Saltar para: Posts [1], Pesquisa e Arquivos [2]



Inho

por Isabel Paulos, em 16.08.21

Há quem não goste do uso de diminutivos, os considere ridículos ou apoucados. Claro que tudo em excesso, cansa. Mas, como boa portuguesa, gosto de usar ‘inhos’ e ‘inhas’. Os espanhóis acham piada a este nosso tique. É coisa que nos caracteriza. Não vejo razão para nos envergonhar, quando parece tão só um modo delicado, terno ou irónico de tratar o mundo que nos rodeia. Será ridículo? E quanto do melhor nesta vida não tem ridículo?

Entre os técnicos da língua portuguesa há quem não os aconselhe, e chegue mesmo a proibir na literatura. Só vos digo uma coisa: é de fugir de alguns técnicos linguistas, sobretudo, quando se dedicam a ensinar escrita criativa, mas também dos que parecem muito sérios e recomendáveis quando entram em modo de censura. Vejo por aí gente que tenderia a escrever muitíssimo bem, não fosse o medo da quebrar regras e preconceitos de época introduzidos pelos linguistas. Não se apercebem o quão castrador e obtuso é o medo do ridículo.

Alto mar

por Isabel Paulos, em 04.05.21

O bom de navegar e nadar do lado de fora do porto é que por mais aprumado seja o seu movimento, os poetas e os prosadores do regime nunca saberão o que é levar com a tempestade no lombo e no focinho, apesar de se terem por grandes tripulantes e perorarem sobre antigas glórias injustiçadas. Uns cairão no esquecimento, outros sofrerão naufrágios junto aos portos emaranhados nas doçuras e comodidades, nas intrigas e maus cálculos, tanta é a mesquinharia que consome os seus dias: troca de favores e traições.

No alto mar, por mais inepto seja, o criador vale por si só. No céu, mar e vento o autor vale pelo que é. Aqui, a borrasca e a ruína enobrecem.

Escrita

por Isabel Paulos, em 25.11.20

images.jpeg

*

Como muitos em miúda tentei versejar. Tudo quanto saía era de tal modo medíocre que à época não insisti. Tive mais juízo do que vinte ou trinta anos depois, ao tentar de novo juntar palavras em forma de verso. Dizem os músicos que há a música boa…e a outra. É o que sinto na poesia. Tenho a presunção de saber o que é, e sei que não chego lá. Mas é uma tentação. Tenho saudade do ímpeto de compôr uns versos. Quando se tem a perfeita noção que se é muito fraco nalguma área e se têm este apelo deve ser porque ao menos há amor à arte, o tal que que nos impele a fazer figuras ridículas. Mas há momentos em que percebo que é o amor à arte que me faz abster de produzir lixo. Hoje é para aqui que estou inclinada: se sei que é mau o resultado e quero ser coerente (às vezes lá acontece) devo estar quieta, por respeito à poesia.

São inquietações como outras quaisquer. Sem dramas, até por me sobrar o vasto campo da prosa. E aqui há tanto a fazer, céus. Palavras a aprender a grafar, acentos e vírgulas a saber colocar, tempos verbais a saber conjugar e, com propósito, desconjugar – como é bom fugir às convenções e brincar às variações de tonalidade e às dissonâncias não combinando tempos verbais. Vergonha das vergonhas: aprender a distinguir instintivamente a forma pronominal dos verbos do pretérito perfeito, evitando usar hífens indevidamente. Alegria das alegrias: ver a coisa fluir sem consciência, correr atrás do teclado, como antigamente corria atrás da esferográfica. O frenesim de dizer tudo quanto ocorre no pensamento, sem medo do impacto. A ânsia de não perder aquela ideia que espreitou atrás do neurónio preguiçoso e nele se escondeu de novo, envergonhada. Ir buscá-la, trazê-la à luz, desenhando as palavras adequadas, para que não se sinta nem desrespeitada nem agressora. Pode ser magia. É magia.

Apesar de saber que não trago nada de novo, estando esta sensação descrita um sem-número de vezes por outras pessoas que escrevem com regularidade, apetece-me contar que, há meia-dúzia de anos  enquanto escrevia a Ana Paula, tive consciência de qualquer coisa excepcional. Nunca me queixei especialmente de solidão. Quase sempre a minha vida se desenrolou no meio de muita gente, e quando assim não foi – houve anos de muito isolamento -, os meus sonhos (dos verdadeiros, a dormir mesmo) eram tão povoados como as telas de Bruegel. A solidão física não foi, senão muito pontualmente, um peso na minha vida. Já a outra solidão, a da incompreensão, a de não ser capaz de chegar a mim e ao outro, foi severa. Há meia-dúzia de anos senti – apesar de estar a compôr essencialmente para mim própria - que recomeçando a escrever e ao fazê-lo de forma mais regular, não mais me sentiria sozinha. E isso é uma maravilha.

Hoje sonhei com uma vinha que conheci bem de olhos abertos e um tesouro nela contido meu conhecido de antigos sonhos a dormir. Conjugação perfeita feita metáfora e o melhor dos augúrios.

Romper

por Isabel Paulos, em 01.03.20

caneta cross.jpg

Não partas do princípio de que as críticas ao desafino do que escreves são sempre infundadas, mas coloca a hipótese do reparo ter origem no apego ao estabelecido ou simples espaço em vão no entendimento.

Ouve menos quem conjectura ou julga e mais as pequenas grandes dicas que ajudam a evitar erros e a libertar o essencial de vícios nocivos.





Dose recomendada

Accuradio


Mensagens

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Arquivo

  1. 2022
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2021
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2020
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2019
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D