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São João

por Isabel Paulos, em 23.06.22

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São precisas várias mãos e sorrisos para lançar um Balão de São João. Daqui de Portimão sinto a noite longe de casa e nenhuma dúvida que pertenço à minha gente. Só aspiro a que se concretizem os sonhos de todos os que têm bom coração e vontade. Em espírito e a quinhentos e cinquenta quilómetros do Porto estico com as pontas dos dedos uma das dobras do papel de seda até que o balão ganhe forma e voe cuidando do divertimento e desejos de todos os que vibram com descontracção e cumplicidade a noite mais alegre do ano. Festa nas ruas da cidade molhada pela morrinha que premeia e abençoa o ano de trabalho.

São João é antónimo de solidão. É companhia, alegria em multidão - pertença à nossa casa.

Até amanhã, Porto.

Leitura do momento

por Isabel Paulos, em 23.06.22

Na antevéspera de vir de férias um leitor das Comezinhas abriu os postais de Setembro último sobre a minha segunda visita à Feira do Livro. Na altura li uma das duas histórias do escritor e cineasta afegão Atiq Rahimi que comprei nesse final do Verão. Trata-se do primeiro romance do autor, publicado em 2000, cuja narrativa decorre nos anos oitenta durante a invasão Soviética: Terra e Cinzas. Apesar de ter gostado da beleza poética e violenta das palavras nele contidas afastei a ideia de segunda leitura imediata. Deixei assim Pedra-de-Paciência, título pelo qual fui atraída à banca de alfarrabista, para mais tarde. Só agora, despertada pela tal visita a entradas passadas no blogue, decidi lê-lo. Ontem à noite embrenhei no trágico mundo de uma mulher afegã.

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Cem razões para viver

por Isabel Paulos, em 18.06.22
  1. No Inverno sentir vento frio bater na cara enquanto caminho na rua ou no parque.
  2. No Verão numa noite de calor sentir a brisa fresca do mar.
  3. Deixar-me apanhar pela chuva num dia quente.
  4. Vento e trovoada nos dias sim.
  5. Ver o sorriso de felicidade no rosto do Nuno.
  6. Observar alegria no olhar, na voz, na postura dos meus.
  7. Conversar individualmente com amigos e familiares em presença física.
  8. Receber chamada ou mensagem de amigo ou familiar a perguntar se estou bem ou se estamos bem, ou a contar novidades.
  9. Ser avisada por familiares ou amigos que vão passar cá por casa.
  10. Perceber no olhar e postura de quem estimo que gostou genuinamente da palavra que lhe disse ou da lembrança que lhe dei.
  11. Um par de vezes ao ano fazer uma jantarada familiar.
  12. Uma vez ao ano fazer uma jantarada com amigos.
  13. Assistir a gestos de atenção e delicadeza especialmente com pessoas de quem gosto.
  14. Andar de carro conduzida por alguém perdida na paisagem e nos pensamentos.
  15. Andar a pé na rua perdida nos devaneios.
  16. Estar sozinha com as minhas fantasias, sem que me interrompam: em casa, no autocarro, no comboio.
  17. Nadar em água tépida nos dias quentes.
  18. Passear na areia molhada da praia junto à rebentação.
  19. Dar e receber mimo.
  20. Coçarem-me as costas.
  21. Ler tudo quanto não me mace.
  22. Ler poesia.
  23. Descobrir novos livros e autores.
  24. Descobrir escritas cristalinas.
  25. Abrir livros, ler passagens ao acaso e decifrar enigmas imaginados.
  26. Ver na janela do escritório os aviões passarem em direcção ao aeroporto (dezenas, diariamente).
  27. Estar atenta às fases da lua.
  28. Noites de lua cheia.
  29. Ver subir no ar um balão de São João entre risos e alegria.
  30. Ouvir boa música.
  31. Ir a museus ou galerias apreciar pintura.
  32. Ouvir e dizer patetices que dispõem bem.
  33. Adormecer apaixonada.
  34. Acordar bem disposta e com vontade de rir.
  35. Regar as plantas da varanda e vê-las bonitas.
  36. Conjecturar remodelações do apartamento (raramente concretizadas).
  37. Percorrer lojas de artigos para o lar.
  38. Presenciar o apanhar de vigaristas, corruptos e criminosos.
  39. Ver reconhecido valor a quem o tem.
  40. Antever o desmascarar da aparência e da mentira.
  41. Ver pardais e boeirinhas a saltitar.
  42. Apreciar nos relvados melros de pena negra luzidia e bico laranja.
  43. Dar mimo e brincar com o Ritz.
  44. Escutar ou ler palavras delicadas.
  45. Sentir-me amada ou estimada.
  46. Devanear com momentos felizes e impossíveis.
  47. Sonhar, acordar e procurar a interpretação dos sonhos.
  48. Manter a casa limpa e arrumada.
  49. O cheiro a pão quente acabadinho de sair do forno.
  50. O sabor de pêssego, meloa, maracujá, cerejas e da fruta em geral.
  51. A memória do paladar da mousse de maracujá em Luanda.
  52. Café e água sem gás fresca numa esplanada.
  53. Tempo e disposição para de manhã pôr o creme hidratante na cara.
  54. Dormir de janela aberta.
  55. Dormir meia destapada.
  56. Acordar de manhã com o chilrear da passarada.
  57. Andar descalça em casa.
  58. De vez em quando gozar um dia inteiro (Domingo) de pijama.
  59. Árvores, arbustos, plantas e erva.
  60. Odor a relva cortada.
  61. Cheiro a terra molhada.
  62. Perfume a eucalipto e a resina dos pinheiros.
  63. O vôo errante das borboletas, especialmente coloridas.
  64. Chuveiro de água (quase) fria nos dias muito quentes.
  65. Dormir em lençóis lavados de cama bem feita.
  66. Sentir o aconchego do édredon macio e quentinho nos primeiros dias de frio do Outono.
  67. Demorar-me no chuveiro do hotel.
  68. O paladar de cogumelos frescos salteados.
  69. Ver o meu Portinho jogar bem e ganhar.
  70. Ser recebida por um sorriso na caixa do supermercado ou qualquer outro estabelecimento.
  71. Sumo de laranja natural e tosta mista ao almoço (raramente).
  72. Compal de pêssego e meia torrada ao pequeno-almoço (raramente).
  73. Ouvir ao acaso conversas alheias na rua ou no autocarro e sentir nelas cumplicidade e entreajuda ou simples surpresa.
  74. No Inverno ao fim-de-semana fazer chá preto com torradas para o lanche (raramente).
  75. Saber (boas) notícias da família alargada.
  76. Estar na treta com gente nova.
  77. Tagarelar com gente menos nova.
  78. Cavaquear com os mais velhos.
  79. Conversar com desconhecidos.
  80. Contemplar o céu laranja a poente e regressar à infância: amanhã estará bom tempo.
  81. Reviver Valinhas.
  82. Recordar Lagos.
  83. Lembrar viagens.
  84. Retroceder aos momentos felizes do passado.
  85. Fazer ronha de manhã ao fim-de-semana.
  86. Demonstrar afeição pelas pessoas que gosto.
  87. Planear mudanças e sonhar com o futuro.
  88. Visitar casas nos sites imobiliários.
  89. No Outono calcar com restolho folhas secas.
  90. Ouvir a zerichia e burburinho das crianças a brincar.
  91. Refastelar-me no sofá e tirar uma soneca com a smooth de fundo.
  92. Deslumbrar-me com os recantos de beleza “postal” da minha cidade.
  93. Pessoas e coisas despretensiosas.
  94. Pessoas e coisas com ar lavado.
  95. Reparar nos traços fisionómicos particulares entre aglomerados de gente.
  96. Esplanadas alegres à beira mar e navios na linha do horizonte.
  97. Férias, feriados e fins-de-semana.
  98. A ideia de viajar (temo que se escrevesse tão só “viajar” mentisse, de tal forma me comecei a embaraçar na logística).
  99. Escrever nos dias em que me sinto bem comigo e com o mundo.
  100. Meu Deus, só ao fim de 85 entradas (entretanto acrescentei mais algumas) me lembrei do cigarro: saborear a ideia de voltar a ter o prazer de fumar um cigarro quando fizer 82 anos.

 

E por aí fora. Esta lista não teria fim se continuasse a dizer tudo quando me anima.

Depois deste elenco não posso senão concluir tender mais para o feliz do que para o infeliz. Não foi com essa intenção de terapia que comecei a escrevê-lo, mas ainda bem que teve esse efeito útil. Não sei se faça um postal com o que não gosto e outro com o que me deixa indiferente. Ficarão para um dia lá mais adiante.

Se este postal tivesse pretensões, no lugar de boa música estariam três referências a obras e compositores célebres, em vez de pintura figuraria o nome de um par de mestres e seus quadros, tal como mencionaria a forma como me teriam tocado quatro poetas e dois romancistas. Desapareceriam as banais torradas para dar lugar a um requintado prato confeccionado por chef de renome. E por aí adiante. Sucede que não há em mim intenção de exibir uma vitrine de conhecimento em leque, mas tão só revelar o que penso e sinto. O que na verdade me alegra. 

A brincar, a brincar...

por Isabel Paulos, em 06.06.22

Depois de aturada reflexão percebi como António Costa vai conseguir o aumento de 20% do salário médio em quatro anos. Fazendo reflectir na contabilização da remuneração à hora a redução da semana de trabalho a quatro dias. É conta perfeita: os portugueses ficarão a ganhar mais 20% permanecendo em casa um dia, isto é, ganhando o mesmo.

Escrita

por Isabel Paulos, em 03.06.22

Publiquei este postal há mais de dois anos a propósito dos eternos conselhos sobre escrita e continuo a pensar nestas matérias com recorrência. Neste deixei transparecer a importância que ela tem nos meus dias presentes. Também já aqui admiti que o blogue é uma forma de exercitá-la. Antes de dar por terminada a Ana Paula (forma íntima com que trato o Livro dos Três Princípios que publiquei neste blogue no final de 2019) tinha consciência que não tinha criado grande (nem pequena) obra, mas ainda assim tentei na medida do possível que não me envergonhasse. Pelo que comprei dois livros de revisores linguísticos, li-os de fio a pavio e tentei expurgar de erros grosseiros os trinta e sete capítulos. Além dos conselhos impressos nestes livros tenho as antenas bastante ligadas para estes temas, pelo que sempre vou na medida das minhas limitações ouvindo ou lendo os zum-zuns a respeito.

Vem isto a propósito dos excessos de zelo e de como pode ser contraproducente a sugestão avulso. Todos gostámos de alvitrar e, claro, há quem tenha mais autoridade para o fazer, pela experiência e traquejo de que é possuidor. Mas não raro vejo condenações sumárias pela utilização das repetições, estrangeirismos, pleonasmos, gerúndios, advérbios de modo ou de qualquer outro expediente linguístico, como se fossem aberrações capazes de conspurcar qualquer texto digno de ser lido. Ora, ainda que não seja uma leitora compulsiva, não tenho memória de mim sem ocupar parte do dia a passar os olhos por palavras (não necessariamente livros), li de tudo um pouco e tenho a pretensão de saber distinguir um texto bem escrito de outro que não é. E reconhecendo a absoluta importância do acerto gramatical e do bom português - de que estou muito longe de ser possuidora -, creio que estes excessos opinativos (algumas vezes assentes em tendências do momento) não deixam espaço para a escrita com cunho. Não raro leio textos de diferentes autores e não fosse a substância ou opinião neles expressa, não descortinaria a autoria, de tal modo é indiferente quem escreve. Acredito que isto é resultado do excesso de zelo conjunto e mimetismo, que leva um leque alargado de pessoas a seguir as mesmíssimas regras e a escrever do mesmíssimo modo. É o que chamei neste postal linguagem psico-jornalística, que mais não é senão um misto de escrita mais vulgar nos dias presentes nos jornais e nas páginas lifesyle, mas também em blogues e nas crónicas. Pode tratar-se de uma escrita imaculada, sem erros a apontar por qualquer revisor linguista, mas é tantas vezes pura e simplesmente (cá está um adverbio de modo) desenxabida. De uma pobreza franciscana total, por falta do sal e do mel que referi na primeira entrada a que fiz ligação. O sabor do texto pode estar no arrojo e sensibilidade de saber entrar nos tais sentidos proibidos dos puristas, fazendo ouvidos de mercador à técnica.

Claro que corro riscos dizendo isto, ao não escrever uma entrada para as Comezinhas sem dois erros gramaticais e três ou quatro gralhas (este é mais longo, deve ter mais). A consciência plena das minhas fragilidades na escrita deixou de me impedir ter sentido crítico sobre o que é dito pelos outros nesta matéria, até por ser raro, para meu espanto, genuína consciência sobre os próprios erros em quem dá conselhos - requisito essencial para ser tomado capaz de juízo válido. Tenho aprendido muito ao ouvir (e ler) outros falar desta matéria, mas fico com pena que tantos deles não demonstrem um pingo de honestidade ao assumir as próprias falhas. Pasmo sempre ao ver gente referir-se ao tema dando-se como exemplo de bom português à medida que vai apontando erros alheios. Mais do que tudo, ensinar não deve passar por enxovalhar - o expediente mais tentador para gente pequena. Estarei sempre aberta a aprender, mas não a fazer as vezes de urso à conta da prosápia alheia - orgulho em conhecimento amiúde sem fundamento.

Para terminar deixo apenas uma nota de rodapé: há quem considere a publicação de um texto com gralhas ou erros falta de respeito pelo leitor - um insulto a quem lê. Recordaria as pessoas tão perfeitas e tão capazes da perfeição quanto as que vêem nesta afirmação uma irrefutável evidência que saíssem do pedestal, percebessem a soberba infundada e se permitissem reparar que há gente com dificuldade e falhas - bem menores do que as que suportam as peanhas do orgulho e os louros fáceis e imerecidos.

É por isso que aos leitores das Comezinhas em vez de pedir desculpa pelos erros e gralhas, admito que não sei escrever sem eles, por muito que me esforce. Tão só. Pedir desculpa por desrespeitar os leitores com as gralhas e erros dos meus textos seria como pedir desculpa por ser muito míope, muito disléxica ou por qualquer outra deficiência. Sei lá, por existir.

Eternos adolescentes

por Isabel Paulos, em 27.05.22

É curiosa a aversão aos relatos realistas de intimidade pessoal ou familiar. Os críticos não desprezam enaltecimentos bacocos de feitos individuais ou de linhagem. Neste oásis à beira mar plantado tudo quanto seja panegírico é social e intelectualmente aceite e louvado. Agora descrever a realidade tal qual ela é ou invocar memórias não abonatórias de si próprio ou dos seus próximos é crime de lesa majestade: egocentrismo, narcisismo e exibicionismo, no mínimo. Matéria esconsa de que se foge, essa a da verdade. Se a autora for mulher, uma menoridade, com toda a certeza.

Eis uma das razões por que nunca crescemos, mantendo-nos eternamente no sebastianismo, a viver de mitos e balelas fantasiosas. Líricos.

Por esta razão o cunho diarístico em Portugal nunca pegou - vulgaríssimo noutras paragens como entre os ingleses. Diários neste país quase não se vêem, a menos que sejam tímidos disfarces deles, tão encriptados quanto o medo dos portugueses em dizer a verdade. Vivemos infantilizados. Continuamos uma sociedade machista e atávica a que interessam mais as esfregas do ego de bravos e impolutos marialvas (ainda que enviesadas ou dissimuladas, isto é, aparentemente depuradas de ego) do que o banal (e rico) relato da vida, das relações e do quotidiano tal qual se apresentaram.

Como reparo que a democratização faz como que os tiques do modo de estar de gente civilizada se disseminem por mimetismo na sociedade ao fim de décadas, ainda vamos ter disto por muito tempo.

A realidade vai continuar a impressionar e assustar eternos adolescentes por resolver.

*

Nota. Neste pequeno texto o corrector da SapoBlogs não reconhece quatro palavras: panegírico, diarístico, atávica, impolutos. Todas elas vulgar léxico.

O espanador - Nova Zelândia

por Isabel Paulos, em 21.05.22

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17. Nova Zelândia
 
A falta de vontade de escrever sobre a Nova Zelândia leva-me a incorrer numa batota já cometida noutras entradas da série Espanador - o que transformou a sequela num registo muito desigual. Vou lançar um par de bitaites em vez de me debruçar sobre o que mais interessaria a quem lê. O facto é que a ideia que faço da Nova Zelândia - naturalmente ignorante e injusta, por nunca lá ter estado - aproxima-se do Canadá, com a agravante de na primeira não ter ligações a familiares lá radicados o que ainda me afasta mais*. São países onde vinga o pendor do activismo comunitário - sempre dito tão distante e desejado entre nós. Sociedades onde se privilegia a participação e contributo dos cidadãos na conquista do bem comum. Onde o politicamente correcto é rei.
 
Há meses fiz algumas leituras sobre a história e geografia neozelandesa, o povo nativo maori e a colonização europeia desta agora monarquia constitucional cuja Chefe de Estado é Isabel II, apesar de poderes muito restritos, mas não retive grande coisa nem vou acrescentar nada sobre o tema. Quem tiver curiosidade dará um pulo à Wikipédia, à Britannica ou a outras páginas online. Vou antes desabafar razões pelas quais não desejaria viver na Nova Zelândia. 
 
Em Fevereiro de 2021, a primeira-ministra Jacinda Ardern obrigou os quase dois milhões de habitantes de Auckland a ficar em casa a partir da meia-noite e ao encerramento de escolas em empresas (à excepção das essenciais) por causa do teste positivo de três elementos da mesma família. Repito, três casos levaram ao confinamento de dois milhões. No final do ano passado estava a ser preparada uma nova lei, a entrar em vigor até ao término deste, que proíbe a compra de cigarros para quem nasceu depois de 2008. Assim, de uma penada é vedada às novas gerações a compra cigarros durante toda a vida. E é da Universidade neozelandesa de Otago a ideia genial de combater a obesidade com um mecanismo de parafusos e ímanes que impede o utilizador de abrir a boca mais de dois milímetros. Desde o aloquete (cadeado para as pessoas do sul) no frigorífico que não via ideia tão absurda - aliás, esta de prender os dentes supera bem a do trancar o frigorífico no grau de insanidade.
 
Mas vá, nem tudo é mau, um dos fundadores da Google está a trabalhar com a Air New Zealand na criação de uma frota de carros autónomos para servirem de táxis aéreos. Como tantos da minha geração, sempre idealizei carros voadores. Além do que estas ilhas do Pacífico são tidas por apetecíveis refúgios de multimilionários como abrigo numa hipotética futura situação catastrófica. Lá terão as suas virtudes, e convenhamos que sob ponto de vista da natureza (agora designada biodiversidade) a paisagem é deslumbrante.
 
 
*Um dia em conversa com um amigo, saiu-me qualquer coisa como isto: como todos os portugueses, tenho ou tive família alargada espalhada pelos quatro cantos do mundo e em consequência notícias constantes desses pontos fora do país (no meu caso Timor, Austrália, Singapura, Moçambique, Angola, Reino Unido, Alemanha, França, Espanha, Brasil, México, Estados Unidos, Canadá). Ao que ele, à época emigrado, me respondeu espantado: não tive nem tenho familiares cá fora. Devo dizer que esta afirmação me surpreendeu numa idade que já não seria suposto. Nasci e vivi rodeada de gente que como eu ou estivera ou contava com elementos da família alargada a viver fora de Portugal. Admito que essa é a minha normalidade.
 
 
Desta saga existem nas Comezinhas as entradas abaixo indicadas, muito desiguais entre si. Com este postal sobre a Nova Zelândia dou por terminada a primeira temporada. Outra seguirá, com tempo.
 
 

1. O espanador - E.U.A.

2. O espanador - Venezuela

3. O espanador - Peru

4. O espanador - Brasil

5. O espanador - Áustria

6. O espanador - Hungria

7. O espanador - Angola

8. O espanador - Nigéria

9. O espanador - Moçambique

10. O espanador - Rússia e Ucrânia

10.A. O espanador - Ucrânia

11. O espanador - Turquia

12. O espanador - Síria

13. O espanador - Israel

14. O espanador - Índia

15. O espanador - China

16. O espanador - Coreia do Norte

 

Auto-estima

por Isabel Paulos, em 19.05.22

Creio que há muita confusão sobre aquilo a que se chama auto-estima. Constantes manifestações de certeza, desinibição, contentamento consigo próprio no que concerne à imagem física e intelectual e com a própria visão do mundo escondem não raro mera necessidade de afirmação e fuga em frente. Ao passo que a aceitação das deficiências e fragilidades pode corresponder a maior consistência e conforto na avaliação que se faz se si próprio.

É difícil fazer entender aos afirmativos que a autocrítica não é um monstro autodestrutivo nem a assunção dos defeitos conduz à infelicidade. Pode até ser uma forma de robustecer o carácter.

Naturalmente, em tudo isto haverá um ponto de equilíbrio mais aconselhável. Mas numa época em que se privilegia a venda da fantasia, do artifício da imagem física e intelectual, convém lembrar estas pequenas nuances.

Recapitulando

por Isabel Paulos, em 16.05.22

Crapô

por Isabel Paulos, em 05.06.21
 

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Entre outros jogos de cartas em criança e adolescente joguei muito Crapô - uma espécie de Paciência disputada por dois jogadores. No mundo das cartas há um sem-número de expressões usadas, herdadas de antigos parceiros de mesa de jogo. O Crapô era sobretudo pretexto para longas conversas com os meus compinchas de serão: avó, mãe e primo.

Lembrei-me disto a propósito de uma expressão que a minha mãe usava quando na minha vez de jogar e havendo casas abertas, mostrava os passos todos - provando que era possível a jogada -, em vez de ir directa à conclusão, não insultando a inteligência da adversária. Dizia a minha mãe que se a sô dona L.W. ali estivesse me diria para não fazer joguinhos infantis. Referia-se à companheira de Crapô no Uíge.

A escrita e a opinião também têm joguinhos infantis. Temo até que na maior parte das vezes não tenham mais do que isso mesmo. A obsessão da enumeração dos factos – os necessários e os inúteis - para conferir aparente seriedade às opiniões sujeita o mundo actual a um enorme e emaranhado dilúvio de argumentos supérfluos. E a reacção das pessoas que não estão viradas para joguinhos infantis acaba por ser a do gato do anúncio face à conversa da dona que lhe traz whiskas saquetas: obviamente, desliga para o Vaticano até ouvir o sumo do diálogo.

Consciente que no mundo actual vale a gestão das minudências e do supérfluo, quem não souber memorizar e digladiar argumentos supostamente fundamentados mesmo que forjados, estará votado à desconsideração. Factos existem para todo o gosto e feitio, vingam os floretes e oratória – conclusão a que cheguei na adolescência ao assistir ocasionalmente à verborreia argumentativa em lugares em que se dizia dar valor à opinião. A atenção a estas nuances terá contribuído para que começasse a lidar mal com o contraditório - megera me assumo.

Claro que a falta de consistência também existe. O passar um conjunto de cartas para uma casa aberta, sem demonstrar possibilidade da jogada, colocando-as duas a duas nas outras também abertas previamente, pode ser abusivo e enganoso por não ter fundamento (suficientes casas abertas) e estará dependente da seriedade de quem faz a jogada e da atenção do outro jogador verificar a sua legitimidade – será batota?

Este texto não é dirigido a ninguém em especial, nem crítica a ninguém em especial. É tão só uma constatação do absurdo argumentativo em que se transformam trocas de opinião aparentemente informadas e sofisticadas. Se esvaziássemos todo o supérfluo dessas discussões veríamos que a verdade e o essencial estão bem longe, e cada vez mais longe e arredados do que vinga no mundo.

No fundo, no fundo este postal é capaz de ser tão só saudade dessas jogatinas e do tempo em que me divertia com a Batalha Naval e a Bisca na escola ao invés aglutinar conhecimento como seria suposto. Deve ser isso. Nunca fui grande aluna nem jogadora, mas sempre aproveitei o momento e tentei dar atenção ao essencial.

Gota de realidade

por Isabel Paulos, em 14.05.22

Um exercício de fantasia de extraordinária utilidade seria trazer ao mundo dos vivos as grandes personalidades citadas amiúde. Deixá-las tomar o ar do tempo durante um período razoável para se inteirarem da actualidade e fazê-las pronunciar-se sobre as extorsões e manipulações de que são alvo por quem as cita para justificar de modo abusivo e absurdo opiniões actuais.

A manta

por Isabel Paulos, em 13.05.22

A vida parece uma manta curta. Sente-se frio nos ombros descobertos, puxa-se por ela para aconchegá-los e logo enregelam os pés.

Vai-se aprendendo a saborear cada pequena conquista, tomando consciência da impossibilidade de total regozijo.

Mundo estranho

- desinformação institucionalizada e trolls –

por Isabel Paulos, em 11.05.22

Ontem no Jornal da Noite da SIC foi apresentada uma reportagem sobre o uso do cibercrime pelo regime russo. No início pensei que fossem falar do papel e perigo dos hackers organizados em máfias estruturadas mantidas pelo estado, mas não, o trabalho era sobre trolls – parecendo que não as aptidões de uns e outros estão em patamares bastante diferentes. Os últimos também são organizados, protegidos e usados pelo estado russo, porém o seu papel não é diferente ao usado em todo o mundo, com conhecimento dos estados e de grande parte dos cidadãos, por empresas (máxime, as tecnológicas) que pretendem promover e vender os seus serviços e produtos.

Num mundo onde há anos vinga a desinformação institucionalizada na comunicação social – por evidente desqualificação de quem nela trabalha e por estar corrompida pela promiscuidade com governantes e importantes interesses económicos e classes profissionais, não é de espantar que se desça mais um degrau na degradação da democracia. A elevação ao poder fáctico e protagonismo destes (trolls) grunhos cuja ambição máxima é a posse e condução de lamborghinis e poderem gabar-se de modo grotesco dos lucros de milhões que obtém, por exemplo, através de furto de dados e acesso a cartões bancários - e que muito se assemelham no estilo de vida e ambições ao actual submundo da droga dos rappers norte-americanos -, soa ao previsível avesso do baixar de fasquia no espaço público.

A promoção no espaço público do rafeiro e acéfalo adornado com uma fina camada de verniz de pretensa instrução e até erudição caminha para a indistinção pelas massas do certo e do errado, da verdade e da mentira. Se o exemplo é o aparente e refinado conhecimento, na verdade falso e rasca, não há como ter referências e vinga a fácil adesão seja às marés da doutrinação institucionalizada do politicamente correcto seja à mais agressiva propaganda promovida por entidades criminosas de trolls, constituindo as duas faces da mesma realidade.

Há quem diga que este discurso é perigoso. Afirma-se que desacreditar o papel das instituições e da comunicação social tradicional é abrir caminho ao descalabro e deterioração dos grandes valores civilizacionais. Já a mim, que não risco nada e penso que não se deve pregar prego sem estopa, parece-me que este tipo de defesa em causa própria, incapacidade de autocrítica e fuga em frente da voz dominante sempre convencida da sua superioridade e autopromovida a grande defensora da democracia e da liberdade constituirão algumas das principais causas do descalabro que se avizinha.

Juízo

por Isabel Paulos, em 04.05.22

Não havendo segurança e juízo crítico sobre si mesmo é muito difícil resistir à tentação de se mostrar mais conhecedor que os demais. O velho tique da adolescência do “eu sei” mantém-se vida fora, ainda que dissimulado nas subtilezas no discurso, quanto mais inseguro se é e mais necessidade de afirmação se tem. Com o passar dos anos todos adquirem informação e, menos vezes, conhecimento sólido sobre os mais variados tópicos, que juntam aos valores, tiques e preconceitos herdados. A contenção no permanente arremessar de pretensa sabedoria, dando espaço para respirar a quem está à volta é arte que devia ter mais cultores, mesmo assumindo que os outros o tomem por desconhecimento, e mesmo que entremeada com frontalidade pouco dada à conquista de fáceis simpatias. Nada que se confunda com a ostentação de tolerância ou condescendência, que servem mais para dar lustro ao ego do que para respeitar os demais, apesar de terem muita saída e admiradores entre indivíduos e espaços onde vinga a aparência. Trata-se antes do simples evitar recorrer, a pretexto de se mostrar mais perspicaz e sapiente, a chavões, bengalas e contra-clichés de gosto mimetizando o que é uso corrente nas castas sociais e intelectuais, confundindo tudo isto com instrução ou refinamento do conhecimento e que mais não traduz senão extraordinária necessidade de se enaltecer à custa de segregar o poviléu. Desta forma nunca ninguém se conseguirá enobrecer, mas tão só vender imagem vã e perpectuar a falta de instrução dos portugueses e tino do país.

A ver

por Isabel Paulos, em 30.04.22

A ver na SIC o programa 60 Minutos sobre a capacidade de destruição da Rússia através de ciber-ataques, nomeadamente no sector da energia incluindo a nuclear, e a forma como os Estados Unidos se preparam para os ditos e pretendem retaliar.

De recordar que Portugal, como vários países, foi alvo em Fevereiro último de ciber-ataques com origem numa bem estruturada máfia de hackers russa a empresas do sector das telecomunicações, saúde, audiovisual e financeiro.

De lembrar que essa máfia ataca em bloco através de milhares de pontos espalhados pelo mundo. 

Ex-pata

por Isabel Paulos, em 30.04.22

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Há uma noção básica de bom senso que muitos não conseguem perceber ao comentarem a invasão da Ucrânia pela Rússia, habituados que estão ao sensacionalismo e à linguagem de claque do futebol. Condenar com clareza a invasão, os crimes de guerra, o facínora do Putin e a sua clique não implica beatificar os Estados Unidos. Ser cauteloso ou mesmo crítico do papel dos norte-americanos no mundo não é incompatível com tomar posição pelo lado certo. É tão só ser prudente e, em muitos casos, tirar lições da História.

Digo isto bem ciente de também ter feito no passado o papel de pato ou, no caso, de pata, ao entrar no pingue-pongue infantil anti-comunismo versus anti-americanismo, cuja consequência é a eternização do conflito, e com isto não estou obviamente a defender a rendição da Ucrânia.

A apropriação

- os sempre em pé -

por Isabel Paulos, em 30.04.22

Muitas das lenga-lengas ideológicas a propósito por exemplo da música são anedóticas. E quem diz música, diz pintura ou literatura. O branqueamento da realidade passada em beneficio do endeusamento dos bens amados vigentes é um exercício de pura desonestidade. Mas é isso que vinga. A verdade fica sempre mais escondida e recatada, apesar da moda dos ardilosos polígrafos, que prescrevem aparentes verdades. O que interessa é fazer associações primárias ou falsas para defender os privilegiados do regime que se dizem todos muito solidários com os desfavorecidos e oprimidos, mas de modo que não os faça parecer anacrónicos - dizem-no numa retórica moderna e sofisticada que sou incapaz de reproduzir. Essas ladainhas de sucessivas efabulações disseminaram-se na sociedade de tal modo que os últimos se convenceram de tais "verdades" suportando com ignorância e voto o status dos primeiros. Até ver, começam a desconfiar.

Não há sentido crítico de espécie alguma, mas apenas mexerico e maledicência para entreter elites de fancaria e populaça, que têm vivido em profunda harmonia nesta paz podre pronta a explodir.

Não há concessões ao sensato, não há respeito pela verdade multiplicando-se à exaustão as historietas de evangelização e as lavagens cerebrais com milhões de notícias ditas muito factuais e opiniões fofinhas plagiadas - passadas a papel químico neste tempo insano em que não se ousa parar e pensar. Condena-se sumariamente todo aquele que disser o razoável caso não vá ao encontro dos estreitos quadros mentais que suportam os mitos em voga. Além de se enxovalhar quem chame a atenção para o perigo de visões únicas e para a iminência da substituição destas efabulações por outras mais perigosas, às quais muitos aderirão por cansaço e desconfiança da mentira. A menos que se comece a respeitar de facto e não através de aparente tolerância as visões e aspirações legítimas que vão sendo abafadas pelo ruído da evangelização, muitos quererão substituir engodo por engodo por necessidade de arejo e os chicos-espertos do costume que dominam os jornais, blogues e redes sociais e o espaço público de opinião estarão agarrados como lapas aos confortáveis postos do regime actual até ao dia em que este cair e passarem, com enorme convicção, a grandes educadores no novo sistema. São os sempre em pé, disfarçando-se de grandes democratas e defensores do pluralismo enxovalham todos quantos não pertencem às tribos de interesses ou não aderem à visão única do momento ou tão só aos que se mostrem um pouco mais rectos não usando maginâncias em política e que poderiam ser salvação ao extremismo, preferindo elogiar a inteligência e sagacidade política dos oportunistas, alçando-os à governação. Alegam que de forma perspicaz se limitam a relatar ou descrever factos, camuflando a forma como, associados e encostados em tribo alargada que debita a mesma oração diária nos espaços públicos, evangelizam a opinião pública condicionando o voto. E cheios de prosápia chamam a pessoas como eu radicais, aconselhando-as a se quiserem ser consideradas vergarem-se aos argumentos dos iluminados. Têm o Governo que quiseram e merecem: bem à imagem da elite rasca e pretensiosa que doutrina o país.

Elos de conhecimento

por Isabel Paulos, em 28.04.22

Pode dar ideia que misturo ideias tirando ilações erradas, mas talvez não seja assim. Das coisas que mais gozo me dá é ver gente nascida por exemplo na segunda metade da década de 90, agora na casa dos 20, a declarar-se apaixonada pelo talento de grandes músicos do século passado já desaparecidos e, em muitos casos, afastados das lides públicas já aquando do nascimento destes mais novos admiradores. O papel dos pais e outros familiares é neste campo essencial. Por vezes o conhecimento chega por outras vias: gente que se vai cruzando na vida dos mais novos - veja-se o caso dos professores -, que dá os lamirés necessários para o despertar da curiosidade. Quem fala de música, fala de literatura, pintura e demais artes. É uma delícia ler comentários das entradas no Youtube vendo a confluência de várias gerações num mesmo espaço irmanadas pelo gosto do que é bom – pena não ter muito tempo.

Ao longo da vida lidei com pessoas – entre muitas outras, felizmente – que desdenhavam, tantas vezes ridicularizando, o gosto dos mais velhos nas mais diversas áreas. Desde a gastronomia, à moda ou à música. O cliché do conflito de gerações - tema muito na moda quando era novita - mina o que se pode concluir deste desdém. Justificá-lo apenas com a natural evolução e necessidade de modernização, atirando o antigo para o campo do anacrónico quando não defeituoso ou nefasto, é a fórmula certa de deseducar os mais novos. A natural necessidade de afirmação e demarcação das novas gerações e o seu contributo como sangue novo, ímpeto e rasgo não faz esquecer que não há verdadeira abertura de espírito, evolução e civilização sem conhecimento e respeito pelo passado. Convém fazer perceber que não nasceram de geração espontânea tal como todas as descobertas - tantas vezes apresentadas como inquestionáveis achados dos novos tempos - não nascem do acaso, mas da linha contínua de contributos de gente muito válida das gerações anteriores - às vezes ostracizada pelas elites actuais por desencontros ideológicos com os lugares-comuns em voga no presente. Confirmei ao longo da vida que quanto mais desconhecedoras e desrespeitadoras do antigo são as pessoas, mais ignorantes ou certas da bondade dos valores que vingam no presente estão, e mais fáceis de manipular na adesão inconsequente às modas ou falsas contra-modas, tantas vezes inchadíssimas ao invocarem a ciência e a erudição (da treta) para efeito.

Isto não obsta a que reconheça que viver com a cabeça no passado e a falta de capacidade de compreensão do presente e novo conduz a uma certa alienação. Como em quase tudo, o meio termo faz a virtude.

Batendo numa das teclas habituais das Comezinhas, isto é, continuando a ser chata como a potassa ou chata como a ferrugem (assim me diziam em pequena), acrescento que a má fama do que é antigo funda-se também no mau exemplo da prosápia de muitos ditos connaisseurs que rejeitam e desprezam as abordagens desempoeiradas, os registos despretensiosos e o uso de plataformas e suportes mais modernos onde o conhecimento pode ser disseminado, utilizando-os à socapa em proveito próprio para robustecer as ideias sem pagar o devido tributo. Trata-de de gente e grupos que mais do que conhecimento buscam auto-gratificação, pose e auto-promoção. Em muitos casos apesar da aparência pouco valem como transmissores de pensamento, ciência e arte.

Mais uma vez: se tudo isto parece evidente e básico para tantos, para quê perder tempo? Por uma razão simples, o que parece lana-caprina a uns, não é imediato para outros. Dir-se-ia que a rejeição da pompa pelos mais novos ou desempoeirados é imediata não precisando de alerta e que qualquer indivíduo adulto medianamente inteligente percebe a importância do passado sendo escusadas as linhas naïf que dediquei ao assunto.

Há contudo um aspecto que vejo sempre bastante esquecido: o escusado hiato entre mundos díspares. Numa sociedade que se diz muito tolerante e plural, na qual toda a gente parece ter opinião e ser ouvida, a questão base fica por resolver - chegar ao outro não é apenas deixá-lo exprimir o que pensa e sente. É respeitar. É integrar no seu o que é válido no pensamento do outro não batendo o pé por ignorância militante, necessidade de afirmação, vontade de achincalhar ou por perceber que o conflito fútil rende dividendos reputacionais ou venais. Enquanto estrategicamente se confundir respeito com pensamento único, fazendo-o confundir com aquilo a que se chama respeitinho, aproveitando para o fazer cair no ridículo, não se percebe o essencial.

É também aqui que reside a causa da incultura e atraso da sociedade portuguesa, muito mais do que nos lugares-comuns sempre atirados para a discussão: o atraso económico do país, a falta de meios na educação, a falta de hábito de leitura. Nem o país é pobre, nem as dotações para o ensino são parcas, nem os miúdos lêem tão pouco (e não vou entrar na discussão estéril e também falsa da qualidade da leitura) quando comparados com as gerações anteriores. Enquanto vingarem a aparência, os clichés sobre os benefícios da leitura disseminados por gente que se percebe não entender o que lê, beatificando o ritual e a imagem em vez do lógico e real não vamos sair da cepa torta. O país beneficiaria sim, se os pretensos sábios nas mais variadas áreas profissionais descessem dos pedestais infundados e percebessem que a democracia (ai, credo, democracia escrita em minúscula) não existe para favorecer os mais fortes nos dotes de retórica e na capacidade de agremiação e auto-promoção, mas para dar a oportunidade a todos de viverem melhor e em liberdade, o que só se consegue com acesso generalizado e igualitário ao conhecimento - não confundir com acesso às peanhas da bazófia e do estéril, os bens maiores por que tantos se engalfinham em Portugal.

À devida escala todos os indivíduos são elos de conhecimento, por parco que seja. E quanto mais humilde se é a mais gente se chega. Como dizem as empregadas domésticas companheiras de viagem de autocarro, com quem muito aprendo: não levas o dinheiro para a cova. Nem a bazófia, acrescento.

A ler

por Isabel Paulos, em 26.04.22

(Há dois meses fui alertada para a importância desta questão por via de alguém que vive na Austrália.)

*

In late March, journalists revealed that China and Solomon Islands had signed a policing agreement. Someone from within Solomon Islands government also leaked a broader draft security agreement with China. In April, this agreement was finalised and signed. (Its text hasn’t been released but appears likely to be very similar to the draft.) You can see the draft here. It’s short and clear. Solomons can ask China to provide police and military assistance. If, and only if, Solomon Islands government of the day consents, China can “make ship visits to, carry out logistical replenishment in, and have stopover and transition in Solomon Islands, and relevant forces of China can be used to protect the safety of Chinese personnel and major projects in Solomon Islands.” Permanent bases are not mentioned.

*

One of the most senior US officials in the Pacific has refused to rule out military action against Solomon Islands if it were to allow China to establish a military base there, saying that the security deal between the countries presented “potential regional security implications” for the US and other allies.

[...]

“Of course, we have respect for the Solomon Islands sovereignty, but we also wanted to let them know that if steps were taken to establish a de facto permanent military presence, power projection capabilities, or a military installation, then we would have significant concerns, and we would very naturally respond to those concerns,” he said.

[...]

Pressed on whether he would rule out the prospect of the US taking military action against Solomon Islands were a naval base to be established, and, if not, whether he was comfortable with Australian prime minister Scott Morrison’s talk of the base being a “red line” for Australia, he said: “I don’t have a lot to add beyond what I’ve already stated.”

 

Correu bem

por Isabel Paulos, em 24.04.22

Por vezes compensa ser picuinhas. Ontem na área de cliente da NOS dei ordem de rescisão do contrato. Em causa apenas a cobrança acrescida de 1 euro mensal, ou melhor, a questão de princípio da forma incorrecta como esse valor fora obtido. Tive dúvidas de o fazer, pensei no trabalho que iria ter ao mudar para outra operadora - sabendo que a forma de funcionamento de cada uma não difere -, no transtorno de passar algum tempo sem serviços. Mas também na hipótese remota de me ligarem da NOS a rever a posição da empresa.

Hoje recebi a chamada desejada com a correcção e simpatia do funcionário (os Guerreiros costumam ser delicados) que pude testemunhar na maioria dos contactos em todos os anos de cliente desta operadora - nunca usei os serviços de outra. Fez-me uma proposta de melhoria dos serviços por menos 4 euros mensais. Naturalmente aceitei.

Mover o mundo

por Isabel Paulos, em 22.04.22

O estardalhaço apesar de irritante e de mau gosto é neutro, pode ser positivo ou negativo. Ser ouvido mais longe, atingindo mais público, dá azo a propalar o benigno ou maligno. Mover o mundo através da influência discreta nessas bolhinhas barulhentas pode constituir um papel útil. Ninguém dá pelo cutucar, como dizem os brasileiros, nos detentores dos megafones e poder-se-á obter frutos positivos por mais ténues pareçam. Ver nascer migalhas de lucidez no meio do espalhafato das certezas já não é mau. Ainda que o estardalhaço continue dia após dia a enaltecer o aparente valor das pandilhas de promovidos.





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