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Escrita

por Isabel Paulos, em 25.11.20

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*

Como muitos em miúda tentei versejar. Tudo quanto saía era de tal modo medíocre que à época não insisti. Tive mais juízo do que vinte ou trinta anos depois, ao tentar de novo juntar palavras em forma de verso. Dizem os músicos que há a música boa…e a outra. É o que sinto na poesia. Tenho a presunção de saber o que é, e sei que não chego lá. Mas é uma tentação. Tenho saudade do ímpeto de compôr uns versos. Quando se tem a perfeita noção que se é muito fraco nalguma área e se têm este apelo deve ser porque ao menos há amor à arte, o tal que que nos impele a fazer figuras ridículas. Mas há momentos em que percebo que é o amor à arte que me faz abster de produzir lixo. Hoje é para aqui que estou inclinada: se sei que é mau o resultado e quero ser coerente (às vezes lá acontece) devo estar quieta, por respeito à poesia.

São inquietações como outras quaisquer. Sem dramas, até por me sobrar o vasto campo da prosa. E aqui há tanto a fazer, céus. Palavras a aprender a grafar, acentos e vírgulas a saber colocar, tempos verbais a saber conjugar e, com propósito, desconjugar – como é bom fugir às convenções e brincar às variações de tonalidade e às dissonâncias não combinando tempos verbais. Vergonha das vergonhas: aprender a distinguir instintivamente a forma pronominal dos verbos do pretérito perfeito, evitando usar hífens indevidamente. Alegria das alegrias: ver a coisa fluir sem consciência, correr atrás do teclado, como antigamente corria atrás da esferográfica. O frenesim de dizer tudo quanto ocorre no pensamento, sem medo do impacto. A ânsia de não perder aquela ideia que espreitou atrás do neurónio preguiçoso e nele se escondeu de novo, envergonhada. Ir buscá-la, trazê-la à luz, desenhando as palavras adequadas, para que não se sinta nem desrespeitada nem agressora. Pode ser magia. É magia.

Apesar de saber que não trago nada de novo, estando esta sensação descrita um sem-número de vezes por outras pessoas que escrevem com regularidade, apetece-me contar que, há meia-dúzia de anos  enquanto escrevia a Ana Paula, tive consciência de qualquer coisa excepcional. Nunca me queixei especialmente de solidão. Quase sempre a minha vida se desenrolou no meio de muita gente, e quando assim não foi – houve anos de muito isolamento -, os meus sonhos (dos verdadeiros, a dormir mesmo) eram tão povoados como as telas de Bruegel. A solidão física não foi, senão muito pontualmente, um peso na minha vida. Já a outra solidão, a da incompreensão, a de não ser capaz de chegar a mim e ao outro, foi severa. Há meia-dúzia de anos senti – apesar de estar a compôr essencialmente para mim própria - que recomeçando a escrever e ao fazê-lo de forma mais regular, não mais me sentiria sozinha. E isso é uma maravilha.

Hoje sonhei com uma vinha que conheci bem de olhos abertos e um tesouro nela contido meu conhecido de antigos sonhos a dormir. Conjugação perfeita feita metáfora e o melhor dos augúrios.





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