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A caminho do Jardim Botânico

por Isabel Paulos, em 18.10.20

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Hoje foi dia de voltar a Ocidente e ir para as bandas da minha influência durante quinze anos. Enquanto vivi perto procurei ir regularmente ao Jardim Botânico – alturas houve em que ia todos os fins-de-semana. É pequeno e contíguo à VCI, o que prejudica bastante a serenidade que lá se procura alcançar. Mas enfim, o mundo não é perfeito. Além do mais, nem sempre é cuidado com o esmero que merecia e nos últimos meses tem estado com zonas interditas em permanência. Agora colocaram mais placas nas árvores – nota positiva. Terei que voltar com mais tempo para fotografar de perto folha, ramos e tronco e fazer jogar com as tabuletas.

De casa ao Jardim Botânico levo cerca de trinta e cinco minutos. Hoje, fiz o percurso de ida e volta todo a pé, e resolvi deambular pelo bairro de Guerra Junqueiro para esticar ainda mais a coisa. Duas horas de caminhada, com paragens para ver alguns pormenores ou tirar fotografias. Quando cheguei a casa o telelé anunciou-me que tinha atingido a meta aconselhada – 10.000 passos. Note-se que nunca instalei aplicação nenhuma para o efeito. No Huawei que tenho, a coisa vem por defeito. Fiz a conversão em função da altura e verifiquei que andei seis quilómetros. Nada mal. Estou de volta às grandes caminhadas. A ver se mantenho a regularidade.

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O livro da fotografia abaixo conta-nos a história da casa. Um mimo que dei à minha mãe, com quem tantas vezes calcorreei e hei-de continuar a calcorrear os caminhos que nos levam às japoneiras. Saber o ponto em que estão as camélias (e as hidranjas) do botânico é assunto fulcral à medida que os anos passam.

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A despropósito de Hemingway

por Isabel Paulos, em 17.10.20

Ao final de tarde dos derradeiros dias de Setembro, estava sentada no escritório e lembrei-me que teria de comprar um livro para o meu pai. Abri a página online de uma livraria e fui ver contos. Nada me inspirou. Queria qualquer coisa de viagens. Saí da empresa, atravessei a rua e entrei no centro comercial para me dirigir à mesma Bertrand onde vou há vinte anos. Encontrei um dos livreiros da casa. Em Agosto aconselhou-me em simpática e entusiasta descrição um livro fantasioso quanto baste para eu oferecer a uma adolescente de quinze anos – ainda estou à espera da reacção da presenteada mas temo que, apesar de leitora regular e por ser muito pragmática, não alinhe em grandes delírios literários. A ver vamos. Mas no mês passado duas ideias contavam: queria coisa leve sobre viagens. Lá fomos funcionário e eu até à prateleira da literatura de viagem.* Não continha mais do que vinte e cinco tomos. Estive cerca de meia hora a folhear estuchas intelectualizadas. Devem ser excelentes, todos. Mas para outro momento da vida – do pai e da filha. Ou mesmo para outra encarnação; nesta não há pachorra.

Lá no meio, a minha salvação: À Aventura com Hemingway, de Michael Palin. Como quase sempre faço quando compro um livro para oferecer, li-o parcialmente. Já costumo pedir na livraria que deixem um dos lados sem fita-cola para o efeito. Uma viagem pela vida aventurosa, lugares, destinos e paixões de Hemingway a pretexto de um programa para a BBC. O autor – um Monty Python apaixonado pelo nobel -, tem uma escrita limpa e fina ironia. Acertei em cheio. O meu pai adorou e trouxe-o uma semana depois, já lido, ciente de também eu o querer ler. Claro que, como usual, confessei já ter dado uma boa passagem de olhos. Fui intimada: devolve-me as letras que comeste.

Estes ires-e-vires dos livros – que faço em permanência com pai, e sobretudo, mãe -, fazem-me recuar ao final da infância e adolescência, quando trocava o mesmíssimo pacote de amêndoas com a minha tia e madrinha. Durante anos, no dia de ramos eu dava-lhe o pacote das amêndoas brancas e rosa do ano anterior, que me era devolvido como presente no Domingo de Páscoa seguinte. E assim sucessivamente, tornando-se o alegre vaivém numa anedota anual e poupança em escudos e glicose, devida tão simplesmente ao facto de madrinha e afilhada odiarem aqueles aglomerados de açúcar às cores. Se ainda fosse um ovo de chocolate ou umas boas amêndoas torradas caseiras, mas agora é tarde - passaram mais de trinta anos.

Sucede que a troca e leitura prévia dos livros oferecidos não resultam de não gostar dos ditos. Antes pelo contrário; a regra é dar o que gosto e acho que o brindado vai apreciar. Nem sempre acerto, contudo faço os possíveis. Ofereço à média de um a dois livros por ano a cada uma das cinco ou seis pessoas que sei gostarem de ler. Na maior parte dos casos, tento lê-los ou passar os olhos. Às vezes consigo arranjar tempo e gosto suficiente para os devorar na íntegra. Pode não ser uma coisa muito bonita de se fazer - será, aliás, considerado coisa feia e falta de educação -, mas é absolutamente às escâncaras e a forma de economizar. Apesar de não ser grande leitora, por mim, as livrarias não morrerão.

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* Antes dessa prateleira, estivemos no escaparate dos usuais destaques e novidades; tive que dizer ao simpático funcionário que esses não ia levar. 

Janela

por Isabel Paulos, em 16.10.20

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*

Nos últimos dias, além do sol morno de Outono, a suave brisa - uma aragem noroeste -, vem à janela amenizar os dias de trabalho. Tudo fica mais leve e gracioso. E eis que, sentada na secretária frente à luz, levo com o sol na tromba -, qual lagarta parda que esverdeia na pedra quente. E, ao acabar de escrever isto, o quase absoluto silêncio - estorvado por pouco mais do que murmúrios do lavar de loiça do almoço noutro prédio, da impaciente buzina, do ronco a motor dos carros na rua ou esparso avião no céu e, lá longe, da serra de metal - é quebrado, logo aqui perto, pelo latido forte e agudo do cão que mora debaixo da estranha espécie de eucalipto que vejo da janela. Sinto-lhe as patas nas folhas secas sobre a tijoleira, e invejo-o. Os pássaros, que aqui habitaram a Primavera, foram. Mas voltarão. Assim, com a cadência dos anos que passam.

Empresas

por Isabel Paulos, em 16.10.20

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Ao cuidado do PSD.

Interrompi o trabalho por uns minutos e abri a página da SAPO. Despertou-me a atenção esta notícia: Do hidrogénio à escola digital, até ao SNS. Estes são os 64 projetos financiados pelos milhões da Europa.

Fiz o seguinte fácil e prático exercício: passei o texto para uma página word e procurei a palavra ‘empresa’ – na qualidade de trabalhadora, o móbil da criação de riqueza e do desenvolvimento do País. Usei o ‘localizar’ – aqueles binóculos no canto superior direito do friso de tarefas do word -, e encontrei a palavra ‘empresa’ uma única vez.

Podem verificar, sff, junto do Governo que medidas estão a ser pensadas para aproveitar os fundos europeus para aquilo que mais dá paz, pão e liberdade aos portugueses? Muito agradecida.

Martin Fröst - Copland: Clarinet Concerto

por Isabel Paulos, em 16.10.20

Voando um pouquinho aos 4'20'' e, divertindo, por exemplo, a partir dos 12'12''.

Bom dia. Boa sexta-feira.

Perguntar não ofende.

por Isabel Paulos, em 15.10.20

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Só uma pergunta inocente: as multas por não ter a aplicação do caça ao pikachuOIP.jpgsão aplicáveis aos milhares de cidadãos que não têm smartphone nem bluetooth? Cá em casa um de nós é cego e usa telemóvel do tempo da Maria Cachucha, mas gostaria muito de aproveitar esta medida para pedir ao Governo o financiamento para, sei lá, um Samsung Galaxy S20 Ultra 5G ou a mesma versão em Huawei, que não somos racistas. Arranja-se, Sr. Costa? Com acessibilidades, sff. Muito agradecida.

David Fray

por Isabel Paulos, em 15.10.20

Coloquei o vídeo acima para que conheçam (se não conhecem já) David Fray. Mas o que queria mostrar – e me deram a conhecer ontem -, é o vídeo de ensaios - Swing, Sing & Think: David Fray – Bach’s Keyboard Concertos. Se puderem vejam a partir do minuto 43’.

Um miúdo pleno de génio, que nos demonstra em poucos minutos a diferença entre técnica e arte. E nos deixa extasiados. Talvez – extrapolação minha -, fosse boa ideia sairmos das nossas velhas certezas formais e regras rígidas para conseguirmos perceber onde anda a beleza – e a verdade -, da vida. Se conseguirem, oiçam-no dizer onde está o virtuosismo (1:22').

(muito obrigada a quem me apresentou esta preciosidade.)

Momento cuchi cuchi

por Isabel Paulos, em 14.10.20

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Na meia-idade o balanço é feito neste estado de espírito: o limbo. Entre o conservadorismo cansado e pousado, de quem já viu tudo quanto havia para ver, nada o espanta e sabe que nada muda. E o contestatário que trepa pelas paredes e força as grades repressoras, levando tudo por diante para alterar o que está mal.

Diziam-me há poucos dias que fora a questão da corrupção e do nepotismo – e mesmo aqui se assemelham, variando apenas o grau -, o Governo está a fazer aquilo que um governo do PSD faria, com a vantagem não negligenciável de não ter ruído ou contestação. Concordamos que um governo PSD jamais poderia restringir liberdades como sucede agora, sob pena de grande contestação social. Pudera, nenhum de nós tem dúvidas que a rédea solta sob a conivência da comunicação social e da população é privilégio de quem está no poder neste momento. Divergimos talvez num ponto: para mim a corrupção e o nepotismo não são uma inevitabilidade. Ou, melhor, assente a existência destas pechas e de que são um traço enraizado na nossa cultura, valerá a pena bradar e vexar – até porque o grau de desfaçatez é tal que não podemos ir lá com pruridos -, fazendo vergar corruptos, sejam cúpula sejam cidadão comum.

Falámos depois no papel do Presidente da República. Diziam-me: vou votar nele. Está a fazer tudo bem, dentro da medida do possível. Como assim? Por saber que deve sustentar um Governo imune aos ataques jornalísticos e políticos e à contestação popular - o Governo ideal para estar num momento difícil como este? Não. Está a fazer zero, zero de melhor. Não marca a diferença pela positiva. O que vejo é Governo e Presidente da República – e já agora os portugueses -, à espera que chovam fundos da UE para lhes resolverem a vida e para permitir – sob o pretexto da estabilidade e da paz social; pasme-se agora até se invoca o patriotismo -, que tudo continue com os vícios de sempre. Fundos que irão ser destinados – se nada for feito -, a subsidiar cidadãos (em muitos casos bem), mas não a incentivar a criação de emprego e riqueza, através de criteriosa definição de benefícios e incentivos para as empresas – sob a condição de não serem desbaratados na infestação de empresas sugadoras fantasma. Aliás, restos de fundos. Porque o grosso, como vem sendo habitual, vai cair no saco roto de bancos falidos por mão criminosa e empresas públicas ingovernáveis por mãos delapidadoras.

A Banca insalubre receberá injecções de capital, que alguém explicará - para sossego de consciências ilustres e o amaciar da goela do povo -, que não é dinheiro dos contribuintes, mas sim emprestado por outros bancos – que hão-de receber o quinhão para o efeito –, e pelo fundo de resolução; logo, dirão, verba reembolsável. Este argumento faz-me sempre lembrar os serviços gratuitos das operadoras de comunicação e da dificuldade que tive há uns anos em explicar a adolescentes - obviamente desconfiados da minha inteligência e adequação à realidade moderna -, que nada é gratuito nos serviços dessas empresas.

O aceno com o bicho papão da crise política impede que haja discussão sã sobre o Orçamento de Estado para 2021 – ah céus, fosse o malandro do professor Cavaco Silva a colocar a espada sobre a cabeça dos partidos e seria gozado à exaustão (ainda estou para descobrir alguém que assuma ter sido cavaquista além do jornalista José António Saraiva e, já agora, da tonta que escreve estas linhas). Mas como é o professor Marcelo, é cuchi cuchi. Já sabíamos por Rui Rio que não havia oposição, mas agora ficou assente que a proibição vem de Belém – com o pretexto de que neste período não há poder de dissolução do parlamento. Estamos assim a modos que em assembleia nacional, e até já temos conversas em família sobre logística natalícia da parentela para compôr o ramalhete.

E como são ternurentos, o nosso Primeiro-ministro e o nosso Presidente da República (inverto a ordem do protocolo propositadamente e para fazer notar as prevalências reais), promoveram arbitrariedades nas medidas de contenção da pandemia, impondo restrições em função de quão seriam ou não populares. Pelo que tivemos enterros com lotação limitada e os nossos mais velhos fechados nos lares ou em casa sem visitas dos familiares, lado a lado com o despejo de vários autocarros na Alameda, junto à Fonte Luminosa para os festejos do 1º de Maio – já agora, moeda de troca para miminhos orçamentais -, e o espectáculo de humorista no Campo Pequeno, com a presença do regime, como convém aos artistas apaniguados.

O fulgurante consenso cuchi cuchi prevalece no topo de hierarquia do Estado. Estamos nisto. Nada de contrariar quem tenha peso na opinião pública, logo efeito eleitoral. Agora que não há beijinhos e abraços, nada como fazer do medo colectivo e do patriotismo armas políticas. Mas para quê? O grande intuito parece ser manter a pequenez de sempre, já que aos olhos do poder – e da generalidade dos portugueses -, toda esta miséria parece normal e aconchegante. Resta saber se devemos abstrair, relevar ou irritar. Será que serão precisos mais 10 anos para concluir?

*

A imagem da Candy Candy, uma animação que via em criança (no início dos anos 80), foi a coisa mais cuchi cuchi que me ocorreu. De referir que já na altura - apesar de criança -, tinha alguma vergonha de ver coisa tão florida e inverosímil. É, por isso, caricato que seja a imagem que me ocorre para definir o momento político actual.

Recapitulando

por Isabel Paulos, em 11.10.20

O Livro dos Três Princípios - Festejo - 36.

      Na capital, rapidamente se adaptou à teia de relações que interessam a quem tem pretensões de poder. Tornou-se amiga chegada e pretensa discípula de figura maior do partido, uma mulher inteligente, arrivista e azeda, com preparação académica e percurso de vida que faria adivinhar melhor futuro. Nos últimos dez ou vinte anos, ao entrar na onda de ditames contra a realidade, e do novo e empolgante conceito de história e factualidade errada, fora perdendo o controlo sobre opiniões ou princípios defendidos, e traída pelo próprio azedume e ressentimento fora engolida pelos slogans apregoados. Como previsível o mundo do moderninho consumira-se a si mesmo. Por falta adesão aos factos, o politicamente correcto entrara em autocombustão.

        Em pouco tempo, a Ana Paula aproximou-se, percebeu as fraquezas e, estrategicamente, deixou-se ficar como figura de segunda linha, até ter a certeza de ter aprendido a arte de fazer política. Teve de estabelecer as relações necessárias, estreitar os ódios convenientes e aprimorar o discurso de demagoga. Teve de polir todas as arestas de mulher de paixões e opiniões. Aprender a defender as que rendem likes no Facebook e seguidores no Twitter. A moderninha daria lugar à ditadorazita de Espinho. Afinal, a protagonista era uma mulher do seu tempo e tarde ou cedo mostraria ao país a razão de déspota se escrever no feminino.

        A Margarida reflectiu sobre a última frase escrita e sentiu aproximar-se o final do livro. Folheou-o. Queria tranquilizar-se. Estar certa do problema não estar na ascensão ao poder por gente vinda da província, mas sim a ascensão ao poder de quem traduz cosmopolitismo pela ideia superioridade da cidade, enquanto núcleo do poder e das relações que interessam. Por espíritos provincianos, oriundos da mais recôndita aldeia do país ou de qualquer avenida lisboeta. Já nos chegava a visão estreita e pacóvia das elites das gerações anteriores, que não diferenciavam ser cosmopolita do bajular de correntes de pensamento estrangeiras e, por isso mesmo, se sentiam envergonhadas do país onde nasceram, como temos as novas gerações de deslumbrados e deseducados, a afiançarem a ideia de que ser cosmopolita, é ser moderno, urbano, abusar das novas tecnologias e defender de forma militante o apagão da história; a tal que explica o nosso estágio de civilização.

       Eterna ingénua, ansiava por velhos e novos ascendidos à nata do país cientes de não haver cosmopolismo sem o respeito por quem habita o universo, venha de onde vier. Sabedores do princípio íntimo do começo do universo. Vincava a ideia da necessidade de se ter mundo. Fazer parte do universo e respeitar-se a si e ao outro é mais difícil do que parece, dispensa a sobranceria pacóvia dos velhos privilegiados e impõe o conhecimento e compreensão dos factos da história desprezado pelas novas elites. E feita esta consideração, não sem antes rir da conclusão tirada, como qualquer outra resposta descabida na literatura, foi à pasta dos meus documentos procurar o primeiro início do livro que pretendia escrever, mas ao qual não dera continuidade, por se ter perdido a contar a vida da protagonista e outras personagens. Ainda assim decidiu, tal como tinha anunciado ao Vicente, valer-se do esboço inicial e passá-lo para o epílogo. Copiou e colou o texto. Trocou o título, apagando Ana Paula e escrevendo O Livro dos três Princípios. Simplificou, limpando as considerações inúteis sobre a evolução política dos últimos cinquenta anos, e sorriu ao ver novamente da cena triunfal da Ana Paula, a atravessar o jardim, calçada de revolução. Aí estava o terceiro princípio do livro.

Agressividade

por Isabel Paulos, em 10.10.20

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Noto nos últimos anos, aos finais de tarde de sexta-feira, particular agressividade dos condutores de automóveis e passageiros de autocarros. O ambiente hostil não existe sempre, mas é frequente. O que me deixa curiosa e com particular cuidado, por saber que, como qualquer doença contagiosa, a violência verbal é uma praga que se dissemina e com facilidade se apanha. Já dei por mim, junto de próximos, a reagir intempestivamente a bagatelas.

Ontem ao entrar no autocarro, deixando-me para o fim da fila, como sempre fiz, senti de imediato aquele rasgar de raiva no tom de voz de alguns passageiros. Pensei que o motivo era o do costume: tempo excessivo de espera, como lembrou uma das utentes num grito logo à entrada na paragem seguinte. Mas ao entrar e procurar onde me sentar, vi uma senhora mais velha (que conheço de vista destas andanças) fazer-me sinal de que tinha lugar ao seu lado. Agradeci com um sorriso e sentei-me noutro lugar, por não me apetecer conversar. A viagem dura cerca de 10 minutos, se tanto. Pois tive oportunidade de assistir a três discussões em voz alta. No primeiro lugar da frente uma jovem mãe de cabelo comprido, amarelo e ondulado pelo qual ia correndo a mão numa tentativa de gesto feminino a roçar o grosseiro, acompanhada da filha e do marido. Berrou ao telefone, com quem suponho ser professora ou ter alguma responsabilidade na escolha da forma de avaliação da filha. Baliu ao telefone para resolver o problema, por qualquer coisa não estar bem com a criança – que se escondia envergonhada – na escola. Quando desligou berrou com a miúda, atirando com agressividade imensa vários: mais alguma coisa? Está resolvido o problema? É preciso mais alguma coisa. Terminada a investida sobre a filha, virou-se para o marido, levantando a questão sobre a hora em que iam jantar e aproveitando em poucos minutos para destratar os pais do marido e desculpar o sua própria família, contabilizando quem paga o quê nos jantares familiares. A meio do autocarro ia a dita senhora mais velha que me acenou com um lugar. Preocupada com a circulação de ar naquele espaço, que ia bastante preenchido de gente mascarada, pediu a duas mulheres um pouco mais novas que abrissem a janela. Facto que originou outra discussão, por aquelas não terem acedido ao pedido, antes sim decidido zombar da mais velha pelo excesso de zelo e lembrar-lhe que devia estar em casa. Enquanto esta bradava pela calamidade. Era uma zoeira infernal lá dentro, vinda dos vários focos de tensão. Só me apetecia fugir.

É curioso que estas situações aconteçam mais ao final de tarde de sexta-feira. Será que o descomprimir eleva demasiado as expectativas? Tal como se diz que há mais divórcios nas férias. Ou será que as oito horas diárias de trabalho servem como couraça que distrai da realidade? Que impede o tornar patente a falta de afecto ou, ao menos, de empatia?

Essencial

por Isabel Paulos, em 09.10.20

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É tudo nosso.

por Isabel Paulos, em 08.10.20

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Ao escrever sobre a questão do Tribunal de Contas a dificuldade é não dizer a direito o que os intervenientes merecem seja dito. Prova provada de que quem tem razão é a voz popular ao desistir de acreditar em quem quer que seja na política portuguesa.

Enquanto seguimos cuidadosos - no temor de ser injustos -, este governo vai dando testemunho de que a marca d’água dos socialistas - o amiguismo, o à vontadinha medíocre e a corrupção – prossegue impante. Já aqui havíamos dado o alarme – a propósito da não recondução de Joana Marques Vidal para a PGR e da nomeação de Lopes da Mota para adjunto no ministério da Justiça -, para que se estava a desenhar uma tendência, com o beneplácito do embusteiro mor da actualidade – há sempre um maestro do trambique.  E já tínhamos reparado, em Fevereiro último, na desfaçatez do Benjamim da alcateia – já ungido no Bilderberg - em matéria de TdC.

Uma olhadela rápida pelas últimas notícias sobre a não recondução de Vítor Caldeira para a presidência do TdC e do nome de José Tavares  e suas hábeis competências no redesenho das compensações adiccionais e extra-contratuais – e ilegais, diga-se en passant - no domínio das PPP a beneficiar as concessionárias deixam a nu tudo quanto é preciso perceber nesta matéria.

De resto, sobra a constatação da peneira rota na presidência da República que assiste a tudo impávido e sereno, não vá acabar o namoro com o governo que garante a reeleição por ampla votação. Admito que tenho que refrear a fúria sempre que oiço Marcelo Rebelo de Sousa dizer que é de saudar o regular funcionamento das instituições – nomeadamente dos Tribunais. Ainda não o disse esta semana, mas presumo que não faltará muito. E Rui Rio que segue as pisadas do PR na motivação. Todos tratam da sua vidinha e ninguém trata do Estado - sempre a arder, sempre a perder.

Pergunto-me de que adianta ver os ataques apoplécticos de José Gomes Ferreira na SIC – coberto de razão –, ou as fúrias de blogueres inconformados com a desfaçatez na vilanagem? Já todos vimos o filme antes – há 14, 22 ou 30 anos. Alguns de nós barafustamos e podemos continuar a fazê-lo sem que nada mude. O País segue igual a si próprio a eleger esta gentalha para nos governar. Ao rever as películas já só temos curiosidade num detalhe ou outro e, admito, numa diferença. À medida que o tempo passa e quando se julgaria que o escrutínio seria maior e por isso os comportamentos desviantes mais temerosos, notamos precisamente o contrário: o absoluto à vontade de quem se marimba na lei e na decência. Vale tudo, porque ser socialista em Portugal significa ter as costas quentes, logo, ser impune. E o lema: é tudo nosso.

Nacionalismo

por Isabel Paulos, em 06.10.20

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Rua Freire de Andrade - Porto, 5 de Outubro 2020.

Pedestal

por Isabel Paulos, em 05.10.20

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*

Quem está por bem

vem de peito aberto.

Jamais se arvora

escada da vida

para outro

escalar e provar

ser merecedor.

---

Boa semana.

 

The Shawshank Redemption

por Isabel Paulos, em 05.10.20

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Revi ontem The Shawshank Redemption. Excelente filme. Muitos apontamentos tocantes. Entre eles: a astúcia insubmissa, a impotência perante o óbvio, a música como fonte de liberdade, a corrente de esperança na amizade. A escolha pela vida e o mar como salvação.

Mar Adentro

por Isabel Paulos, em 04.10.20

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Belíssimo filme visto anteontem, o Mar Adentro. A proximidade das paisagens galegas, o realismo e a intimidade da fachada e do miolo daquela casa. Tão próxima e palpável como os elementos da família – a extraordinária figura da cunhada, que por si só merecia um retrato barroco - e os amigos. As suas inquietações e diferentes posições face à decisão de Ramón Sampedro. A inteligência luminosa – que não chega – e o humor deste homem que decide pela morte. A vida reduzida a um quarto e ao sonho impossível. A densidade do enredo em volta da mais difícil das escolhas. O destino no mar.

Convicções inabaláveis

por Isabel Paulos, em 02.10.20

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E eis que chega o momento, neste fim de tarde de sexta-feira, em que me dizem: bom feriado. E todo um mundo novo de alegrias se abre. Além de subitamente me descobrir fervorosa republicana desde pequenina, realizo – e não quero saber de linguistas chatos que não nos deixam ‘realizar’ por se tratar de uma tradução recente e livre do inglês; ora, a minha avó estaria perto de fazer 104 anos e fartava-se de dizer ‘realizar’ -,  que segunda-feira é 5 de Outubro. Mas calma, no 1º de Dezembro serei a monárquica mais convicta de que há memória.

Head Up

por Isabel Paulos, em 02.10.20

Candidatos presidenciais

por Isabel Paulos, em 01.10.20

Serão confissões ingénuas. É candura e é a direito, mas é para o lado que durmo melhor. A vista de olhos pelos candidatos presidenciais não é famosa. Votar em quem?

Seria patético votar no campeão dos afectos Marcelo Rebelo de Sousa, que tem caucionado o governo como se tivesse palas no olhos - as palas da caça ao índice de popularidade. Votar em Marcelo seria como votar na menina mais popular para delegada de turma. Confusão de competências.  Nem pensar.

Em Ana Gomes? Duas pechas graves: apesar de ser corajosa é do PS, o partido que mais tem contribuído para a nossa mediocridade, e não foi capaz de dizer não a quem jamais deveria estar na sua lista. Mau princípio. Nem pensar.

Marisa Matias. É do partido, com representação parlamentar, mais inconsequente do País (com a concorrência do PAN nos últimos anos). A candidata reflecte-o em tudo. Nem pensar.

Em João Ferreira, do PC? O partido do sindicalismo obtuso e que ainda não foi capaz de reconhecer os erros do comunismo do passado (muito menos os do presente)? O partido dos tachos na função pública? Podia parecer uma carta fora do baralho não fossem as outras opções agremiações de interesses ou conveniências.

Não me importo nada de parecer a básica que escolhe os candidatos pela beleza. É tal e qual. Não quero saber. Palavras de ordem como trabalho, direitos das mulheres e luta contra a pobreza são das poucas que ainda me fazem sentido.

(A omissão do outro candidato aqui, essa não é inocente. Quanto menos publicidade tiver melhor, como já devíamos ter aprendido com a lição Trump. Mas não, a comunicação social e os humoristas continuam a dar-lhe imenso palco para que possa aumentar a popularidade. Depois admirem-se.) 

 

Coelhinhas ao domicílio, sff

por Isabel Paulos, em 01.10.20

Ando sempre um pouco desfasada dos termos in, não sei se ainda se usa crowdfunding. Mas proponho que se faça uma vaquinha para comprar a assinatura anual da Playboy para este senhor, que nitidamente tem problemas pendentes da adolescência por resolver. Ou, então, um historial de más experiências por ultrapassar. Se não for suficiente um ano de Playboy, envie-se um par de coelhinhas submissas ao domicílio. O menino deve apreciar.




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