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Sobriedade

por Isabel Paulos, em 02.08.20

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Só uma nota que é devida. Ontem critiquei o ressabiamento na televisão em matéria futebol. Mas não quero deixar de assinalar a diferença que faz uma pessoa educada: hoje, no comentário da SIC, Ribeiro Cristóvão demonstrou uma vez mais ser um Senhor.

Redoma viciada

por Isabel Paulos, em 15.07.20

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Esta manhã ocorreu-me escrever sobre três ou quatro ideias tentando articular de modo lógico um todo inteligível. Entretanto, passei a tarde a dormir, que é o que mais me apetece fazer no terno de dias de férias que arranjei para este entremeio de calor insuportável. Como durmo de dia, dou por mim a vasculhar no youtube as ruas de N’dalatando às três e meia da manhã. Terra na qual a riqueza e beleza da vegetação são conquistas suadas e à custa de temperaturas muito elevadas e humidade usual de 90%. A ver vamos de um dia surge uma oportunidade de voltar a Angola e, finalmente, conhecer a cidade jardim. Não há duas sem três.

As ideias sobre as quais queria escrever estão longe dos devaneios sobre a terra onde nasci. E são quatro. Desde logo a quantidade de matrículas novas que vejo a circular nas estradas portuguesas. Depois de terem sido introduzidas em Fevereiro, impressiona a abundância de novas aquisições em tempo de covid-19. A segunda questão prende-se com a noção da inveja nacional e de como se pode transformar num conceito muito elástico e abusivo. A terceira (e, neste momento, esqueço-me do que pensei de manhã e é o cabo dos trabalhos para refazer a memória e o pensamento, mas lá acabo por me lembrar) é uma ideia recorrente no meu espírito e prende-se com o papel das consultoras internacionais na economia global. E, por fim, o paralelo entre as indesejáveis teses do socialismo e do capitalismo.

Tenho visto muitas matrículas novas a circular, o que me espanta. Na santa inocência julguei que a retracção na compra de novos automóveis iria ser uma realidade esmagadora. Fui investigar e li a quem sabe, que há de facto quebra, mais sentida nos segmentos ligados ao turismo do rent-a-car e TVDE, mas há também optimismo na recuperação por grande percentagem da classe média – em especial os trabalhadores do Estado – não ter sofrido quebras de rendimento. E se há retracção nas empresas, não é expectável que a haja tanta pelos donos das empresas e profissionais liberais. Nem me vou dar ao trabalho de comentar: a realidade do comércio automóvel é um dos melhores espelhos do País.

Vivemos a dizer que somos um País de invejosos. O que é verdade, mas o argumento pode ser usado abusivamente e com a maior das latas por sacripantas. Ando a tentar respeitar um período de nojo sobre as questões da EDP, até porque entramos naquele momento em que Portugal inteiro descobre com surpresa e estrondo o que esteve sempre à vista de todos e não é bonito bater numa pessoa que está no chão. Mas não posso deixar de registar que li citadas num jornal afirmações de António Mexia a referir-se à inveja e à demagogia na questão das remunerações da alta-gestão. Ora, o mínimo que se pode dizer é que é preciso ter muita lata e não ter a mais pequena noção do que é ser recto. Sabendo que os portugueses pagam uma das mais caras electricidades da Europa e das negociatas das rendas excessivas é absolutamente legítimo que os portugueses se indignem com os valores exorbitantes das remunerações e prémios dos gestores. Não é inveja, é revolta com a ladroagem e o despudor. E mais, muito do jornalismo português é manso com quem tem mais e efectivo poder, fazendo crer que estas questões do foro criminal não são as mais relevantes, mas sim as de economia e leis puras e duras. Não podem estar mais enganados. Estas questões são as que minam um Portugal decente. Alinhar em conversas abstractas sobre economia, finanças e leis sem perceber de que massa são feitos os negócios e corrupção associada é não (querer) ver nada do que pode contribuir para um País decente. Este pudor em encarar a realidade de frente e criar paliativos é revelador da educação de quem tem voz em Portugal e que está a léguas do sentimento e da mágoa da parcela da população portuguesa que tenta viver de uma forma honesta. No fundo, perdoem-me a franqueza, mas corruptos e bem pensantes tiveram as mesmas mães e os mesmos pais. Mulheres que educaram os filhos, como qualquer tia afectada que perde os dias a debitar lugares-comuns, incutindo no espírito das crias a ideia de que devem trabalhar para alcançar o bólide que tanto cobiçam num qualquer amigo ou conhecido. E pais que nos intervalos da bravatas sobre futebol os educam a manter-se longe das misérias humanas. É pena: criam gente viciada que vive na redoma da indolência.

Esta abstracção da realidade, por alguns, é ainda mais perigosa quando praticada por entidades e, pior, por organizações internacionais que condicionam de modo global a sobrevivência da economia em termos locais. Refiro-me às consultoras internacionais nas quais, a pretexto das sofisticadas especialização e globalização, ganapos (mesmo os que têm 40 ou 50 anos ou mais) treinados e doutrinados num bê à bá misto de fiscalês, financês e administrês, determinam por critérios quase algorítmicos e totalmente especulativos a vida e a morte de negócios sobre os quais na realidade percebem zero. Há quem considere que esta visão é ingénua e que se trata de lutar contra moinhos de vento, uma vez que é a evolução normal da economia internacional. Não só não concedo, como é por aqui – e pela escalada dos jogos de poder destas consultoras a nível interestadual - que a realidade económica que conhecemos vai ruir (aliás, a crise de 2008 foi um aviso para quem quiser perceber).

Resta saber para que lado vai pender a realidade dominante emergente. Se sobrevivem as teses capitalistas, ou as socialistas. A menos que haja mitigação, será mau para qualquer um dos lados. Se vencer a visão capitalista, transformar-se-á numa coisa mais selvagem ainda, potenciando regimes autoritários e populistas (em Portugal será quase impossível por continuar a ser contrária, ainda por muitos anos, à vontade maioritária). Se vencer a visão socialista idem aspas (mas, neste caso, em Portugal com o voto favorável da maioria de quem tem voz e, por conseguinte, da população). Já todos vimos o calibre  dos radicais da direita e da esquerda nas ruas. É só imaginá-los sentados uns bons anos no poder para perceber onde vai parar o liberalismo parlamentar e a democracia.

É também por isso que é essencial não dar pasto aos radicalismos, tendo coragem e atrevimento para atacar os podres do sistema. Denunciar gestores e governantes corruptos. Reivindicar verdadeira justiça social, não a encarando como a sopa aos pobres, mas como direito efectivo a iguais oportunidades. Defender mais exigência e equidade no ensino e no trabalho. E deixar de ter medo ou pudor de criticar o laxismo, o oportunismo e a falta de seriedade de muitos portugueses. Ao contrário do que parece ser o lema nacional - e que só serve como auto-justificação – não temos que ser uns para os outros. Temos que ser rectos e exigentes connosco e com os outros, isso sim.  

14/07/20




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