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O melhor do futebol

por Isabel Paulos, em 13.06.21

Do muito que lembro dos anos em que acompanhava o futebol realço o sorriso generoso, as cantorias, as partidas e a forma como o Neno ajustava a bola com malandrice a preparar-se para o grande momento. Era com certeza um homem bom e só pode deixar saudade.

Não consegui deixar de me arrepiar ao ouvir as bancadas de adeptos dinamarqueses e finlandeses entoar o nome Christian Eriksen, caído inanimado no relvado por paragem cardíaca e pronta e sagazmente acudido por companheiros e equipa médica.

Salvou-se.

São momentos como este que salvam o futebol e o mundo.

Sem o mesmo drama e intensidade, recordo um jogo de 97 entre o Barcelona e creio que o Desportivo da Corunha – sei que era uma equipa galega e o jogo se realizava na Galiza – no qual o Ronaldo (o Fenómeno) fez uma jogada incrível fintando vários jogadores adversários para terminar marcando golo. Lembro de como os adeptos galegos ovacionaram de pé o brilho do adversário.

Tal como me lembro do golaço de bicicleta que o Cristiano Ronaldo marcou há 3 anos pelo Real Madrid à Juventus e de ver adeptos italianos a aplaudi-lo. Outro grande momento do futebol. É pena que não sejam estas as imagens que prevaleçam na memória de todos e se perca tempo com marquises.

A choraminguice

por Isabel Paulos, em 28.04.21

O lamentável e condenável episódio da agressão ao repórter da TVI em Moreira de Cónegos vai dar azo a semanas da ladainha anti portista do costume.  À usual conversa de ódio clubista. Com todas as tretas ressabiadas a que estamos habituados.

Pelo que percebi houve crime. Então, que se accione a Justiça e se processe o imbecil. Se for caso disso, que se questione a passividade do Presidente do Futebol Clube do Porto ou de outros elementos da estrutura do clube. Mas não me venham com o palavreado e historietas do costume de Calimero injustiçado. 

Tanta choraminguice só devia envergonhar quem procura justificação para os próprios insucessos passados. 

Futebol

por Isabel Paulos, em 27.03.21

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*

Cresci a ver jogar futebol. Até aos vinte e tal anos seguia regularmente os jogos, sobretudo, os do meu Portinho. Via os jogos à moda dos rapazes que sabem 'da bola', ou seja, a saber o que era uma boa marcação, uma boa recepção, um bom passe, um fora de jogo bem ou mal tirado, uma boa leitura de jogo, um bom pé esquerdo, enfim, essas coisas de quem cresce entre um pai e um irmão - o mais novo chegou a jogar à séria, o primogénito nunca foi grande fã, o do meio começou a ligar mais tarde -, absolutamente apaixonados pelo futebol. Da segunda metade dos anos 70 recordo os pequenos sacos  vermelhos (ou encarnados possidónio) e brancos da TAP em formato cilindro com roupa dos meus três irmãos nos dias em que iam para a ginástica no Futebol Clube do Porto a 50 quilómetros de casa. Levava-os a minha mãe que os trazia no fim das aulas na Faculdade de Filosofia. Eu ficava, por ser ainda muito pequena para essas andanças. Não tenho nem nunca tive paciência para conversa sobre arbitragens, questiúnculas e feiras de vaidades. Cresci entre gente que, mais do que falar sobre, valorizava o desporto: o gosto antigo da minha mãe pela ginástica e a prática do meu pai e irmãos do ténis. O Futebol Clube do Porto era o clube de paixão do meu pai e a casa onde os meus irmãos faziam desporto. É coisa que está no sangue, por assim dizer.

Fui às Antas ver dois jogos. É possível que tenha ido mais alguma vez e não me lembre. Da primeira recordo sobretudo que chovia copiosamente e do medo de malhar e rolar por ali abaixo até ao campo - logo comigo para quem é menos cansativo subir escadas do que descer, não por vertigem mas por o cérebro se esquecer de trabalhar nessas ocasiões e de me avisar atempadamente qual pé devo lançar a seguir. Nos anos 80 assisti ao jogo no estádio com o Covilhã - ainda jogava o Geraldão – e em 87, como qualquer portista, chorei baba e ranho de felicidade. Mas no início dos anos 90, sofri in loco, nas Antas, contra o Bayern - perdemos por dois. Ao longo nos anos admirei jogadores como o Futre (de quem fui vizinha), Fernando Couto, Luís Figo (da concorrência), Jorge Costa, Jorge Andrade e Ricardo Carvalho. Não me ficava pelos brilharetes, fintas e fogo-de-artifício de quem mais do que de futebol, gosta do espavento e do espectáculo envolvente. A discreta e fundamental posição de central sempre me impressionou mais do que o resto. E também jogadores – fosse qual fosse a posição -, cujo perfil fosse mais reservado - bom, o Futre é um caso à parte: na altura que jogou no Porto eu tinha entre 11 e 13 anos e, naturalmente, achava piada à exuberância. Nos anos 90 houve uma fase que acompanhava o campeonato espanhol (torcia pelo Barcelona, coisa que só mudou muito mais tarde por causa do Cristiano Ronaldo), o italiano (mais pelos nossos jogadores) e algum inglês. Gostava muitíssimo do correr de bola em Espanha, alegre, enérgico e resoluto. Houve alturas em que seguia o campeonato espanhol todos os fins-de-semana tal qual o português. Detestava a agressividade e mau-feitio rendilhado das lutas corpo a corpo e faltas sucessivas do futebol italiano. Gostava do atravessar de campo em dois ou três passes longos e decisivos do futebol inglês e, sobretudo, da forma como os jogadores não faziam as fitas infantis como os mediterrâneos, especialmente os portugueses e italianos.

Ao Dragão - lindo de morrer, mas gélido o suficiente para acabar em pneumonia no mais saudável e resistente dos adeptos -, fui três vezes, e é impressionante mas não me lembro quem era a equipa adversária numa delas. Nas outras duas foi o Braga, e uma das ocasiões o melhor jogo da época - imagino que haja quem desminta, mas não quero saber. Foi na época 2010/2011, com o mui senhor André Villas-Boas ao comando do Portinho: jogou-se muito de parte a parte, tendo Porto e Braga oferecido hora e meia de puro prazer àqueles quarenta mil (?) adeptos, que puderam ver o que é trocar bem a bola, jogar limpo, competitivo e muito emotivo, sem manhosice. Eu que vejo muito mal ao longe e acho que se vêem os jogos muito melhor na televisão, adorei lá estar naquela noite em que ganhámos por 3–2, com o mister simpatia Helton na baliza e o afável touro Hulk a marcar um dos golos - os outros dois foram do Varela.

Apesar destas investidas raras nos estádios e de quando em vez assistir a um jogo na televisão, quando me aproximei dos trinta perdi o gosto por este desporto. Transformado em tema principal das televisões, meios de comunicação social e alguns espaços digitais, o excesso de miudezas, mesquinhices, diz-que-disse e apelo ao invólucro deixou-me a léguas do futebol. Além de um ou outro jogo do Porto, acompanho distraída esporádicas exibições das fases de qualificação da Selecção (e por falar em homens discretos, a devida vénia a Fernando Santos) e, claro, muito atenta às fases finais dos europeus e mundiais.

O facto de viver com um sportinguista que não liga peva nem percebe nada de futebol – e que, como eu, se lembra de um tempo onde desporto na televisão não equivalia a futebol, mas a uma infinita variedade de modalidades -, ajuda ainda mais no distanciamento e dou graças por nesta casa não se subscrever em especial nenhum canal cabo dedicado ao dito desporto rei. Tenho, isso sim, saudade de ver os Jogos Olímpicos de fio a pavio. Passar madrugadas a ver basquete, atletismo, ginástica rítmica e artística e tudo mais. O futebol hoje em dia cansa-me. Só apetece tirar o som da televisão, apagar as letras do monitor, e pedir: deixem-nos trabalhar jogar em paz para que nos possam dar prazer e alegria.

Escrevi este postal hoje por uma razão muito simples: sonhei na noite passada com a classificação da Liga. Não faço ideia por que carga de água fui sonhar com isso, mas o facto é que sonhei que este fim-de-semana o Benfica empatava a 1-1, o Sporting perdia por 2-1 e o Porto vencia - neste caso não me apareceu, como nos outros, o painel digital a vermelho com o resultado. No sonho estávamos contentes porque alcançaríamos o Sporting. Apesar de muito alheada do que se passa no futebol, na última vez que vi a classificação estávamos a 10 pontos, pelo que pelas minhas contas é preciso que a quimera se concretize 3 vezes e meia para conseguirmos. Além de mais agora, escrito o postal, fui consultar o calendário da Liga e vi que este fim-de-semana não há jogos. Telefonei ao meu pai que me confirmou a razão: jogam as selecções. Resumindo: como bruxa não valho um chavo. E estamos nisto.

Porto, sempre.





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