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Gadanha

por Isabel Paulos, em 31.07.20

erva-relva.jpg

Acordaste a divagar sobre as expectativas dos outros. Durante as três horas que entretanto decorreram, dezenas de pequenos apontamentos despontaram no pensamento em forma de instantâneos que reflectem sentimentos tão díspares como mágoas, fúrias, alegrias ou gratidões. Tudo entrecortado por conversa de bom dia, chuveiro, iogurte e café para quem fica, autocarro resvés, fila para comprar o passe do dito, contas-corrente, café sem o qual não sobrevives, mensagens, emails e telefonemas, registo e trocas de informação e pontos de situação. E por isto que se faz sem quase notar que se fez, em vez de três horas já passam  três e meia, e ainda falta o iogurte para quem veio. Hoje é de pêssego, calha bem. E vem-te à memória o comentário desatento de que o grosso disto será automatizado para que o foco esteja no essencial. O sorriso malicioso enche-te a cara - por mania insistes na preferência da palavra cara. Não o vês mas sentes as maças do rosto e dos olhos retesarem: é o sorriso de quem já viu o suficiente para adivinhar que por cada automatização de tarefa com vista à rentabilização, duas outras ou mais tarefas manuais nascerão. Se é saudável almejar o lucro e até profícuo, é preciso que se saiba que a complexidade de daí decorre é exponencial. Às vezes diverte-te constatar como se tenta, na ilusão de simplificar o mundo, esvaziar o mar a balde. Mais um punhado de telefonemas e emails, e quatro horas depois de acordar, assinas o recibo do salário. É fim do mês e tudo te faz igual a uma multidão anónima de gente que deambula pelo mundo e tão simplesmente: precisa. Há quem diga que isto não é vida. Que é mera sobrevivência. Há quem defenda e sonhe com unhas e dentes grandes vidas carregadas de sentidos profundos e universais. Quando o sentido da vida pode estar numa conta-corrente ou num iogurte de pêssego comido numa manhã em que se acorda pronta a dizer que não se é, não se pode ser, nem se quer ser uma sombra da projecção dos anseios dos outros. E sem ter planeado dá por si a fazer o diário de um dia banal, de modo espontâneo, deixando que a realidade transcorra, pronta a ser pintada.

Afinal qual era a imagem logo cedo? Talvez o desenho de uma caminheira de varapau ao ombro, na ponta do qual o saco de sarapilheira - ou de linho, talvez de linho -, traz tudo quanto é preciso, para além do caminho e da vontade de caminhar. Era mais ou menos esta a ideia e logo decidiste que não a ias elaborar mas tão só mencionar. Se fosses mais capaz, farias uma metáfora em forma de fábula. Mostrarias a vagabunda, quase sempre só, percorrendo vales, rios e montanhas, e as conversas ao longo do périplo. À cabeça há sempre quem te diga que jamais conseguirás transpor a montanha ou cruzar o rio. Pois que essa história é reservada a predestinados. Devias contentar-te com as doçuras calmas do vale. E deixar esses devaneios destinados a almas mais bafejadas pelo talento, inteligência e coragem. Entretanto chega email da empresa de condomínio e a notícia de que o total da conta extraordinária será dividida em doze parcelas. Tanto melhor, concordas. Voltas à penúltima frase. Esses ditos da vida inteira - que visam proteger-te e por isso mesmo e apesar de te zangares, agradeces -, já infiltrados na carne e no miolo ajudam a fazer duvidar a cada instante do que és e do que és capaz. E no vale deixas-te dormir; também é preciso descanso. Até pegar no varapau e na trouxa para novamente percorrer mais umas léguas. Passas mais um ou outro rio e uma montanha e perdes a noção de quantos já foram sem que no vale reparem que há muito deixaste aquelas paragens – se é que alguma vez lá estiveste inteira – onde sempre voltas em sono sonâmbulo de modo a que não dêem pela tua falta. É preciso criar a ilusão de normalidade, é preciso um módico de apego, até na andarilha de pensamento. Agora passaram cinco horas e é preciso voltar a casa para almoçar. No regresso, mais expectativas virão.

Foste a casa e no caminho voltaste a ler o email do condomínio. Reparaste que aos nomes dos condóminos se seguia um parêntesis com o chamadoiro, dividido entre sr(a) e dr(a); a ti calhou o sra. Sorriste uma vez mais enquanto calcorreavas o caminho e congeminavas que o ar de gorda desligada, de jeans e sapatilhas quase 365 dias por ano tem os seus custos reputacionais. Já muito perto de casa, entraste na padaria e ao teu boa tarde, respondem-te com o habitual e simpático cumprimento, mas seguido de: desculpe, trabalha no hospital Santo António? Não te ocorreu responder na qualidade de Margarida e dizer que talvez sim. À tua resposta negativa, acrescentaram: é que fui lá na semana passada e há uma doutora que é mesmo muito parecida consigo. Reafirmaste que não eras tu e pensaste: lá se foi a tese das sapatilhas por água abaixo – além do que ainda dá uma camoeca a algum possidónio da exclusividade dos ténis. E afinal, na empresa de condomínio nunca te viram a fuça, talvez aqueles sejam parêntesis a pedido. Ris e constatas que se é certo que dispensas o dra, não desmentes que preferirias o senhora dona; o peso das ironias familiares não deixa de se abater sobre ti. E volvidas estas menoridades que não se confessam senão na intimidade e por isso exibes no blog, eis que preparas o almoço entre um chorrilho de palavrões, por qualquer coisa não ter funcionado. Dás por ti a pensar na repulsa que sentes por gente que contigo se cruza na rua a praguejar em vernáculo. Vês-te nesses preparos no meio da cozinha e entre muitos cês, pês e efes, olhas para os teus braços para confirmar se não tens tatuadas cobras, borboletas e nomes de entes queridos, nem chanatos de enfiar o dedo nos pés. Certificas-te que estás limpa de tais adereços e pedes desculpa a quem ouve os destemperos com generosa e divertida compreensão. Almoças com ele e decidem antecipar um encargo mensal que se iria prolongar por mais um ano, para poder fazer face ao novo encargo. O lema é sempre: se é para doer, que doa já, e o desafogo virá depois.

Voltas ao local de trabalho e pelo caminho confirmas no telemóvel que a palavra de conforto enviada ontem a quem perdeu alguém próximo chegou aos destinatários. Dás uma vista de olhos pelos blogs habituais, hoje sem particular atenção. Não chegas a ler os jornais. Voltas à metáfora para notar que há quem pelo caminho fale de gentes, pedras e paus para lá dos outros vales, montanhas e rios. Explicam-te como são belas ou feias, malignas ou benignas e dizem-te que devias escutá-las e com elas aprender a ser gente também. Acenas que sim, e perguntas-te presunçosa - mas apenas em pensamento, não vás ofender alguém -, se estarão a referir-se às pessoas, pedras e paus com quem treinas o jogo do galo desde criança. Em cada poiso, em cada degrau, tiras o varapau do ombro e, enquanto dás dois dedos de conversa, com ele riscas no chão dois traços na vertical, dois na horizontal, e independentemente de quem comece, quase sempre ganhas em perder antes de seguir caminho. E esse vício entranhado cobre-te da invicta carapaça da derrota. Talvez por isso, de quando a quando, apareça no caminho quem estranhando o paradoxo, não enjeite os teus sonhos, antes pelo contrário, os incentive. Sucede que não raro, o encantamento pouco dura. Na maioria das vezes não por responsabilidade de quem te motiva – e a quem és grata – mas por não saberes ceder ao natural desejo de te encaixarem num qualquer modelo de comportamento expectável. Advinhas sugestões sensatas e reprovações legítimas, mas encontras sempre um sem-número de equívocos que esbarram na ideia basilar de por vontade e natureza nunca seres aquilo que os outros de si em ti projectam. Nunca ficarás aquém nem além do que és.

Com tudo isto passaram dez horas desde que acordaste e falta uma para voltares a casa. Reparas que o rádio esteve ligado todo o dia ou não se tratasse de uma jornada normal. A meio da tarde um café descontraído de dez minutos, e uma conversa que envolve pequenas fantasias feitas realidade menos idílica de limoeiro, erva, relva e gadanha. Palratório que só entende quem contigo convive desde que nasceste. É sexta-feira e felizmente na tarde deste dia há menos gente a querer resolver assuntos inadiáveis. O telefone esteve mais sossegado, o que permitiu acabar de escrever este texto, que vais deixar para corrigir e publicar depois de jantar. É fim-de-semana e isso é o que mais interessa.




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