – tudo isto ainda se vai buscar à Revolução Francesa -, a verdade é que a marxista luta de classes e a moderna reivindicação identitária não estão isentas de grave prejuízo para a Liberdade. São históricas as chacinas e o horror totalitário comunista, como foi o fascismo. Por cada vez que se legitimarem ditaduras comunistas – passadas e presentes -, estar-se-ão a legitimar as aberrações e carnificinas nazis. Por cada bandeira identitária hasteada por moda e no intuito de derrubar a liberdade alheia e não por defesa do razoável, um extremista de direita nascerá e se sentirá legitimado. Por cada vez que se defenda a pena de morte, o ódio racial, a homofobia ou a misoginia, um extremista das bandeirinhas da moda se legitimará. O contraditório alimenta-se a si próprio criando uma espiral de ódios, incompreensões e ressentimentos.

O contraditório por si não resolve. É preciso descer ao terreno das ideias e introduzir critérios de validade:  razoabilidade e oportunidade. É preciso introduzir filtros de justiça nas ideias defendidas que ultrapassem os preconceitos de ambas as partes.

Às pessoas sensatas e moderadas em vez de as refutar sumariamente compete reconhecer, entre o manancial de reivindicações dos extremos, possíveis razões (fundamentos) válidas e trazê-las para o debate, assimilando-as de forma inteligente: depurando-as através daqueles critérios de razoabilidade e oportunidade daquilo que têm de maligno. No caso de Portugal é patente esse reconhecimento das reivindicações legítimas da esquerda radical e populista, mas não ainda o da direita radical e populista, que por mais ignorante seja, representa com toda a certeza um capital de contestação legítimo.

Não se trata de normalizar e legitimar os extremismos – inimigos da Democracia apesar de não se assumirem como tal por medo das populações que querem subjugar -, mas sim de esvaziá-los do que têm de perverso. Não me parece tão difícil Portugal desembaraçar-se por esta via dos perigos dos extremistas lusos.

Já me preocupa mais a actual 'elite' política portuguesa. Tenho reservas que tenha capacidade e jogo de cintura para os embates económicos internacionais e aproveitamentos ideológicos futuros. É que saber servir à mesa pode dar muito jeito, mas não é o suficiente. 

A arte de virar o tabuleiro de jogo

por Isabel Paulos, em 03.05.21

Este Governo tem o condão de transformar toda a matéria que o poderia colocar em xeque - todos os assuntos que o poderiam comprometer e deveriam ser denunciados pela oposição e escrutinados pela comunicação social - em fonte de ataque aos outros, sejam eles oposição, portugueses malquistos ou outros.

Sei que muitos vêem como causa deste estado de coisas a inépcia de Rui Rio - e o que se chama deriva populista da direita moderada. Não deixa de ser verdade que o líder do PSD tem sido brando e desajeitado, mas a explicação é bem menos simples e está ligada ao caldo de tolerância e de predilecção pelo PS e pelos partidos mais à esquerda de quem tem tido voz em Portugal. O caldo permissivo que fecha os olhos a todos os deslizes dos apaniguados do Governo e dos partidos que lhe dão sustento e está sempre de dedo em riste sobre os conservadores de direita, os liberais de direita, os populistas de direita. Fica por saber que direita é tolerada pela esquerda e por quem tem tido voz em Portugal - onde se inclui uma certa direita cúmplice e de dedo mindinho no ar que gosta de se demarcar até daquilo em que acredita para promover aparente consenso. Talvez uma direita amestrada lhes conviesse para continuar a brincadeira da Democracia Assim-assim.

Democracia

por Isabel Paulos, em 03.02.21

É certo que a maioria do mundo foi varrido por este pesadelo da fragilização da democracia e que era previsível descida de categoria quanto ao carácter mais ou menos democrático do nosso País em função das medidas restritivas que vão sendo tomadas, mas era escusado termos acrescentado a redução dos debates parlamentares e o rocambolesco processo da nomeação do presidente do Tribunal de Contas. Como fomos dando nota nas Comezinhas em devida altura, aqui e aqui.

Infelizmente, nestas duas últimas matérias, Rui Rio teve um papel (negativo) importante. Eu que temo o regresso não de Passos Coelho, mas da entourage que o cerca, não posso deixar de lastimar que Rui Rio, a pessoa em quem tencionava votar nas próximas eleições legislativas, esteja a contribuir para cavar tamanho fosso na nossa democracia. 

Do Governo, do seu desnorte autoritário, e da falta de oposição à esquerda já nem falo. São de tal modo evidentes os tiques totalitários que qualquer português que não ande a dormir dará por eles com toda a certeza.

 

Muito obrigada a quem me chamou a atenção para a notícia de hoje.

 

Perdido por um, perdido por mil

por Isabel Paulos, em 29.01.21

tudo-parece-perdido.jpg

*

Em democracia todos temos direito a opinião, mas é preciso ter consciência que a opinião é manipulável e que os instintos humanos passam pela sobrevivência e também pela dominação. A ambição desmedida mina a sobrevivência da convivência sã em comunidade.

Não tenho escrito muito sobre a tragédia que assolou o mundo e, especialmente, Portugal, por dois motivos: tendo mais intuições do que razões, não sei exactamente o que dizer e não quero concorrer para ser mais uma que vê a calamidade como se fosse adepta de facção.

Por agora tenho duas coisas como certas: podemos pouco contra as leis da natureza - que não são justas ou injustas -, por se sobreporem às humanas, mas devemos continuar a defender a democracia, que é apesar de tudo a forma mais razoável de organização da comunidade. Devemos estar atentos e não permitir arbitrariedades que visem não a protecção ou a defesa dos interesses da sociedade, mas tão somente a auto-legitimação dos poderes públicos.

Apesar de, noutras matérias, sentir os males do País enraizados nos comportamentos e traços de personalidade da população, a dispersão da culpa pela turba serve sobretudo para desresponsabilizar quem tem obrigação de nos proteger. A história recente tem mostrado claramente que a permissividade com os poderes públicos e os governos tem dado cabo do País. Numa altura em que o maior inimigo é o descontrolo da acção humana e que temos a sensação de estar na mão das leis da natureza, é muito tentador ser solidário com um presidente congregador e cansado e uma ministra convencida de estar a fazer o melhor. Quase dá vontade de fechar os olhos às artimanhas do habilidoso primeiro-ministro  e, com fé na imunidade futura e na bazuca, desabafar: depois logo se vê. 

Mas isso seria aviar o provérbio perdido por um, perdido por mil. E como são vidas que estão em causa, é evidente que não podemos alinhar nesta desresponsabilização. Mais ainda quando não sabemos o que por aí vem.

Bom fim-de-semana.

 

A ofensa

por Isabel Paulos, em 10.01.21

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*

Sabes que te perdes em abstracções e, em muitos casos, pecas por falta de nomear os problemas reais. Foges consciente das abordagens usuais que ocupam os jornais e as páginas virtuais. Não tomas para ti a todo o tempo, como é timbre dos utilizadores dos espaços de opinião, o papel de escrutinadora dos poderes fácticos e de defensora das verdades do momento. Não o fazes quer por falta de talento quer por ausência de vontade. Não é esse o papel que desempenhas - presunçosa e pouco dada à falsidade reconheces que o tens, mas cada macaco no seu galho e o teu quer-se recolhido

Muitas vezes referiste a aversão aos ditos e actos de superioridade e desrespeito pelos outros – possivelmente uma das ideias que mais te consome a vida, ao longo da qual te foi dito ou feito sentir diversas vezes que acusavas o toque com demasiada facilidade. Em tua defesa, esclareces que nunca serás imune à falta se sensibilidade e há muito te deixaram de impressionar os exemplos do domínio pela força gratuita ainda que dissimulada em palavras buriladas.

O que a muitos parece opinião, a ti afigura-se como ofensa. E não é por falta de consciência dos benefícios da liberdade de expressão e da democracia, nem sequer no plano mais mundano por falta de hábito de debate – cresceste e amadureceste a discutir e a defender com vigor o que acreditas. Felizmente, cresceste e amadureceste a ser contrariada, criticada, ridicularizada e nada disso te incomoda por aí além.

Sucede que cedo tomaste consciência, apesar da controvérsia e ironia te serem muito chegadas, que o hábito do debate não é um valor benigno per si, tal como o humor não é um valor benigno per si. Ao contrário do que é aceite como ideia unanime – e quanta unanimidade fictícia existe no presente – a livre opinião e o humor não são inócuas. São das mais perfeitas armas de combate e tanto servem na defesa dos mais nobres tesouros, como para saquear o adversário ou o próximo dos seus valores e potencialidades, tudo dependendo do coração e cabeça de quem peleja.

Dizes isto ciente que não há civilização ideal sem livre opinião nem humor, a menos que se tome a ignorância e a escravidão como um mal necessário. Mas também consciente, e aqui é que dói à maioria que perora de forma vã sobre democracia e tolerância, que a opinião e o humor para serem livres têm de ser universais. Não podem servir apenas as coutadas que se impõem não pela razão justa, mas pela força mediática em torno de mesquinhos interesses de cada tribo e que mantém o País manta de retalho de pequenas e grandes corrupções, conveniências, apetites e futilidades, incapaz de se sujeitar à justa autoridade dos princípios.    

Um país que festeja impante a liberdade todos os anos, mantém parte substancial da sua população a sobreviver de salários miseráveis e ambições pífias. Os estratos superiores da pirâmide social – hoje aferidos pelos recursos económicos e pela imagem -, egoístas e mesquinhos vão contando hipocritamente a anedota do elevador social. Na verdade, precisam da desigualdade como pão para a boca. Não só no sentido material da coisa, porque as desigualdades de rendimento são efectivas e gritantes, mas no sentido cultural também. O seu relevo na sociedade depende da sobrevivência de uma maioria pobre, inculta e resignada. E por isso se assustam tanto com os radicais.

Um país onde tudo se compara e a inveja é rainha, onde ser alguém significa possuir no mínimo o quadruplo rendimento dos seus administrados, onde assim que se chega a um patamar económico confortável se tenta mimetizar a etiqueta tradicional para impressionar a maioria dos portugueses que a desdenha, e se lê livros cujo léxico e conteúdo não é acessível nem inteligível à maioria da população. Um país onde a classe média é apenas remediada e onde muito poucos têm muitíssimo, quantas vezes à custa de negócios espúrios e da exploração dos impostos pagos por essa mesma classe média. Um país onde a grande corrupção não pode ser definitivamente repudiada por falta de legitimidade de parte substancial da população habituada a praticar ou consentir a pequena trapaça.

Um país que prefere continuar as bravatas contra a direita populista ou a esquerda radical, em vez de se unir em favor do justo, aceitando como boas quando razoáveis e merecidas as ideias de uns e de outros. Apesar da consciência de que são usadas apenas como pretexto para hastear bandeiras populistas, correspondem muitas vezes a anseios justos da população, que são a todo o momento desdenhadas e espezinhadas nos textos dos jornais e espaços de debate das mais respeitáveis figuras da opinião. E aqui está a ofensa que ninguém quer ver, mas existe, é real e magoa. Podem desmontar estes argumentos indo buscar os clássicos e os oitocentistas – que como as estatísticas dão para todas as leituras, para provar tudo e o seu contrário -, podem tentar colar-te o rótulo de lírica, ingénua ou ressentida. Tu sabes e eles também que estás a dizer a verdade que não lhes convém.

Não te cansarás de o dizer, ainda que só. É preciso ouvir a voz da população descontente, não só a que vota nesses partidos radicais, mas sobretudo a zangada que não vota há anos. Há que deixar de falsas declarações de pesar pela abstenção a cada eleição, retirar o peso da fúria e tirar espaço ao oportunismo. Não é normalizar, como dizem os desatentos ou desleais que se acham superiores aos seus compatriotas, até porque normalizada está ela, por enquanto mais pelo silêncio do que pelo reivindicação - até quando? É preciso esvaziá-la do que tem de maligno – a fúria da tirania, peneirando as razões válidas de descontentamento uma a uma. Trazê-las para o espaço moderado.  

Antes se ridicularizassem as elites - as antigas e as recém ascendidas -, que fingem pelejar pela justiça e democracia quando tudo quanto fazem é falar em pobreza ao mesmo tempo que recusam acesso a melhores salários e rendimentos, e sempre arranjam bons e liberalíssimos argumentos como a falta de produtividade. Pena que não usem igual raciocínio em causa própria. Enchem a boca para falar em educação e da necessidade de mais leitura, mas pouco lhes dá mais prazer e ser do que olhar cima da burra para os boçais e ignorantes. Se fosse a justiça e a democracia que os preocupasse não se dedicariam tanto tempo a desprezar os compatriotas, menorizando-os e achincalhando-os. Estariam a dar exemplo. Não sentiram desdém pela pobreza e ignorância. Estariam, sem disso se gabar em proveito próprio, a educar e regozijar cada vez que alguém passasse a viver em melhores condições. A alegrar-se cada vez que alguém se sentisse respeitado e percebesse o significado de democracia e liberdade na pele.

Não te venham com histórias da carochinha da defesa da democracia. Não é a ideia de que o poder está nas mãos do povo e no proveito dele que vês defender, apenas os interesses mesquinhos de tribos mais ou menos trapaceiras. E desta forma não há País, nem autoridade, nem Nação. Somos coisa nenhuma.

 

Simplismos

por Isabel Paulos, em 11.11.20

Tentando resumir o que penso sobre a questão do Chega: a melhor forma de salvaguardar e reformar a democracia  - quando a reforma se impõe para que sobreviva - é trazer a ela as reivindicações legítimas dos extremos, normalizando a situação. É assim mesmo que se esvazia os partidos que representam esse espectro de queixa – sejam de esquerda ou de direita -, dos radicalismos que comportam. Claro que a estridência evangelizadora dominante na comunicação social e redes sociais não percebe isto e continua a demonizar quem vem das alas mais à direita, insuflando-as. Como se algumas das suas queixas não fossem atendíveis. Como se não houvesse direito a existir além do extremismo de esquerda, muito bem recebido no pensamento político corrente.

Não desconheço os perigos da condescendência com o populismo e o fascismo e as lições da história. Sei bem que houve um tempo em que as próprias vítimas – como muitos judeus -, se entregaram crédulas aos carrascos. Mas do que se vê actualmente – como então, aliás -, percebo que há dois carrascos e, infelizmente, as televisões e os jornais só vêem e denunciam um deles. A forma mais imbecil de fazer deflagrar uma guerra é tomar partido cego por um dos lados, tomando-o como puro.

Outra das vantagens da normalização das alas mais à esquerda e à direita é a retirada de peso relativo ao centro, essa massa mole e esclerosada de pensamento político, causadora de muitos dos danos que hoje originam legítimas reivindicações - dos ressentidos mais à esquerda e à direita. Essa massa velha e degenerada perdeu a memória - tão embrenhada está nos jogos de interesse, burocracias e pequenas e grandes corrupções -, da função mais nobre da política: a busca pelo bem comum.  

Entretanto sobre este assunto, já havia dito qualquer coisa aqui e aqui.

As novas lavadeiras

por Isabel Paulos, em 28.01.20

sem nome

Um nico de presunção não faz mal a ninguém e sempre alivia o tédio. Vamos lá a isto.

O que repele na argumentação de seitas e tribos do Twitter e do Facebook é o grau de infantilismo e de vulgaridade que assombra os cerebrozitos. Desde o tempo dos grupinhos de liceu – normalmente de meninas desinteressantes, porque há trinta anos a maioria dos rapazes não ligava a assuntos fúteis -, não via gente a perder tanto tempo a dissertar sobre o acerto ou desacerto do aspecto do cabelo, o tamanho e padrão do vestido, a piroseira da marca da camisola ou do fato mais justo, o cenário fashion ou kitsch - como se fossem manifestações essenciais ao carácter -, o diz que disse, o leva e trás, a pura intriga e revanche, tudo isto disfarçado de opinião ou pensamento sobre actualidade, política e cultura.

A sensação que tenho é que os cochichos fúteis das senhoras de outrora foram convertidos pela boa democracia em popular mexerico de tanque comunitário, sendo as novas lavadeiras, na maioria dos casos, homens com idade para ser avô e, em certos casos, ditos intelectuais.

E diverte particularmente ver os/as próprios/as - as novas lavadeiras - a desdenhar da falta de urbanidade, das fake news e do cariz desprezível das redes sociais, como se fosse um fenómeno inteiramente novo. Não, gente. Não é. A única diferença é que há microfone comunitário e é mesmo plural. Esta coisa da democracia é uma chatice para quem queria aceder aos privilégios que via em poucos e, agora, vê alargados a quase todos. Que aborrecida é igualdade. Onde estará o pedestal cobiçado?

Com diria a minha avó: ‘ainda estão muito perto’.

Pulverização partidária

por Isabel Paulos, em 22.01.20

sem nome

Sobre a pulverização partidária poderei estar a confundir o que é ou será com o que deveria ser mas, apesar de algum temor, não estou convencida da inevitabilidade da degradação da democracia em Portugal por contaminação de radicalismos e populismos. Não me esqueço de há dezoito anos alguém de esquerda me anunciar a morte do PS como grande partido de poder, prevendo a ascensão de BE a votações na ordem dos 20%. E de voltar a ouvir semelhante comentário mais tarde.
Para o melhor e para o pior Portugal é o país do ‘temos que ser uns para os outros’ e isto em política traduz-se por sacrificar a ideologia em troca de uma fatia de poder ou influência (para os eleitos) e de conforto financeiro (para os eleitores). E os arranjos fazem-se ao centro e não nas franjas, pelo que a reconfiguração pode traduzir-se em 'parte baralha e volta a dar' alargando um pouco a influência às franjas. Na esquerda já se verificou. Na direita, a ver vamos se recompõe e faz esse o caminho.

*

Adenda. Texto inicialmente publicado na caixa de comentários do blogue Delito de Opinião.





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