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O caminho expectável

- dois anos depois -

por Isabel Paulos, em 21.01.22

O que nos deixa advinhar a sondagem de ontem? E mais ainda aquilo que acredito (posso estar errada, não nego, mas é pouco provável) que vai acontecer dia 30 de Janeiro? Que depois da reconfiguração à esquerda é tempo de ajustamento à direita. Estava escrito nos astros. É preciso que tudo mude para que tudo fique igual (referência para deixar os intelectuais contentes, senão ou não percebem o óbvio ou consideram-no desprezível).

O percurso normal tem-se feito com os protestos previsíveis e veementes da esquerda e o veneno próprio de uma direita dissimulada e presumida sempre à cata de interesses egoístas - agarrada artificialmente à bugiganga pseudo-ideológica esquerdista, à fina capa de verniz a que aderiu por conveniência há 40 anos ou em que foi instruída nas últimas décadas e da qual só aproveita o nefasto rejeitando os valores que interessam -, o caminho da reconfiguração do jogo de forças políticas está-se a fazer. A realidade tem muita força, não adiantando o ruído de tantas vozes cheias de si e de tempo de antena (na comunicação social e nos espaços online), todavia alheadas do real.

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Cansaço

por Isabel Paulos, em 20.01.22

Novamente a pergunta (já aqui feita em a 6 de Janeiro): por que razão é provável que Rui Rio ganhe as eleições a 30 de Janeiro?

O desdém com que se zomba do eleitorado que votará em Rui Rio, convencido da sua seriedade e de uma data de outras virtudes que o distinguem dos demais, é próprio de gente sobranceira, habituada a considerar-se detentora de uma autoridade que advém de tudo relativizar salvo meia-dúzia de lugares-comuns que correm entre a minoria de auto-investidos intelectuais do regime. Entre esses clichés a ideia de não haver puros, todos estando corrompidos pelo mal. Não é que não seja  verdadeira, mas a forma como é usada é desastrosa: pouco habituados a exames de consciência ou a reconhecerem defeitos graves (salvo em larachas de humor para atraírem mais admiradores), disparam sucessivamente contra os que por alguma razão são tidos pela população como portadores de qualidades incomuns como se precisassem de iluminar as trevas de obscurantismo.

Tratam os portugueses que acreditam em Rui Rio (e o próprio, naturalmente) como imbecis. Pouco mais de pacóvios crentes em banhos de ética e declarações do mesmo tipo. Não ocorre pensarem que a população conhece bastante melhor do que os próprios trocistas a ambiguidade de afirmações como aquela. Sucede que muitos portugueses apreciam gente que não se enreda em discursos vazios e dissimulados muito apreciados pela elite lisboeta, erroneamente tidos por profundos testemunhos de conhecimento por se confundir forma e conteúdo. Muito menos têm paciência para iluminados de algibeira. Há um enorme cansaço do artifício e da falsidade. A franqueza conta de facto. É qualidade desconhecida da elite que tropeçou nos corredores do poder em Lisboa e que no afã de se ter por sofisticada mais se assemelha aos discursos de psicologia barata das secções de lifestyle das páginas virtuais. É natural que os eleitores queiram saber por uma vez em muitos anos aquilo com que contam, sem precisar de estar permanentemente a depurar todas as palavras ditas por políticos e comentadores para abstrair das manobras de distracção e engodos. Cansaram-se da falsidade promovida a sapiência.

Uva-passa

por Isabel Paulos, em 18.01.22

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Pergunto-me onde armazenamos tanto do que vivemos. Uma fotografia, uma palavra, uma recordação. Episódios e realidades tão distantes uns dos outros. Gente e terras tão díspares. Sensações incomparáveis. E a imensidão de fragmentos posta em sossego eterno até que minuciosa pesca à linha a vai trazendo à tona por porções de imagens, sons, dores que já não ferem a ferro quente, sentimentos difusos, toques, ápice de arrepios, sabores, cheiros, alegrias a comover em subtil fuga.

Camadas e camadas de esquecimento sobre as sensações passadas, sobre gente de carne e osso e paisagens com alma que passam sem mirrar como a uva-passa.

Ficam etéreas num espaço de ausência até ao momento de presas a isco inconsciente serem içadas por frágil linha e, tomadas nas mãos presentes em desvelo de dedos um pouco mais sábios, reanimarem os dias.

Cada vida é um universo gigante de recordações por memoriar.

Dois caminhos

- debate António Costa / Rui Rio -

por Isabel Paulos, em 14.01.22

O actual Primeiro-Ministro demonstrou no debate de ontem estar orgulhoso do caminho traçado nos últimos anos, tanto que ao exibir grotescamente o dossiê de argolas com o Orçamento de 2022 – a fazer lembrar os vendedores de flores nos bares dos anos 80 e 90: qué flô? – anunciava uma chuva de benesses para muitas famílias portuguesas que continuariam a ver o seu rendimento aumentado artificialmente se os portugueses o reelegessem. Continua a falar em grandes resultados como a redução do desemprego ou o aumento das exportações, ignorando olimpicamente a situação do país quando comparada no quadro europeu com os índices económicos a colocarem-nos atrás dos países de leste que aderiram mais tarde à União Europeia, como o líder do PSD relembrou.

Já Rui Rio vem dizer preto no branco que não tenciona abonar os portugueses com mais disponibilidade de rendimento – seja por via do aumento de salários seja por diminuição da carga fiscal – caso a mesma não esteja ancorada no aumento de produtividade e numa melhor performance da economia portuguesa. A mensagem é muito simples: só se redistribui aquilo que existe para não se incorrer no erro dos sucessivos governos socialistas no engrossar da dívida pública e no consequente empobrecimento progressivo dos portugueses. O mote "temos que ser mais produtivos seja no sector privado seja no público" poderia ser a ideia central do debate de ontem por parte do PSD. A mensagem é bem menos simpática do que a do actual Primeiro-Ministro. Resta saber se os portugueses aderem, acreditando por uma vez que vale a pena o esforço no presente para, nas palavras de Rui Rio, melhorar não o imediato - o amanhã - mas o futuro.

Como já aqui expus repetidamente tenho reservas de que não se pudesse harmonizar posições, mas ontem com a questão de João Adelino Faria sobre a possibilidade de introduzir factores de discriminação na redução do IRC em função por exemplo do montante dos salários ou das qualificações, o líder do PSD foi peremptório: não é para isso que serve a baixa de IRC, mas sim para potenciar o crescimento. É esta a ideia que Rui Rio tem encasquetada, julgo que acredita de facto que as leis do mercado funcionam e que a riqueza virá a ser bem redistribuída por esta via. Da minha parte já aqui disse várias vezes que não acredito em tanta bondade do mercado. Mas não deixo de reconhecer que é muito positivo introduzir a ideia de necessidade de correspondência entre o que há e aquilo que pode ser dado – foi assim que Rui Rio geriu a Câmara Municipal do Porto com êxito. Recordo bem os anos anteriores à sua gestão e o pandemónio que foi a Porto2001 e como conseguiu assumindo os encargos da presidência antecedente terminar as obras e os contratos anteriores sem aumentar a despesa pública, não abrindo a torneira da bolsa de emprego público para caçar votos, pagando a conta e ainda assim deixando verba para o executivo seguinte terminar algumas obras.

Para além do rumo económico do país, Rui Rio marcou mais um ponto ao conseguir fazer com que António Costa afirmasse que se ganhasse sem maioria teria que negociar talvez como no tempo de António Guterres, isto é, assumindo o PSD como possível interlocutor. Para quem como António Costa gosta tanto de falar na necessidade de estabilidade era forçoso que demonstrasse que está na disposição de fazer sacrifícios para a obter.

O líder do PSD marcou pontos também a confrontar o Primeiro-Ministro com a incongruência do aumento do número de funcionários públicos e a cada vez maior ineficiência dos serviços. Tal como esteve bem em elogiar o Hospital de São João para demonstrar que é preciso apostar na boa gestão dos serviços públicos.

Onde Rui Rio está normalmente mal é em matéria de Justiça, na qual consegue sempre cometer argolada. A maldade do comentário de António Costa na sugestão do telefonema a Paulo Rangel saiu-lhe bem já que é notório que Rui Rio ainda não percebeu o alcance do princípio da separação dos poderes num Estado de Direito nem a necessidade de autonomia e independência dos tribunais. Ainda assim, é de facto caricato que seja o Primeiro-Ministro (e o seu Governo) que mais interferiu em benefício próprio e do PS nos órgãos de gestão e disciplina dos juízes e tribunais, a alertar para o perigo da promiscuidade – a desfaçatez não tem limites. Nestas matérias, como em muitas outras, as pessoas fazem toda a diferença e se bem que não tenha qualquer dúvida que o líder do PSD me dá mais garantias de isenção do que o habilidoso António Costa, é na salvaguarda das instituições que a Democracia assenta, por muito que os pivôs políticos a cada momento subvertam os valores que as regem – como António Costa tem subvertido apesar de depois se achar no direito de dar lições.

Mal muito mal esteve António Costa à saída do debate a fazer uma extensa intervenção de comício, fazendo acusações injustificadas como aquela da substituição na Constituição da expressão “tendencialmente gratuita” dos serviços públicos na área da saúde, imputando ao líder do PSD uma intenção de passar a cobrar os serviços à classe média sem qualquer justificação.

Rui Rio esteve bem ao abreviar a mesma declaração a que teve direito, pena aquela pantomina das bandeirinhas da JSD. Mais um toque de comício no fim do debate.

Modelo de debates

por Isabel Paulos, em 11.01.22

Ao contrário da maioria das opiniões que li (foram poucas) o modelo de curtos debates utilizado para estas legislativas parece-me muito acertado. Os longos tempos de antena que se ofereciam aos candidatos para fazer propaganda foram bem coarctados, forçando-os a serem contraditados por todos os outros e a cingirem-se aos pontos fulcrais e mensagem que querem passar. Obriga-os a disciplina e poder de síntese – duas vantagens.

E quem diz que daqui só saem sound bites esquece que tal já acontecia nos debates mais demorados, cujo encher chouriços era sempre reduzido aos chavões nos dias seguintes.

Bom, bom seria usar o mesmo critério para os jornais e espaços de debate. Em vez de continuarmos a assistir ao chover no molhado de 30 minutos de estados de alma dos especialistas, comentadores e jornalistas sobre a pandemia, ou o ânimo dos portugueses no momento clássico das televisões de abastecer combustível em tempo de aumentos - fico sempre à espera da verdadeira notícia, o dia em que apareça um automobilista a dizer: estou muito contente como esta  subida de preço – poderíamos ter jornais de 30 ou 40 minutos por inteiro que nos informassem das notícias do país e do resto do mundo.

Em ambos os casos a conversa mole para boi dormir interessa sobretudo a quem não sabe como resolver os problemas e gosta de enrolar durante horas. Quem age e faz a diferença fala menos, analisa com sobriedade e executa. Sem lero-lero.

Recapitulando

- salário médio -

por Isabel Paulos, em 10.01.22

É extraordinário como muitos acordaram no último mês para o drama do baixo salário médio quando comparado com o praticado na União Europeia. Tive oportunidade de fazer essa referência no passado dia 4 de Março de 2021 e em momento algum me passou me cabeça questionar o aumento do salário mínimo. Há uma diferença em quem trata a questão pura e simplesmente para fazer chicana política e quem se preocupa com os portugueses mais penalizados pelas discrepâncias da nossa economia. Os meninos bem instalados e cheios de si (dos 18 aos 80) que enxameiam os jornais e as redes sociais do seu nervoso com o aumento do salário mínimo mostram quão patetas e egoístas são ao não se preocuparem nem por um segundo em resolver o problema dos baixos salários. Como eternos adolescentes lêem-se e copiam-se em circuito fechado, atiram a chapa-cinco dos últimos dois meses: é preciso promover o crescimento económico para que o mercado por si pague melhores salários, escamoteando que a justiça salarial não funciona por si mesma em Portugal onde, salvo honrosas excepções que confirmam a regra, há a tradição de pagar salários miseráveis independentemente da produtividade e dos lucros, sendo uma patranha tonta de quem percebe zero do país onde vive, tratando isso sim de fazer pela sua própria vidinha. Tacanhez de gente muito videirinha que gosta de falar em venezuelização quando convém, e como de costume zela pela mediocridade que a eleva e sustém no privilégio.

 * 

Salário e descida de IRC com discriminação positiva

- proposta -

por Isabel Paulos, em 08.01.22
 

Em matéria de salários direita e esquerda barricam-se em posições antagónicas sem necessidade.

Está certa a direita ao afirmar que as empresas portuguesas são penalizadas por excessiva carga fiscal – além do manancial terceiro-mundista de burocracias - e que assim sufocadas dificilmente podem constituir o motor do crescimento que o país precisa para vingarem melhores salários. É verdade que aumentar salários sem apostar na base de sustentação da economia – as empresas – fomenta as importações e aumenta o endividamento público.

Da perspectiva de esquerda é inegável que os salários em Portugal são miseráveis e não havendo intervenção do Estado assim permanecerão por não haver uma cultura de respeito e retribuição justa pelo esforço e empenho dos trabalhadores. Aliás, o mal não reside apenas nos baixos salários, mas no abuso da precariedade, na carga horária excessiva, na desconsideração pelas qualificações etc.

Ao ouvir Rui Rio – em quem vou votar nas próximas eleições legislativas de 30 de Janeiro - apresentar a proposta de redução do IRC, de 21% para 19% em 2023 e 17% em 2024, ocorreu-me o tenho vindo a pensar (e escrever) nos últimos anos: em Portugal não podemos confiar no normal funcionamento do mercado como advogam os liberais, esperando que os salários aumentem à medida que as empresas se fortaleçam. Salvo honrosas excepções, essa não é a tradição das relações de trabalho entre nós. Os trabalhadores bem podem esperar sentados, aliás, bem desmotivados como se habituaram a viver.

A solução que julgo simples e exequível sob o ponto de vista fiscal é fazer uma discriminação positiva da tal baixa de IRC. Ou seja, premiar com a redução apenas as empresas que façam prova de que uma parte do benefício fiscal obtido desta forma serviu ou servirá para aumentar salários – bem sei que a maioria das empresas portuguesas têm baixa facturação, sendo o impacto muito reduzido, mas a medida teria ao menos nesses casos um efeito de moralização e de justiça básica. É certo que as empresas têm que investir no seu próprio desenvolvimento, seja através de despesas com a inovação, formação, promoção junto de novos clientes ou mercados, etc., mas não podemos esquecer que a base de sustentação da maioria das empresas é o trabalhador – quem faz, quem cria riqueza. Sendo por isso imperioso aumentar a despesa da empresa com os próprios trabalhadores.

O salário é todavia apenas uma das componentes a ter em conta. Outra seria por exemplo a das qualificações. Porque não fazer depender o benefício da descida do imposto a empresas que valorizem efectivamente – também por via do salário – trabalhadores qualificados?

Se não se impuserem regras estou certa que a diminuição do IRC, que parece à partida uma medida adequada, cairá em saco roto perpectuando-se as injustiças.

A ideia apresentada nas linhas precedentes – não sei se alguma vez objecto de proposta por alguém - é viável. Estou certa que haveria inúmeros fiscalistas capazes de desenhar um mecanismo exequível para a colocarem em prática. Parece-me bastante mais interessante do que que continuar com conversa sobranceira sobre os perfis e discursos mais ou menos atraentes de cada candidato ou sobre coligações, as quais poderão nem sequer ser necessárias.

*

Leituras complementares

O País, Caldeirada Com Todos..., 4 de Março de 2021.

Momento extraterrestre, 29 de Setembro 2021.

 

Salário e descida de IRC com discriminação positiva

- proposta -

por Isabel Paulos, em 08.01.22

Em matéria de salários direita e esquerda barricam-se em posições antagónicas sem necessidade.

Está certa a direita ao afirmar que as empresas portuguesas são penalizadas por excessiva carga fiscal – além do manancial terceiro-mundista de burocracias - e que assim sufocadas dificilmente podem constituir o motor do crescimento que o país precisa para vingarem melhores salários. É verdade que aumentar salários sem apostar na base de sustentação da economia – as empresas – fomenta as importações e aumenta o endividamento público.

Da perspectiva de esquerda é inegável que os salários em Portugal são miseráveis e não havendo intervenção do Estado assim permanecerão por não haver uma cultura de respeito e retribuição justa pelo esforço e empenho dos trabalhadores. Aliás, o mal não reside apenas nos baixos salários, mas no abuso da precariedade, na carga horária excessiva, na desconsideração pelas qualificações etc.

Ao ouvir Rui Rio – em quem vou votar nas próximas eleições legislativas de 30 de Janeiro - apresentar a proposta de redução do IRC, de 21% para 19% em 2023 e 17% em 2024, ocorreu-me o tenho vindo a pensar (e escrever) nos últimos anos: em Portugal não podemos confiar no normal funcionamento do mercado como advogam os liberais, esperando que os salários aumentem à medida que as empresas se fortaleçam. Salvo honrosas excepções, essa não é a tradição das relações de trabalho entre nós. Os trabalhadores bem podem esperar sentados, aliás, bem desmotivados como se habituaram a viver.

A solução que julgo simples e exequível sob o ponto de vista fiscal é fazer uma discriminação positiva da tal baixa de IRC. Ou seja, premiar com a redução apenas as empresas que façam prova de que uma parte do benefício fiscal obtido desta forma serviu ou servirá para aumentar salários – bem sei que a maioria das empresas portuguesas têm baixa facturação, sendo o impacto muito reduzido, mas a medida teria ao menos nesses casos um efeito de moralização e de justiça básica. É certo que as empresas têm que investir no seu próprio desenvolvimento, seja através de despesas com a inovação, formação, promoção junto de novos clientes ou mercados, etc., mas não podemos esquecer que a base de sustentação da maioria das empresas é o trabalhador – quem faz, quem cria riqueza. Sendo por isso imperioso aumentar a despesa da empresa com os próprios trabalhadores.

O salário é todavia apenas uma das componentes a ter em conta. Outra seria por exemplo a das qualificações. Porque não fazer depender o benefício da descida do imposto a empresas que valorizem efectivamente – também por via do salário – trabalhadores qualificados?

Se não se impuserem regras estou certa que a diminuição do IRC, que parece à partida uma medida adequada, cairá em saco roto perpectuando-se as injustiças.

A ideia apresentada nas linhas precedentes – não sei se alguma vez objecto de proposta por alguém - é viável. Estou certa que haveria inúmeros fiscalistas capazes de desenhar um mecanismo exequível para a colocarem em prática. Parece-me bastante mais interessante do que que continuar com conversa sobranceira sobre os perfis e discursos mais ou menos atraentes de cada candidato ou sobre coligações, as quais poderão nem sequer ser necessárias.

*

Leituras complementares

O País, Caldeirada Com Todos..., 4 de Março de 2021.

Momento extraterrestre, 29 de Setembro 2021.

Para mais tarde recordar

por Isabel Paulos, em 07.01.22

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O talento para a análise política da elite portuguesa no seu melhor. No Observador.

Sabendo que todos os dias a Terra é bombardeada por meteoritos, pode ser que José Miguel Júdice desta vez tenha realmente acertado e não seja necessário deixar de fazer comentário político (como anunciou há muitos anos se não acertasse num prognóstico).

Mas isto nem é o pior (valha-nos ao menos tratar-se de pessoa civilizadíssima). Má, má é a sucessão de argumentos facciosos repetidos à exaustão com o fim de distorcer a realidade, atirados pelos artilheiros que argumentam sempre como se estivessem a falar de futebol (aliás, é aí que se treinam, nunca conseguindo despir a camisola de adepto fanático). A forma como argumentam e tentam destruir os adversários é papel-químico do bullying praticado pelos  grupos adolescentes - os cool - dos liceus. Sempre muito populares, seguidos de um clube de fãs. Uns e outros com notável grau de inteligência para o debate (a rasar a nulidade). E com isto enchem-se de brio para falar em factos e têm-se por verdadeiros democratas.

Futurologia

por Isabel Paulos, em 06.01.22

Por que razão é provável que Rui Rio ganhe as eleições no próximo dia 30 de Janeiro?

Ao contrário dos mais ilustres opinadores do twitter, dos blogues, dos jornais e das televisões RR está a assistir a um filme diferente: o do país e dos portugueses. Ler os comentários ditos de referência debruçando-se sobre os debates é muito divertido: agarram-se a todos os lugares-comuns que só nas restritas conversas ocas destas trupes são tidos por adquiridos inquestionáveis. Antes teria a tendência a dizer que vivem na estratosfera, mas isto não corresponde à verdade: são gente e vidas tão comezinhas como as dos restantes portugueses, só com a pequena diferença de viverem à custa de referências e bajulações recíprocas - da troca de favores - com base em meia-dúzia de ideias preconcebidas enfiadas à força de retórica irreflectida em gavetas muito arrumadinhas sempre prontas a ser abertas. Sobrevivem encostados numa qualquer tribo, sem qualquer espécie de independência e vêem a realidade pelos curtos binóculos da lábia de grupo.

Já os portugueses na sua maioria vivem felizmente num mundo que continua a decorrer sem dar bola a estas inutilidades. Vêem as desajeitadas afirmações de RR como evidências, estando fartos das artimanhas socialistas e tendo pouca paciência para as tribos de iluminados que tentam diariamente fazer a lavagem cerebral no sentido de manter o país no atraso ancestral que interessa para se manterem à tona.

Não sei o que vai acontecer daqui até ao final do mês, até agora diria que a maioria dos reparos a RR feitos seja por António Costa ou outros opositores, seja pelos iluminados que no fundo apreciam bastante o actual estado de coisas, caem que nem ginjas na candidatura do PSD que se vê reforçada cada vez que o tratam como um estúpido qualquer - como um simples português que pensa no seu interesse e no país. Não podia representar melhor a nação para mal dos pecados dos doutos opinadores de referência.

As palavras anteriores são tão singelas que não merecem crédito como de costume e se RR ganhar as eleições vou assistir novamente ao desenrolar de interjeições de espanto: é que ninguém esperava, ninguém previa. Assim continuamos: eles, os sábios opinadores de referência no alto da sua cátedra e as Comezinhas eternamente tidas por ignorantes, desabridas e por isso desconsideradas. E é assim que tem de ser: estamos em Portugal.

Os patinhos

por Isabel Paulos, em 06.01.22

Há um mês em conversa amena alguém me dizia: se ele ganhar dia 30 de Janeiro lá vamos passar quatro anos a assistir à chacota diária nas televisões e jornais. Limitei-me a concordar e acrescentar: e nos blogues. 

É fatal como o destino. A história repete-se. Nada surpreende: é a festa sobranceira dos iluminados do costume. O que é preciso é dar circo aos intelectuais, académicos, jornalistas e comentadores lusos - como é sabido, todos com grande inteligência e capacidade de análise e de uma frescura e lisura a toda a prova - para se entreterem com a retórica e a anedota que tanto apreciam. Tudo normal e saudável.

O país, esse - aquele que menos conhecem e pelo qual menos se interessam os iluminados -, talvez venha a beneficiar.

Opinião válida

por Isabel Paulos, em 05.01.22

É revelador do estado de mansidão a que chegamos o número de vezes a que assistimos na televisão, nos jornais e nos blogues o verberar pela opinião dominante dos meios de comunicação de massa sobre a estupidez dos que não aprendem a sujeitar-se sem estrebuchar.

O insólito é fazerem-no hasteando as bandeiras da liberdade de expressão e do contraditório, como se o admitissem quando diária e sucessivamente tentam silenciar qualquer um que não vá na corrente. Adoro parangonas como “na minha opinião”, “eu que sou um desalinhado”, “eu que penso pela minha cabeça”, logo seguidas do invocar de uma qualquer trivialidade medíocre e bronca aceite pela maioria audível e de mindinho no ar, ou então constatar a permanente censura em vácuo dos radicalismos por extremistas das conveniências e interesses.

Que fazer? Têm-se pelo nec plus ultra da opinião válida.

Dar a mão à palmatória

- actualizado -

por Isabel Paulos, em 02.01.22

Ao longo do tempo acompanhei o programa Governo de Sombra, contudo no último ano deixei de ver. Acabo por me maçar com o simplismo (por contraste à simplicidade que tanto aprecio) do moderador, as gavetas demasiado arrumadinhas e a arrogância infundada de Mexia ou qualquer outro pormenor repisado dos demais. Hoje, contudo, um amigo chamou-me a atenção para o último programa por ter como convidado Carlos Moedas.

Admito que não era alguém por quem tivesse particular simpatia (nem antipatia especial), mas fiquei agradavelmente surpreendida. Tem uma ideia para Lisboa e apesar de muito motivado é ponderado e nada deslumbrado. Além de parecer pessoa genuína. Não é muito comum nos políticos (nem nos comentadores) portugueses. Dou a mão à palmatória: gostei.

Flavia Wenceslau

Te Desejo Vida

por Isabel Paulos, em 31.12.21

Comboios do Mundo

- actualizado -

por Isabel Paulos, em 30.12.21

As televisões às vezes acertam.

Que o diga a SIC que nos traz pequenos documentários em forma de viagem numa série chamada Comboios do Mundo integrada no Jornal da Noite. Hoje a travessia de comboio foi feita na Nova Zelândia.

Parabéns à SIC.

A ler

por Isabel Paulos, em 28.12.21

O longo artigo Luxury homes, short lets and shacks: inside Lisbon’s housing crisis, no The Guardian, sobre a especulação imobiliária em Lisboa e respectivas consequências.

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Gratidão

por Isabel Paulos, em 24.12.21

Para lá das vidas blogosféricas neste Natal sinto vindo dos outros mais afecto, mais presença, mais atenção. O que sabe muito bem. Tem sido um belo Dezembro. Deus tem sido generoso. Obrigada.

Ao que assisto desde criança

por Isabel Paulos, em 23.12.21

É muito curioso ler ou ouvir declarações inflamadas contra a injustiça de escolhas para determinados prémios, cargos ou tarefas. Os mesmos que escrevem e discursam com grande propriedade contra o compadrio ou mediocridade na selecção, rejeitam a mestria ou atiram sistematicamente para lugares subalternos e invisíveis gente de qualidade por medo ou cobardia – a ousadia e exigência assustam – para premiarem a vulgaridade.

É um vício nacional, estando longe de só se verificar na política que, aliás, só replica os usos da sociedade. Protela-se o país dissimulando a injustiça, fazendo de conta que não se repara no mérito alheio - de que se tira partido a bel prazer - e fabricando meia dúzia de elogios floreados, forçados e imerecidos a quem faz parte das tribos influentes para tentar convencer papalvos.

Os mesmos que observando o passado enunciam as grandes injustiças que se fizeram com vultos a quem mais tarde se reconheceu grande valor, durante a vida desconsideram semelhantes valores, chegando mesmo a desprezá-los para dar espaço e enaltecer vacuidades.

Os mesmos que louvam a independência de pensamento de raras figuras destacadas são incapazes de respeitar a liberdade e independência de gente comum, que não faça soar as sinetas do poder, dos interesses, da popularidade, da polémica - enfim, de tudo quanto tenha valor venal.

É o país que temos.

Bom Natal

por Isabel Paulos, em 23.12.21

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Votos de um Bom Natal para todos os leitores e amigos das Comezinhas.

*

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Este ano o Menino Jesus escondeu-se das garras do terrorista.

Para o ano voltará.

As cores

por Isabel Paulos, em 22.12.21

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Este final de ano não vou escrever aqui sobre previsões astrológicas, mas não resisto a uma pequena nota de superstição. Deixo o significado das cores retirado de uma página brasileira e conto que depois de há dois anos ter eleito o cor-de-rosa - é sabido que os resultados desta cor são sempre desastrosos - e o ano passado o amarelo - sob o ponto de vista material houve uma melhoria ténue - para 2022 vou escolher o laranja. Nada tem a ver com o PSD, mas sim com a vontade de ter genica suficiente para tomar importantes decisões e levá-las avante.

Fica a palete de cores para os leitores das Comezinhas escolherem a sua eleita para 2022.

Estridência

por Isabel Paulos, em 18.12.21

Há fogueiras onde arde tudo: amor, beleza, delicadeza, franqueza, honradez, bons propósitos. Há fogos que os consomem como quaisquer pedaços de madeira que nada sintam, nada dêem, nada se entreguem. Vai tudo a eito. Qualquer bom sentimento é carne para canhão. Aos olhos de quem ateia fogos, o importante é a cena, o brilho momentâneo. Hão-de vir outras achas apetecíveis à queima, prontas a produzir o fulgor que alimenta os incendiários.

Tudo o que é belo sucumbe nos propósitos menores.





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