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Como fazer crescer a pobreza

por Isabel Paulos, em 27.02.21

A criação do imposto sobre os ricos do teletrabalho é daquelas medidas que soa ao mesmo que o aumento de 77% do salário mínimo na Venezuela.

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Ao contrário das críticas que usualmente são feitas ao esquerdismo também gosto muito pouco da caridadezita. Acho princípio de muitos males, entre eles o incremento e perpectuação da pobreza.

É por isso que estranho que esta proposta de Poiares Maduro e Susana Peralta tenha adesão da dominância de esquerda e da bem-instalada centro-direita do costume.

Que os entusiastas desta ideia vão até à divisão entre ricos e pobres, maus - aqui ditos burguesia do teletrabalho - e bons já estamos habituados. Percebo bem que se façam autos de fé com recurso ao humor para aliviar a culpa e a falta de inteligência ou por necessidade de agradar aos ouvintes/leitores/eleitores. Tudo expectável em quem é incapaz de ver além do que é o jantar de mais logo à noite. Seria pedir muito que planeasse as refeições para o dia seguinte, quanto mais para um mês.

Mas é com alguma surpresa que verifico que não percebem pelo menos que estão a aderir ao padrão de caridadezita que tanto criticaram na hipocrisia própria de regimes autoritários como o do Estado Novo. Nada como criar uma noção colectiva de culpa sobre os ditos privilegiados, legitimar a negligência do Estado e organizar um peditório entre a sociedade civil – neste caso através de impostos – para ajudar os pobrezinhos. Assim aliviam a consciência e naturalmente garantem que os pobres se mantêm na mesma condição e dependentes da generosidade de benfeitores com tão bom coração.

Nada como esvaziar as competências e obrigações essenciais do Estado para eternizar a estratificação que garante a sobrevivência do privilégio, através de chantagem emocional a que falsamente chamam solidariedade. Nada como esquecer a necessidade das políticas económicas capazes da criação de riqueza – nomeadamente, as de apoio às empresas e criação de emprego -, o escrutínio à gestão dos dinheiros públicos e a corrupção.

Das reacções que tenho ouvido é caricato ver presumíveis apoiantes e delatores de Chavéz e Maduro de mãos dadas a aderirem a esta peregrina ideia que muito deveria agradar a estas luminárias da revolução bolivariana, e cujo efeito útil é o crescimento e a perpectuação da pobreza. Exigir que o Estado resolva com os fundos presentes e futuros os problemas de quem ficou sem emprego, desenhar um plano realista de apoio à economia, às empresas e criação de emprego dá menos sound bites na imprensa e redes sociais, logo, menos ouvintes, leitores e eleitores. Estamos como de costume no domínio da demagogia, a que não se foge por efeito da chantagem emocional.

Como nota, acrescento que face ao parco salário que recebo, muito abaixo do salário médio português, com certeza não seria muito afectada caso se viesse a criar tal imposto. Sucede que não me sossega a consciência dar uma esmola, sem perceber se a pessoa que a vai receber terá o que jantar na próxima semana, mês ou anos. Tal como não me sossega ver o país governado por irresponsáveis que devem agradecer terem sido premiados com mais esta ideia-jackpot.

Os alinhadinhos dos tempos verbais

por Isabel Paulos, em 24.02.21

Acho muita piada aos ciosos e ciosas da correcção ou concordância dos tempos verbais. Imagino-os sempre de cabelo muito penteado, vestidos de bibe de marinheiro, meia soquete e sabrina de presilha.

Campo de minas

por Isabel Paulos, em 23.02.21

De cedência em cedência, em atenção às constantes críticas dos sensatos, aquele que poderia fazer a diferença, vai-se transformando numa massa amorfa e temerosa enquanto vê vingar a mediocridade e soberba. Apesar de válido e sério, o teimoso sempre em pé convence-se que os reparos de que é alvo acabarão por fortalecê-lo. É falso. Muitas das chamadas de atenção são frívolas, não tendo os autores a menor preocupação em conhecer a natureza e pertinência das razões do alvo da crítica. Tudo quanto sabem e fazem é enfraquecê-lo, por puro desporto recreativo.

Longe do verdadeiro espírito crítico – que não escolhe interesseiramente alvos fáceis para abater nem enaltece os que trazem vantagem económica, social ou reputacional - tudo o que se faz é, ao invés de robustecer quem tem valor, ferir e espoliar a coragem e convicção.

E para cúmulo do cinismo e desfaçatez, findo o processo de extorsão, os iluminados acusam de cobardia o já exausto e eterno desconsiderado. Como se algum dia tivessem conhecido a solidão da razão, apesar de sobre ela dissertarem longamente com grande erudição e nenhuma verdade.

Porquê perder tanto tempo com estes ‘moralismos’ em vez de me limitar a factos objectivos? Queda para o abismo, com certeza.

Nós e os outros

por Isabel Paulos, em 21.02.21

Bem sei que estamos todos muito convencidos de saber como são ou deixam de ser os outros, mas talvez fosse mais prudente neste mundo de aparências e julgamentos fáceis perceber que não se conhece outra pessoa nem a sua vida através do que se depreende do que escreve à distância. Apesar de termos a pretensão de achar que a leitura nos permite entrar no mundo do outro, sobretudo, quando se expõe, a verdade é que para conhecer alguém é preciso abertura de espírito, diálogo franco e confiança. E já nem falo de ausência de canalhices, mentiras e identidades camufladas, mas de um módico de decência. Tudo o resto são suposições sobre suposições, que na maioria dos casos não interessam nem servem a rigorosamente ninguém.

Três Velhotes, colonização e gato

por Isabel Paulos, em 20.02.21

Faço este postal para desfazer equívocos. A ver vamos quantos mais crio. Conheço há muito a ideia de que na cozinha se devem usar bons vinhos. Supostamente a apurada caldeirada é preparada em bom vinho branco ou whisky. A mesma ideia ditaria usar-se irrepreensível Porto para regar os morangos – hoje em dia ninguém os corta e rega com vinho, sob a acusação de se melar e roubar à fruta os melhores benefícios. Pois, lamento muito, mas aprendi com a minha avó e mãe a escolher vinhos menos bons (não necessariamente maus) para efeitos culinários. Creio ser o que faz a maioria das casas portuguesas despretensiosas. O Três Velhotes é Vinho do Porto vulgar e barato, perfeitamente aconselhável para regar morangos ou salada de fruta - ah, já vejo os especialistas a espernear e aconselhar o saudável sumo de laranja ou de limão para o mesmo efeito.

O dos velhotes não é o único equívoco das nossas vidas. São tantos. Sobre África e a nossa presença em África são incontáveis. Podia recordar a história mais remota, mas por imperativos de lógica começo antes da Conferência de Berlim, promovida por chanceler alemão Otto von Bismarck, na qual se chegou a acordo quanto a divisão do continente africano entre as potências europeias, num desenho a régua e esquadro que naturalmente ignorava ou desconsiderava os sentimentos de irmandade ou de tensão entre reinos, tribos e etnias africanas. Começo então por recordar o Tratado de Simulambuco, assinado em Fevereiro de 1885 pelo representante do governo português Brito Capello, capitão tenente da Armada e comandante da corveta Rainha de Portugal e os chefes e oficiais do reino de Ngoio, que colocava Cabinda sobre o protectorado português.

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Para desfazer o nó em poucas linhas, simplificando ao máximo aquilo que penso sobre a colonização e descolonização, digo apenas que não discuto com o tempo. A nossa presença em África perdurou além do que seria expectável no quadro internacional hostil de guerra fria e a autodeterminação de países como Angola passou mais pelo joguete habitual de interesses entre os dois blocos, do que por um puro processo de descolonização. Acresce que pouco se fala do que eram as colónias antes do período da guerra colonial e seria interessante conhecer sem preconceitos essa realidade e fazer o contraste com o desenvolvimento económico e social verificado em países com Angola a partir da década da 60. Seria talvez prudente estudar os passos que foram dados no sentido de um maior respeito pelos direitos dos africanos – em profundo contraste com as tradições colonialistas -, como o caso da abolição do estatuto do indigenato em 1961, com acesso facilitado à cidadania portuguesa e inerentes direitos, no conjunto de reformas introduzidas por Adriano Moreira, Ministro do Ultramar. Perceber como no curto espaço entre os anos 60 e 70 Angola evoluiu significativamente seja no plano do ensino, primeiro com uma rede de ensino primário, mais tarde secundário e universitário, seja no desenvolvimento das infra-estruturas ferroviárias e rodoviárias. E além de tudo pensar como era difícil a alguns militares graduados introduzir junto dos antigos colonos módicas noções de respeito pela dignidade humana no seio de uma sociedade marcadamente estratificada.

Mas também perceber que reduzir a guerra colonial a uma luta pela libertação de uma nação é tão só ideia enganadora, por se desconhecer a multiplicidade de reinos, tribos e etnias ou simples grupos de interesse com aspirações distintas e facilmente manipulados ideologicamente por facções políticas instrumentalizadas pelos blocos internacionais. O embrião da subsequente guerra civil de 30 anos. Compreender que à época os Estados Unidos estavam fragilizados e a braços com a guerra no Vietname e a União Soviética pretendia substituir-se às potências europeias que iam abandonando o apetecível continente africano, impondo a sua supremacia sob a égide do comunismo. E que em Angola encontraram eco e respaldo nos movimentos de libertação como o urbano MPLA, constituído por uma comunidade de brancos, mestiços e de Mbundu (cuja língua é o Kimbundu) mais letrados residentes em Luanda e arredores, alguns funcionários públicos outros estudantes na metrópole, onde naturalmente começaram a conspirar na Casa do Estudante do Império de Lisboa, com apoio dos comunistas clandestinos, apesar de perseguidos pela PIDE. Já a UNITA, representante da Angola profunda, do povo Ovimbundo, o grupo mais populoso constituído por várias etnias (bailundos, huambos e bies) foi amparada mais tarde pela África do Sul, mas não pelos Estados Unidos, que apoiaram desde início a FNLA, oriunda dos povos Bakongos, do norte e do reino do Congo.

E, finalmente, tentar entender que no meio deste jogo intrincado a população portuguesa que lá vivia independentemente da legitimidade ou bondade da sua presença acreditava, em muitos casos, na autonomia de Angola: acreditava talvez muito ingenuamente numa evolução pacífica e que o país obteria um estatuto de autonomia especial. Não foi assim. Não pode ser assim. O que se verificou foi o abandono, a descolonização descuidada com prejuízo para os portugueses que lá estavam, mas sobretudo para os angolanos. Se bem que reduzir a coisa a portugueses e angolanos é simplista demais: afinal, quem era angolano e quem era português?

O último dos equívocos tem a ver com a razão para escolher adoptar um gato quanto prefiro cães. Apesar da maior inclinação para cães, também gosto de gatos e sempre me poupo ao trabalho e nojo de andar com saquinho na rua a apanhar cocós.

 

A ver

por Isabel Paulos, em 17.02.21

A RTP 2 está a exibir uma série de documentários sobre a história de JFK, Martin Luther King, Churchill, João Paulo II, Irmã Emmanuelle e o Xá do Irão, através do olhar de pessoas próximas. No caso de Kennedy, do médico Max Jacobson. No caso de Churchill, da mulher Clementine. A série chama-se À Direita, Na Foto e é transmitida às 20h35.

Neste momento, decorre o episódio sobre Winston Churchill.

Recapitulando

por Isabel Paulos, em 17.02.21

 

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       Tirando as caracterizações das personagens continuas sem enredo, mas pelo menos já vi a Ana Paula e o Tomás no curso de humanísticas, a Helena também, suponho, e o Carlos Alberto e o Oliveira contigo em ciências. Tudo a seu tempo, respondeu a Margarida, na verdade preocupada com a falta de habilidade para criar enredo.  Confirmou ao cúmplice a existência de outros alunos do liceu na narrativa, o Luís, a Lara, os inseparáveis Alexandre e Sérgio e, ao elenco de personagens, juntavam-se as irmãs Soares, alunas do curso profissional, na área da contabilidade e gestão.

       Duas raparigas distintas pela figura afilada da primogénita e miúda e frágil da mais nova, mas ambas de cabelo ondulado castanho, a Marta de olhos azuis, a Sofia de olhos chocolate. Pareciam inspirar-se nas artistas pop do momento para se vestirem. Ambas muito soltas e de andar descontraído. Filhas de casal videirinho e vivaço de retornados de Angola, de famílias oriundas de São João da Madeira, nasceram com diferença de um ano em Luanda, passando lá a primeira infância. A mãe era operadora de telefone, no tempo em que todas as ligações eram feitas através de terminais nos quais as várias telefonistas estabeleciam as ligações com fios e tomadas e, segundo os mais atentos, ouviam conversas. Devia ser verdade atento a exponencial volume de conhecimento demonstrado pela Elvira da vida pública e privada luandense. O pai e o tio donos de pequena loja de roupas confeccionadas por africanas, com tecidos de típicos motivos étnicos maioritariamente fabricados na metrópole, e exportados para as colónias. Mas também, em menor escala, tecidos em África. Viviam com conforto. As pequenas cresceram livres, passando os dias dos primeiros anos a saraquitar pela loja e no jardim de casa. Antes do agravar do conflito armado era usual vê-las brincar na rua, no alto dos quatro e cinco anos, vigiadas apenas por crianças pouco mais velhas, sob a protecção da Mamã Muxima. Ao fim de semana, iam até à Ilha ou, esporadicamente, a família e amigos faziam passeios conjuntos até ao Mussulo ou à Barra do Quanza. No período em que a capital angolana usufruía de rede de autocarros à semelhança das grandes cidades da metrópole, lá chamados de machimbombos e se podia viajar entre cidades, apesar da guerra, por estradas bem alcatroadas. Ou viajar de comboios, por caminhos-de-ferro como o que unia Luanda a Malange, passando por N’Dalatando. Mundo largo e livre o delas, virado do avesso em 1974 e 1975. O agudizar do conflito armado entre as forças portuguesas e as independentistas, apoiadas pelas duas superpotências internacionais, nesses anos turbulentos, culminou na decisão forçada de saída, com perda de tudo quando possuíam. A mãe emigrara no início dos anos cinquenta para Angola na companhia dos pais. Da metrópole tinha apenas imagem ténue de tenra infância e de duas vindas de quatro meses em visita, nos anos sessenta, para conhecer a família. E na última das quais conhecera o Adriano, seu futuro marido. Fora ela a contar-lhe os encantos e largueza de África. A sua terra era Luanda, e não São João da Madeira. Mas a vida é como é, em 1975, além de ser obrigada a sair da única terra que tinha como sua, ainda suportaria insultos por, na alegada qualidade de fascista-retornada, ter tentado refazer a vida na terra da família, candidatando-se ao posto de funcionária dos correios. Ficou no lugar um ano, sustentando a família, enquanto o marido tentava refazer-se do abalo psicológico. No ano seguinte convenceu o marido a mudarem-se para uma terra sem ligações de parentesco nem tantas invejas. Enfim, mais arejada. Fez duas candidaturas e conseguiu transferência para a estação de correios de Espinho. O marido abriria uma pequena confecção, e com a usual dedicação colocada nos negócios, viu-a crescer e a transformar-se em lucrativo negócio. As irmãs, chegadas a Espinho com oito e sete anos, estavam pela segunda vez a mudar de terra e de escola. Não parecia fazer grande mossa, face à facilidade como se integraram e fizeram amigos. Mas havia pormenores a causar tremenda confusão. A pronúncia rude dos colegas e amigos e a constante desconfiança como conversavam e brincavam. Faltava a doçura cantada do português falado em Angola e o desapego dos andarilhos. Não se tratava de desconfiarem delas, mas de desconfiarem de tudo e todos a toda a hora. África parecia ter dado a estas raparigas dose de confiança nos outros, que parecia ser bem escasso nesta terra estranha.

      Assente a poeira e assim que puderam respirar de alívio quanto às aflições financeiras, a família tentou reestabelecer os laços e refazer o estilo de vida em África. Os passeios por Portugal aos fins-de-semana e as férias de campismo tornaram-se parte das suas vidas. A escolha de férias fora um acaso no segundo ano em Portugal e passou a ser imposição das miúdas, agora já na adolescência, e vontades próprias, invariavelmente, a quererem estar com os amigos. Ora, vários colegas passavam as férias nos parques de campismo junto das famílias. Assim, entre os antigos amigos de Luanda, um pouco espalhados pelo país, e os feitos em Espinho, as relações da família foram alargando e criando raízes.

      Entre os assíduos do campismo estava a Lara, rapariga bonita, alta e magra, de feições largas quase grosseiras, cabelo sedoso e olhos verdes. E que, apesar de ter uma passada um tanto pesada, movia o corpo com graça. Nasceu em Trás-os-Montes, quando o pai Ângelo, aos vinte e dois anos, já desertara e, por causa da guerra colonial, emigrara para França, onde esteve oito anos. Ao regressar fez-se confundir com exiliado, como se a razão da deserção tivesse algum fundo político. Desertou porque legitimamente tinha medo de morrer. Não se cansava de dizer à namorada: tenho medo de morrer na terra dos pretos. Terra vista por gente sem mundo, como terra de selvagens. A única ideia de África retida era de pavor, depois de um parente regressado de cumprir o serviço militar em Angola gabar os feitos atrozes dos portugueses em vingança dos massacres infligidos sobre os colonos brancos em 1961. E emigrou por não ter perspectiva de sobrevivência financeira na aldeia onde nascera e vivera, apesar de ter aprendido a arte de serralharia numa pequena oficina do tio. Havia medo legítimo e pobreza efectiva, mas não havia subjacente motivação política nem discordância da política nacional. Marcelo Caetano, como antes Salazar, eram figuras a gerar indiferença ou até simpatia no seio da família. Para o grosso da população portuguesa doía a pobreza em que se vivia e a obrigatoriedade de combater no ultramar, e não tanto a falta de liberdade de expressão. À época, se tivessem questionado o Ângelo sobre a sugestão da palavra liberdade, falaria de tudo quando fosse diferente da vida dos pais, numa palavra: França. Mas não experimentava sentimento de revolta contra o sistema político do país, a não ser a sensação intemporal de descontentamento por não conseguir aceder à riqueza vista em poucos conterrâneos. E, naturalmente, o problema de ter de cumprir o serviço militar, desde que ultrapassado individualmente, não levantaria qualquer outra questão. Achava até louvável Portugal ser um império. O não querer combater, não era questão de convicção, não era objecção de consciência, sucedida não se achar talhado para ajudar em tão patriótico desígnio do regime, sem questionar que outros o fizessem. Tudo mudaria quando, desde França, tomou consciência da revolução ocorrida em Portugal. E de natural alheado da política nacional, passou a fervoroso antifascista. E Portugal a terra de esperança, regressando não há terra natal, uma aldeia próxima de Mirandela, mas a Espinho, por ter conhecido em França um casal de lá originário, apaixonado e promotor da praia e do mar. Na memória, para todo sempre, França foi o expoente máximo de país desenvolvido. Nunca conheceu outro país, senão a vizinha Espanha, por a atravessar a caminho de França, durante aqueles oito anos de trabalho duro enquanto ajudante de armador de ferro, e onde a mãe da Lara se juntara, para passar o dia a trabalhar numa engomadoria de hotel. Até aos seis anos a pequena Lara manteve-se em Portugal com os avós maternos, tendo vivido no regaço dos pais, em Bordéus, apenas entre 1973 e 1975, até decidirem vir viver para Espinho.

      Anos mais tarde, já adolescente no liceu, a Lara manifestaria enorme necessidade de se afirmar pela diferença e exibi-la. Essa irreverência notava-se, desde logo, na forma de vestir. Trajava roupa arrojada, misturas da sua cabeça, inspirada nalgumas correntes alternativas. Achava piada aos punks e aos góticos, mas não aderia nem se fixava em nenhum, criando um look estranho e genuinamente seu. Quando a maioria dos colegas ouvia Xutos & Pontapés e Depeche Mode ou Madonna, ela vidrava com as músicas dos The Doors e ao mesmo tempo conseguia curtir sons do Marilyn Manson e de Edith Piaf. Se a maioria dos colegas ia ao Clube de Vídeo alugar os Salteadores da Arca Perdida e as Guerras das Estrelas, ou as pestíferas Academias de Polícia e os Rockys, ela tentava engrenar em filmes intragáveis de alguns realizadores portugueses ou no cinema francófono.  E se muitos se viciavam no banal tabaco, ela não descansava enquanto não ia mais longe no critério do alternativo.  Quando a oportunidade surgiu e pela mão do colega de turma e amigo Sérgio se deparou pela primeira vez com a barrinha cor-de-chocolate de haxixe, de imediato ajudou a desfazer pequena porção e a misturá-la no tabaco de enrolar, para partilharem o recém-concebido charro de culto da existência juvenil desta eterna miúda alucinada. Os efeitos de duas ou três passas no rolinho proporcionavam alterações de comportamento pouco distintas do normal cigarro, com agravante de poderem provocar, pelo uso continuado, transtornos a nível neurológico e cardiovascular, mas à Lara tais pormenores passavam ao lado. Ter a experiência ou aparência de estar fora de si, e sobretudo poder dizer aos outros ter gozado tal experiência, representava um marco na sua autonomia e independência. Dizia ser o seu grito de liberdade, e associava sempre o momento ao grito do Ipiranga, porque nesse mesmo dia, na sala de aula de história, retivera apenas que o príncipe regente do Brasil, gritara “independência ou morte” e assim se tornara em D. Pedro I, imperador do Brasil. Esqueceu-se de aprender ter sido a ousadia da liberdade, não a do Brasil mas a nossa, a custar-lhe o coração, por si mandado entregar ao Porto. Literalmente.

       Mais tarde, enquanto adulta, confundiria abertura de espírito e deslumbre, fazendo questão de mostrar o quão mente aberta se achava. Useira e vezeira em acusar os outros de serem fechados e tacanhos, tal como a grande amiga Ana Paula, nunca reconheceu as virtudes da reserva e da discrição e, como ela, não distinguia abertura de espírito de exibicionismo nem reserva de tacanhez. Gostava de experimentar, de descobrir e não usava filtro no que trazia até ao seu mundo. Experimentar e expor as descobertas pareciam ser o lema da sua vida. Esponja, absorvia sem critério tudo quanto tivesse aparência apelativa ou marginal. Isso, naturalmente, enriquecia-a como pessoa, mas fazia soar os sinos da leviandade e da inconsistência. A paixão bateu à porta ao som de slot machines do casino de Espinho, onde o futuro marido era funcionário. Embevecida pelas centenas de histórias contadas pelo Rui, cobertas de vivacidade, sobre fortunas jogadas, ricaços faustosos, turistas generosos e enganos e desenganos matrimoniais, embalou num namoro transformado em longo casamento.

Mesmice

por Isabel Paulos, em 17.02.21

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A presunção titubeante de trazer algo de novo. Se não, mais valia tratares apenas da vida, do rame-rame, do almoço, do trabalho, do gato que há-de vir. Do que é simples. Mas não, tens a pretensão das pretensões. Tivesses a certeza de não trazer nada de válido e seria mais fácil: arrumarias simplesmente a trouxa e ignorarias a mesmice de insignificância a que assistes.

Afinas os ouvidos e olhos e vais observando o que é dito e escrito. Apesar da aparência de contestatária, concordas ou discordas quase sempre sem mexer uma palha: nem que sim, nem que não. Como milhões concordas ou discordas quase sempre em silêncio. Gostas ou detestas do que é dito ou escrito entre leves sorrisos e irritações mas sobretudo bocejos, porque tudo quanto sobra é a sensação do dito e escrito não servir para rigorosamente nada. Sucessões de palavras intrincadas em factos, ilações e opiniões da mesma mesmice, ancoradas em inegável conhecimento dos meandros das ideologias, lei, inclinações e ambições. Às vezes até da arte e das emoções. Ainda assim massa de sílabas quase sempre fria e asséptica feita da mesma mesmice. Tropeças há anos em casos nos quais é impossível passar da segunda ou terceira linha só pelo tédio que te dá a falta de verdade e humanidade. A falta de ser. Mãos que dedilham os teclados dos computadores totalmente alheados da natureza, embrenhados em conceitos sofisticados cujo processo de criação pressentes jamais conseguiram sentir, apesar de serem muito capazes de o esclarecer e esquadrinhar cabalmente com base noutras tantas noções que tomam por adquiridas e por isso jamais questionam. Milhentas gavetas cerebrais de ficções e especulações tidas por realidade.

Só pode ser defeito teu, que em tudo vês uma argamassa de palavras feitas de insignificância e artifício. E céus. Às vezes até concordas e gostas. Faltar-te-á abertura de espírito ou capacidade de espanto? Quando em Fevereiro do ano passado te queixavas da falta de espanto, a natureza já tinha cozinhado a covid para virar o mundo do avesso. Mas o certo é que volvido um ano continuas impávida, sem ser tocada pelo espanto. Ditará a sensatez que as linhas precedentes são um desaforo de quem brinca com o fogo? Determinará a excitação dos iludidos que foram escritas por inconsequente que não conhece o lado apaixonado da vida? Sobrará apenas a visão dos pragmáticos convencidos: se estudasse, lesse e trabalhasse mais e, sobretudo, se não se preocupasse tanto com a reacção, não seria tão estúpida?

 

Voar

por Isabel Paulos, em 16.02.21

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É muito difícil ao judeu errante, emigrante ou qualquer expatriado e ainda a quem tenha experiência própria ou próxima de viajante, fazer perceber como é obtuso aquele que não saindo do seu espaço, o considera centro único do universo. Não é que a emigração dê garantias de maior amplitude de compreensão do mundo, mas potencia-a. É evidente que havendo falta de inteligência e sensibilidade, o matarruano não passará a ser, por ter emigrado, homem com mundo. Mas é ainda mais difícil colocar no coração e cabeça de alguém que não vê além do seu curto quintal, genuína tolerância pela diferença.

Para lá da manipulação dos sentimentos nacionalistas e outras questões graves e sérias de guerras, disputas de território, recursos naturais e, lato sensu, hegemonia económica, que determinam em grande medida tudo quanto diga respeito ao cidadão estrangeiro, ao longo dos anos tenho reparado que entre os maiores intolerantes, para além do grosso da população que vai com a maré, estão os não declarados. Os que apesar de tantas vezes gritarem slogans e levantarem bandeiras da igualdade e da não discriminação, são muito ciosos do seu quintal e incapazes de estabelecerem laços cordiais com os estrangeiros ou, então, os que estando fora da sua pátria, não conseguem sã convivência nem impor respeito aos cidadãos do país de residência. Sei, parece forma muito leve de colocar a questão, mas o facto é que uns querem preservar o chão que consideram só seu, outros reagem à desconfiança ou animosidade com que são recebidos. Funciona em pleno a lei da disputa do poder.

Muitos pregam a igualdade e a não discriminação com paternalismo e desconhecimento tal das vivências dos visados, que se tornam mais ofensivos do que os intolerantes descarados. Como quase sempre a realidade não é a preto e branco e há intolerantes para todos os gostos, entre eles:

  • os grandes patriotas do seu quintal aproveitam a prosápia, ignorância e o turismo para insultar tudo quanto é estrangeiro;
  • os deslumbrados com o lá fora aproveitam a saloiice para desdenhar de tudo quanto é português, enjeitando ou deturpando cobardemente a nossa História;
  • as tribos de literatos alheados só conhecem o mundo dos livros e do ouvir dizer e aproveitam a sobranceria tão erudita quanto provinciana para desdenhar do judeu errante, emigrante, expatriado ou viajante.

Há planos de ignorância. O da vivência, que reflecte o bronco que não respeita aquilo que considera diferente. E o intelectual, que presume que estudando e lendo, fica a saber o que é melhor ou pior para os homens e país. Sucede que não há garantia que isso aconteça. Por muitos manuais de vôo que leia, só mesmo com as asas fora da gaiola a ave saberá o que é a liberdade e deixará de desdenhar por inveja dos pássaros que vê voar.

 

Limitação da Internet

por Isabel Paulos, em 14.02.21

Já ontem tinha prestado atenção nesta notícia. Para além das boas intenções e necessidades válidas, é bom que se perceba a perigosidade de uma medida como esta. A primeira sensação que tive foi a de ser o princípio do fim, apesar de toda a racionalidade aparente na sua defesa. 

Passará a estar na mão do Estado o poder de controlar aquilo que é acedido ou não pelos cidadãos que utilizam a internet?

Para além da questão de princípio, coloca-se a questão de quem financiará o quê. Não serão os cidadãos que pagam os serviços - e deixam de os poder usufruir plenamente -, que passam a suportá-los financeira e duplamente por via dos impostos e da subscrição?

E não se estará a incentivar a pirataria? 

Ficam as questões.

 

Adenda. Se for feito paralelismo com a utilização das bandas de rádio no passado em tempo de guerra ou calamidade, sempre há a acrescentar e fazer notar que o meio físico onde a informação da internet se propaga é artificial e pago pelo cidadão.

 

Os iluminados do século XXI

por Isabel Paulos, em 13.02.21

É inevitável. Por muito gosto que se tenha no contraditório e no debate, é impossível não perceber que há momentos e circunstâncias em que dizer ou acrescentar o quer que seja sobre um tema é absolutamente escusado. Ao histerismo cheio de sapiência (e céus, com pseudo-erudição de chorar a rir), não vale a pena responder com o entendimento. A inversão e distorção total da razão não estão ao alcance de pessoas vulgares. Só dos iluminados. É deixá-los brilhar e ofuscarem-se entre si. Dentro de pouco tempo o motivo da verdade histérica será outro e a verdade de hoje (que se desmanchará em seguida) será ignorada ou lembrada em tons sépia e cores amenas para que não se perceba o engodo.

 

Casa da Música

por Isabel Paulos, em 13.02.21

Acaso amanhã não tenham programa para a tarde e queiram arejar os ouvidos, a Casa da Música tem proposta aliciante com transmissão online: Mozart - Concerto para piano e orquestra n.º 20 em Ré menor, K. 466, pela Orquestra Sinfónica do Porto Casa da Música David Fray ao piano e na direcção musical. 

aqui havia mencionado o pianista francês David Fray. Podem ouvi-lo falar da peça que vai apresentar amanhã, aqui.

 

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por Isabel Paulos, em 13.02.21

O espaço asséptico inspira-te dúvida e desconfiança. És capaz de perceber o gosto pela luminosidade, linhas rectas e ambiente minimalista, mas pressentes de imediato que o espírito despojado não é real, não tem sintonia com a razão e o sentimento. Sorris e adivinhas que se corre atrás do 'conceito', quem sabe do 'paradigma'. A simplicidade artificial, muito trabalhada no intuito de dar imagem de, afugenta-te. O imaculado carece de nódoa,  falta a sombra e imperfeição ao belo. Falha humanidade.

Palavras

por Isabel Paulos, em 12.02.21

Cada dia que passa e quanto mais escrevo, mais certa estou do peso das palavras e da necessidade imperiosa de guardar as mais valiosas. As palavras depois de ditas e escritas têm peso próprio, materializam razões e sentimentos que não podem ser resgatados e negados, sob pena de caírem no alçapão não só da imprudência, como do próprio desinteresse.

Álbum: 28 homens bonitos

por Isabel Paulos, em 11.02.21

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Anton Tchekhov, 1860; Ernest Hemingway, 1899; Albert Camus, 1913; Jack Kerouac, 1922; Paul Newman, 1925; Sidney Poitier, 1927; Sean Connery, 1930; Clint Eastwood,1930; Robert Redford, 1936; Paul Auster, 1947; Jeremy Irons, 1948; Pierce Brosnan, 1953; Denzel Washington, 1954; Antonio Banderas, 1960; George Clooney, 1961; Chris Cornell,  1964; Paulo Pires, 1967; Karl Ove Knausgård, 1968; Matt Damon, 1970; Bradley Cooper, 1975; Carlão, 1975; Matt Bomer, 1977; Jerónimo Albano, 1979; Iker Casillas, 1981; Feliciano López, 1981; Henry Cavill, de 1983; Theo James, 1984 e Michele Morrone, 1990.

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O bom de passar um par de horas a fazer um álbum sobre beleza, é que durante esse tempo é impossível não ter um sorriso na cara. Pura alegria e boa disposição pelo simples regalo dos olhos, longe das palermices do quem é que é que usa quem, quem é que atirou a primeira pedra, esquerdas e direitas, racismos e 'slonganzinhos', feminismos e misogenias que enchem cabecinhas azedas ou evangelizadoras.  

Espero que a inclusão de Karl Ove Knausgård tenha agradado na Noruega.

Para o ano há mais.

 

Mundo efabulado

por Isabel Paulos, em 09.02.21

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Durante quinze pasmados anos, com algumas ausências temporárias nos quatro primeiros, apanhei autocarro na paragem do Bessa. Como companhia tinha, sobretudo, empregadas domésticas e alunos da Clara de Resende e da Fontes Pereira de Melo. Das conversas das primeiras ficava a saber da intimidade das casas onde trabalhavam, espécie de vingança das cavaqueiras tidas pelas ‘minha patroa’ e 'ela'- variações por que são conhecidas as donas das casas em ambiente STCP -, as quais quando mais velhas também se locomovem de autocarro. Muito polidas demonstram prazer imenso em zurzir na burrice e  incompetência do pessoal que as serve, não em público mas no regaço do seu lar, minuciosamente exposto pelas servas quando não distraídas a rebentar balões nos telemóveis. A  justiça divina fazia-se ali mesmo e uma coisa é certa: a luta de classes vivia apartada e distante da realidade alternativa dos crianços (adolescentes, em rigor) que coabitavam o transporte público.

Dos mais novos espantava-me sobretudo a total indiferença de substância entre realidade e ficção. Diariamente me debatia em silêncio atenta a miúdos que tinham várias vidas, forças invisíveis, likes, poderes naturais e sobre-humanos indistintos dos sumos que bebiam, das bolachas que mordiam, das biqueiras, das palmadas nas costas, dos kisses e amassos. Várias vezes dei por mim baralhada, tal era a indistinção vocabular empregue nas diversas situações, ficando na dúvida se aquela paixão e enredo de que falavam rapazes e raparigas era referente a algum colega ausente ou mesmo um deles, se a personagem de animação, protagonista de algum jogo virtual, ou músico de banda eleita. Se aquele motivo de irritação e guerra declarada era fruto de alguma zanga física e palpável ou decorrente de uma congénere caça ao Pokémon. À distância já vejo a amálgama do discurso - quanto mais palavrosa e alheada mais enaltecida por alguns pais e professores vergados às correntes de pedagogia que enaltecem o mundo fora dos modelos convencionais – um traço distintivo dos meninos de hoje portadores de generosas doses de criatividade e riquíssimo vocabulário facebookiónamo, ao contrário dos miúdos dos tempos bafientos de outrora, pobres coitados de parco vocabulário, chamando os bois pelos nomes ou usando gíria anacrónica. O que vi foi a mescla  sempre conforme à norma virtual de tolerância pela diferença e de cenário, acções e sentimentos efabulados. O arrazoado rápido e fluente de miúdos maioritariamente mais desinibidos do que os das gerações precedentes, porque cheios de repentes informativos e improvisos simplificadores que desenham num ápice tudo quanto precisam saber para se desenrascarem não só enquanto estudantes, mas enquanto miúdos saídos há pouco da puberdade. Massa indistinta de informação com imaginário muito longínquo do que outrora irmanava as estirpes juvenis privilegiadas – proveniente dos livros, das viagens, do cinema, da pintura, do rádio, da música e, finalmente, da televisão. O espectro do mundo da fantasia metamorfoseou-se numa coisa distante: os livros, as viagens etc, depois de se democratizarem, caíram no sofá do IKEA e passaram a servir de objecto banal de culto, tal qual as sapatilhas (ténis para os possidónios) Adidas, e a fantasia passou para o plano puramente virtual e alternativo. O desconhecimento dos diferentes cantos do planeta e o exotismo deixaram de existir com a massificação das viagens. Na aparência, mas isso hoje pouco interessa. O desconhecido, a fantasia, o mistério, que sempre há-de atrair as camadas juvenis, está hoje acessível no digital. É lá que o real se desenrola.

A mim, que passei a vida toda a devanear o impossível e melhor ou pior integrei o mundo da imaginação e fantasia nos meus dias, espanta-me mais ainda a falta de perplexidade com que reagem os muitos filhos da televisão, adolescentes dos idos anos 70 e 80, que sonharam essencialmente fazer dinheiro, ter uma casa xpto, casar e ter filhos. E que para isso trabalharam de modo pragmático, obtendo natural e merecida recompensa. Admira-me que não se espantem ao deparar-se com esta nova geração – a dos seus filhos. Daqui do alheamento da idade da pedra onde vivo, fico a imaginar que linguagem se fala entre pais e filhos. E chego à conclusão que a ponte se estabelece, por exemplo, via HBO e Netflix,  das quais tenho eco mas não subscrevo e suponho enormes legendas ou elos intergeracionais.

O mundo efabulado passou a ser o real. Vale apenas a mãe natureza, indiferente aos delírios da humanidade e pronta a lembrar que para a sobrevivência e perpectuação da espécie humana precisamos de abrigo, dormir, comer e acasalar. E é isso que mais fará mover os mais novos, como fez mover as gerações precedentes. O que nos vale é que o universo é uma engrenagem muito bem feita e, até ver, à prova de muitos dos desvarios humanos.

 

Gravata no Parlamento neozelandês

por Isabel Paulos, em 09.02.21

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E achava eu a gravata um dos últimos artefactos de tortura do homem, do qual as mulheres felizmente estavam livres e como tal serviria de reduto de vingança pela efectiva desigualdade de oportunidades. Afinal não, no parlamento neozelandês a coisa discute-se porque Today it remains one of the enduring symbols of white male supremacy, silently serving to maintain white male values and standards as the norm

Franqueza

por Isabel Paulos, em 08.02.21

Não aprendeste tanto assim da vida, mas algumas (poucas) coisas já tens como certas. O ser humano tem tendência a valorizar as falhas e acusar os outros de defeitos que ele próprio possui. É muito comum o ladrão acusar outro de ladroagem, o mentiroso denunciar outro por mentir e o traidor culpar outro de traição. Não sabes se o motivo estará na velha estratégia da melhor defesa ser o ataque, ou se tratará simplesmente do horror a se ver no espelho.

Vem isto a propósito de dares por ti a pensar no que se evitará com atitudes dúplices e o que se conseguirá com grandes estratagemas defesa? Evitar desgostos provocados por traições e deslealdades? Só rindo. Ninguém trai e é tão desleal, como aquele que cisma sistematicamente ter sido, ser e vir a ser vítima de traição.

Há realidades e sentimentos muito difíceis de fazer perceber e é espantosa a admiração que provoca a sinceridade ou franqueza. Quem sempre desconfia e guarda cartas na manga, não vá o diabo tecê-las, nunca poderá entender quem não esconde sentimentos, ideias ou intenções, ainda que os tenha visto aproveitados e usados ao longo dos anos por outros.

Franqueza a mais é falta de educação, sem sombra de dúvida. E a menos, falta de carácter.

 

Os senhores do mundinho

por Isabel Paulos, em 08.02.21

Quantas vezes os crápulas se escondem atrás de afirmações sensatas e inofensivas na aparência, mas nada mais do que tiradas superficiais. São tão angelicais os canalhitas dos tempos modernos. Uns doces de mindinho no ar adulados por crédulos.

E tão felizes, crápulas e os aduladores, feitores do país deste tempo, que fingem desprezar, quando mais não são do que os seus reis e senhores. Clap, clap, clap.

Um pouco de fel por dia, dá saúde e alegria.

 

Democracia

por Isabel Paulos, em 03.02.21

É certo que a maioria do mundo foi varrido por este pesadelo da fragilização da democracia e que era previsível descida de categoria quanto ao carácter mais ou menos democrático do nosso País em função das medidas restritivas que vão sendo tomadas, mas era escusado termos acrescentado a redução dos debates parlamentares e o rocambolesco processo da nomeação do presidente do Tribunal de Contas. Como fomos dando nota nas Comezinhas em devida altura, aqui e aqui.

Infelizmente, nestas duas últimas matérias, Rui Rio teve um papel (negativo) importante. Eu que temo o regresso não de Passos Coelho, mas da entourage que o cerca, não posso deixar de lastimar que Rui Rio, a pessoa em quem tencionava votar nas próximas eleições legislativas, esteja a contribuir para cavar tamanho fosso na nossa democracia. 

Do Governo, do seu desnorte autoritário, e da falta de oposição à esquerda já nem falo. São de tal modo evidentes os tiques totalitários que qualquer português que não ande a dormir dará por eles com toda a certeza.

 

Muito obrigada a quem me chamou a atenção para a notícia de hoje.

 


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