Saltar para: Posts [1], Pesquisa e Arquivos [2]



Arrumar as palavras

por Isabel Paulos, em 26.09.21

O drama dos dias presentes. A facilidade com que se arranja razões super inteligentes e atraentes para justificar a falta de mero bom senso e responsabilidade, a ausência de coragem. O erro ou defeito está sempre no outro e nas circunstâncias. Toda a acção do sujeito argumentativo - ou não estivesse ele tão esfregado como a lâmpada de Aladino - é fortaleza inatacável e de suposta desarmante honestidade. É um expert: conhece sempre mais e melhor - com maior pormenor e minúcia - a realidade do que os demais. O sujeito argumentativo tece brilhante teia de elucubrações  - na maioria dos casos com tentativa de ironia ou ensaio de polémica - e seduz leitores ou ouvintes para absolutas vacuidades disfarçadas de reflexão.

O que mais há espalhado pelo espaço público é gente dita adulta que parece não ter tido uma voz materna ou paterna que a ensinasse a arrumar o quarto depois de brincar. É tão divertido brincar com as palavras e tão maçador arrumar a confusão final gerada pelas ditas.

Ter acesso a instrução - no ensino público e privado - e às colossais fontes de informação digitais é fácil. Através deles adquirir boa oratória e retórica não é difícil. Ter entrada no espaço público e megafone além de fácil é barato para o mundo rico. Agora arrumar as ideias em consciência e respeito pelo todo e pelos outros é um caso bicudo. Ser responsável é muito aborrecido. Assobiar para o lado e esperar que alguém arrume o quarto é muito mais engraçado. É de facto tentador arranjar múltiplas razões para não cumprir as obrigações que fazem sentido não por serem pessoalmente vantajosas, mas por trazem benefício ao outro, à família ou à comunidade: dói-me a barriga, não fui eu que desarrumei, o outro menino também não arruma, tenho de estudar, ainda ontem arrumei, sou hiperactivo, sou uma criança indefesa, isto são maus tratos na infância. Qualquer coisa serve de desculpa para os pequenos grandes caprichos e egoísmos das meninas e meninos - dos 18 aos 80 anos - com vidas demasiado fáceis. Cada vez mais fáceis. Cada vez mais mimados.





Dose recomendada

Accuradio


Mensagens

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Arquivo

  1. 2022
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2021
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2020
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2019
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D