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Diário de ontem

- actualizado -

por Isabel Paulos, em 16.09.21

Ontem reli postais sobre a exacerbação da falta de auto-estima da esquerda e a ideia de que é a esquerda académica, intelectual e bem instalada que promove o activismo tonto e não os verdadeiros penalizados pelas ofensas às identidades. Sem deixar de perceber que há verdade nesta observação, e com eterna tendência para ver dos dois lados, tentei contrapor a visão da balofa auto-estima da direita, ancorada na ideia da sempre possível superação dos obstáculos, crença cega na vontade individual e na inexistência de desigualdades para quem acredita em mantras motivacionais e que os fins justificam os meios.

Enquanto decorria o debate das autárquicas no concelho de Lisboa, dei por mim assustada com a memória do que escrevi há dois dias e ainda não publiquei por querer corrigir e maturar, assente na contraposição entre o artifício e o essencial, sendo que este último estaria na conexão com a natureza – a ideia base da Quinta. O sobressalto prendeu-se com voltar a ler um rápido resumo da biografia de um contemporâneo profeta e chanfrado homicida cujo pensamento passa a páginas tantas por esse tipo de ideias. É preciso muito cuidado para não perder o pé, pensei.

Do debate ouvi apenas partes. Fiquei agradavelmente surpreendida com o bom senso (quem diria) da prestação da representante do PAN, entediada com os paradigmas da candidata do Bloco de Esquerda, irritada com a prepotência da independente apesar do que disse fazer sentido, hesitante em relação à candidata do Nós Cidadãos, sem dúvida com trabalho bem pensado e bem feito além de coragem para a denúncia, mas fiquei sem conhecer alternativas. Encolhi os ombros ao ouvir o representante da Iniciativa Liberal, tive esperança que três dos candidatos que enunciaram críticas certeiras mas banais ao poder instituído dessem o passo seguinte e concretizassem políticas. Fiz por não ouvir o Presidente da Câmara em exercício - sei, não é uma atitude inteligente, mas tenho que poupar a minha saúde. E reparei que o bonito próximo secretário-geral do PCP parecia ele próprio o Presidente da Câmara de tal modo está instalado e mais à vontade do que qualquer um dos outros nas questões concretas da governação municipal; nem se esqueceu de elogiar - a pretexto de motivá-los - funcionários da edilidade numa descarada caça ao voto.

Entretanto ontem ou anteontem – perco um pouco a noção – Rui Rio esteve muito bem no comentário à inacreditável postura da maioria dos juízes do Tribunal Constitucional, ao afirmarem que a mudança para Coimbra desprestigiaria a instituição. A única nota que se pode fazer aqui é esta: a maioria dos juízes do mais alto órgão de Justiça não passam de parolos e pouco podemos esperar do país quando assim é. Sim, a postura é própria de pacóvios ascendidos à capital. No Livro dos Três Princípios procurei deixar bem claro que um dos mais graves problemas do país é esta saloiice dos representantes dos mais altos cargos da nação – passa por juízes, mas também por políticos, intelectuais, académicos e comentadores televisivos, por exemplo. Nada pior do que entregar o poder (em sentido lato) a deslumbrados.

Para rematar digo apenas que teria gostado de ter sido poupada à visão e audição de um velho senil a dizer obscenidades. Quando penso que Fernando Nobre poderia ter sido Presidente da Assembleia da República, penso: céus, que susto. Mas na realidade ainda conseguimos pior. Fernando Nobre e Ferro Rodrigues são o pior retrato do país.

*

Adenda: percebi depois de publicar que me tinha esquecido de Moedas. Não foi mesmo intencional, mas de facto também não me entusiama, tal como Medina parece-me um avençado do lobby lifestyle das bicicletas.

Covid-19

por Isabel Paulos, em 15.09.21

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Quem é

por Isabel Paulos, em 14.09.21

Quem é Isabel Ayuso?

«Ayuso ha traducido en mensajes sencillos la vida cotidiana de los madrileños, consolidada durante un cuarto de siglo, y basada en la apertura al exterior, las oportunidades, la recompensa al esfuerzo, el reconocimiento del mérito y la modernidad. Lo ha resumido en la palabra “Libertad”, que es el lema de campaña. Ayuso ha conseguido que dicho concepto vuelva a ser una emoción, como dicta la tradición liberal, de dirigir con ilusión la propia vida y asumir la responsabilidad. En realidad, consiste en tratar a las ciudadanos como adultos, lejos del Estado paternalista y de ingeniería social al que están acostumbrados en otros territorios, y predican otras opciones políticas.», em Perfil, de 30-04-2021.

*

«Para intentar comprender el fenómeno Ayuso hay que recurrir a Edward L. Bernays, quien en su libro Cristalizando la opinión pública desentraña los mecanismos cerebrales del grupo y la influencia de la propaganda como método para unificar su pensamiento. Así, según L. Bernays, «la mente del grupo no piensa, en el sentido estricto de la palabra. En lugar de pensamientos tiene impulsos, hábitos y emociones. A la hora de decidir, su primer impulso es normalmente seguir el ejemplo de un líder en quien confía». En consecuencia, la propaganda de Ayuso va dirigida no al sujeto individual, sino al grupo, en el que la personalidad del individuo unidimensional se diluye y queda envuelta en retazos de falsas expectativas creadas y anhelos comunes que lo sustentan (utopía).», no La Voz de Galicia, em 18 de Agosto de 2021.

*

«La reforzada dirigente regional ya ha dejado claro además que piensa ejecutar todas las medidas de su programa electoral para las que la formación naranja suponía un freno. De hecho, la primera iniciativa que ha llevado al hemiciclo de Vallecas ha sido una reforma exprés de la Ley de Telemadrid que le ha permitido destituir a la dirección de la cadena tras haberse lamentado de que era la única presidenta autonómica que tenía una televisión que le era «crítica».» e

 «En paralelo, todos los miembros del consejo de administración de Radio Televisión Madrid serán designados por la Asamblea de Madrid a propuesta de los grupos parlamentarios como "mejor garantía de la independencia, neutralidad y objetividad", según el PP. Cinco de los nueve que ostentan el cargo actualmente fueron elegidos por asociaciones de la sociedad civil y el resto por las cuatro formaciones que tenían representación hace seis años.», no El Mundo, de 14 de Agosto e 8 de Julho de 2021.

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«Más política que intelectual; más apocalíptica que integrada; más hedonista que epicúrea; más de intuición que de cálculo; más de víscera que de razón (aunque lo esté intentando corregir); directa, sencilla, sincera, pero con la dudosa humildad de los soberbios; de armas tomar, pero sin elevar el tono; chula, irónica, enigmática, puntillosa, emocional hasta el llanto extemporáneo y audaz hasta la temeridad; de prueba y error, a todo o nada.», no El País, de 4 de Julho de 2021.

Recapitulando

por Isabel Paulos, em 10.09.21

 

Humor: os três estágios

por Isabel Paulos, em 21.04.21
 

Hoje estou virada a ver as coisas pelo avesso. Acontece-me muito. Também é preciso ver pelo revés para não ficar agarrada aos lugares-comuns. Um deles é o de que o humor é sinal de inteligência.

Ontem, cá em casa, ao ouvir um comentário sobre alguém avesso a perceber piadas e sempre tentado a questioná-las, lembrei-me que muito do humor tem base na ignorância. E como muitas das pessoas que consideramos desprovidas de sentido de humor são, simultaneamente, bastante capazes e conhecedoras. Podem é não ser as melhores e mais animadas companhias.

Desde a gracinha rasteira ou anedota tosca ao sketch bem esgalhado de um humorista profissional bem-sucedido muito dos trocadilhos, das ilações fáceis e dos rótulos rápidos são feitos da ignorância das realidades ou do funcionamento das realidades que subjazem à piada. É evidente que muitas vezes essa ignorância não é inocente: é a falsa ignorância para obter o efeito desejado do riso. Mas em muitos outros casos, as graças espelham mesmo o desconhecimento ou preconceitos de personalidade, sociais, ideológicos ou morais do autor da piada.

A coisa funciona por estágios. Na base a piada e o entendimento dela sem o uso inteiro da razão, de que resulta o riso. Em seguida o entendimento dela com a razão e o questionamento, que resulta num certo desinteresse - a que se chama ausência de sentido de humor. E por fim, no entendimento de que se está acima da questão de haver ou não razão e da piada valer por si, resultando novamente no riso. Talvez menos espampanante. Mais sereno, mas não menos gozado.

 

O conceitez

por Isabel Paulos, em 08.09.21

Poucas coisas me divertem tanto como ouvir os hoteleiros - e agentes imobiliários - de serviço nas televisões. Nunca desiludem.

Acabo de ouvir uma menina dizer que o hotel inserido num palacete de uma quinta de Lamego «a nível de conceito e ambiente foi inspirado na região e na história do palacete».

Surpreendente. Quando esperava encontrar um pagode chinês em Lamego. Afinal, não: há vinhas e tudo. Estranhei ainda mais não ter dado pelo paradigma ou quiçá pela dinâmica.

Este é o país do conceitez.

Perspectivas desanimadoras

Fernando Medina e Paulo Rangel

por Isabel Paulos, em 06.09.21

Olho para os principais candidatos a líder dos dois maiores partidos portugueses e assusto-me. Pelo lado do PS, Fernando Medina representa tudo quanto abomino na política actual: a falta de idoneidade, falsidade, irresponsabilidade, adesão aos clichés da moda, falta de substância.

Do lado do PSD perfila-se Paulo Rangel.  

Quando há mês e meio me enviaram o badalado vídeo de Rangel - aparentemente feito por uma qualquer cabra que ao publicá-lo demonstrou quão miserável é -, tive o cuidado de não reencaminhar a rigorosamente ninguém e um palpite que vinha por aí um “chegar à frente”. Não me enganei. Pela forma como os políticos da nova geração acham que se devem apresentar: não pelo programa, não pelas ideias, mas pela passagem por um qualquer programa “chorinhas” e pela aluvião de abraços e palmadinhas nas costas de correligionários interessados nas redes sociais – twitter, facebook e blogues –, na maioria dos casos à espera de um lugarito ou benesses no novo PSD ou entidade mais discreta. Esquecem-se sempre que quem com ferros mata, com ferros morre e hão-de ser as mesmas redes, os mesmos amigos traiçoeiros a puxar-lhe o tapete.

Ao contrário de Medina, Paulo Rangel tem substância: é pessoa intelectual e profissionalmente muito preparada, e bom professor. É também um homem extraordinariamente ambicioso. Até aqui nenhuma pecha para ser bom líder do PSD. Sucede que não tem a menor consideração por quem não lhe traz benefícios, sendo capaz de destratar os outros por simples prazer, arrogância e vaidade. O protótipo da pessoa capaz de ser forte com os fracos e fraco com os fortes. Por saber disto, e por considerar que não vale tudo, jamais votaria nele. E não gostaria de o ver à frente do PSD.

Inconfessáveis

por Isabel Paulos, em 02.09.21

Em novita passava muitas horas a arranjar o mundo mentalmente. Cada um tem os vícios que tem e habituada que fui a compor o mundo à mesa de jantar é natural que me mordesse o bicho dessa coisa da opinião – deve sempre ser de todos, sem excepção.

Cresci com uma ideia romantizada dos árabes, especialmente dos magrebinos, muito por via da minha avó materna que, como enfermeira na Guerra Civil Espanhola, se especializou nos cuidados a marroquinos, a quem ficou com amizade.

A suavidade com que eu olhava os árabes foi abalada quando em 1990 o Iraque invadiu o Kuwait e espoletou a Guerra no Golfo – não que não houvesse antes motivos de desconfiança, como os episódios do ataque em 1972, pelo grupo Setembro Negro ligado à OLP, aos atletas israelitas no Jogos Olímpicos de Munique, ou do assassinato, em 1983 no Algarve, por uma organização extremista palestina, de Issam Sartawi, um representante da OLP moderado e, por isso, favorável à abertura de diálogo com Israel. E, claro, a regressão do Irão.

O mundo árabe é extenso e de uma enorme complexidade, exige à cabeça perceber a diferença entre árabe – cuja definição geral se pode encontrar no povo que partilha cultura e língua comum (mas não se pode compreender sem atender à multiplicidade étnica e tribal), ou mais específica como habitante da península arábica  - e muçulmano – aquele que professa a religião islâmica. É preciso muito estudo e leitura para se ter uma pequena noção do que estamos a falar, desde logo, da razão dos ódios e da disputa do poder – original, já que nasce com o próprio Islão, no século VII - entre xiitas e sunitas. O conflito com Israel exige conhecimento da história não só de há 2000 anos, como a dos alicerces da criação do moderno Estado de Israel, culminado em 1948 e das subsequentes guerras com os povos/Estados vizinhos. Mas para fazer um postal sobre esses temas terei que fazer mais leituras. Ficam, portanto, para outras núpcias.

Sucede que em novita como agora, vivendo em Democracia e sendo livre, tenho direito – como todos têm ou deveriam ter – de dizer o que me vai na alma, independentemente da desconsideração a que seja sujeita - como qualquer pessoa que não usa os pergaminhos formais nem os chavões habituais nesta matéria, nem pertence ou quer pertencer ao círculo viciado da opinião timbrada a selo branco por algum clube de amigos geniais. Alguns de facto muito estudiosos, mas quase sempre desfasados da realidade, vaidosos e incapazes de ouvir a voz da razão se esta não estiver embrulhada em convenções fúteis.

Porquê o último parágrafo? Porquê não me limitar ao tema e dar sempre estas alfinetadas, supostamente, escusadas? Por ser preciso sentir para saber. Caso contrário, brotam apenas floreados. E a razão ficará sempre aquém. É o castigo pela pretensão. Tenho perfeita noção que nesta como noutras matérias pareço um disco riscado.

Vai daí, volto ao início e conto que em nova e reportando-me à imagem de aviões que deixam cair panfletos - coisa que nunca percebi se assisti em criança muito pequena (tenho uma vaga ideia de estar pendurada no portão da casa dos meus avós nas Antas entusiasmada com a ideia de apanhar papéis que caíam do céu - talvez meramente publicitários) ou se me contaram (talvez tenha feito uma associação tardia pelo conhecimento do episódio de Henrique Galvão e Palma Inácio, não sei) – idealizava aviões bombardeiros americanos a deixarem cair não bombas mas revistas Playboy sobre os territórios dominados por extremistas islâmicos. Digamos que face à selvajaria achava que seria de educá-los em matérias nas quais visivelmente precisam instrução. Mais tarde elaborei um pouco mais, e imaginei que talvez fosse necessário enviar uns milhares de coelhinhas voluntárias devidamente equipadas. Seria uma missão heróica. Deveriam ser condecoradas com as mais altas honras militares uma vez terminada a operação. Porque essa, sim: seria uma guerra justa.

Casos e casinhos

por Isabel Paulos, em 28.08.21

António Costa em entrevista a José Manuel Mestre no momento da referência ao caso do atropelamento mortal pelo carro em que seguia o Ministro da Administração Interna.

O ardil com que inverteu a razão: o choradinho para impressionar a população, quando por dentro há apenas e tão só manha e hipocrisia.

Sei, é muito fácil falar em oportunismo em casos de acidentes. Sucede que gente responsável assume a responsabilidade, não se escondendo atrás de inquéritos ou averiguações, muito menos fazendo circular atenuantes para quem seguia no carro e culpabilizantes para quem se encontrava a trabalhar.

Não me venham falar em bazucas & reformas: acabar com estes desaforos seria a reforma das reformas.

Estratégia destrutiva

- o perigo de lidar mal com os sentimentos -

por Isabel Paulos, em 28.08.21

Acusar quem escreve sobre o dia-a-dia, comportamentos e sentimentos – e quem usa a franqueza – de estar a tratar de menoridades e de fazer perder tempo aos outros. Tomar-se por ilustre e refinado pensador sobre as questões fundamentais da vida sejam elas quais forem: política, economia, arte, literatura, religião, desporto etc, sem perceber a sua própria mesquinhez de espírito e incapacidade de ver o mundo ao espelho. Reparar apenas no rebusque da moldura doirada do espelho sem entender o que o dito reflecte. Não perceber que o essencial da vida pode estar nas pequenas ideias e gestos.

Esta é a atitude de alguns intelectuais – curiosamente, também é o ponto de vista de muitos incultos, que fazem lembrar aqueles que não sabendo latim preferiam que as missas fossem celebradas na língua morta por ser mais bonito. São a base de pirâmide dos aduladores dos arautos da sabedoria.

Se são agressivos, além desta acusação procuram culpar alguns – sobretudo algumas – de buscar protagonismo. Tentando fazer com que se sintam inferiorizadas por alegada ignorância, pretensão e futilidade. E, claro, despropósito.

A regra é o pessimismo e a negritude. Num certo paralelo com a lógica do “um relógio parado está certo duas vezes ao dia”, estas pessoas parecem estar convencidas que é sinal de inteligência e sabedoria ver o lado perverso da realidade, como se acautelassem contra as traições da humanidade e do universo. É pena que, como eternos adolescentes rebeldes, não percebam serem elas próprias elos do universo. Ser lúcido e clarividente não é ser destrutivo e defender a inevitabilidade da ruína do mundo e das relações humanas. Não é entrar em processo de autodestruição sugando para a tormenta quem rodeia – refugiando-se e enaltecendo um paraíso perdido no passado que nunca existiu. Para isso não é precisa grande inteligência: qualquer alcoviteira faz o enredo da vida e qualquer carpideira dá eco ao fim certo de cada ser humano.

Procuram rodear-se de iguais. Gente igualmente convencida da sua superioridade e cultora da agressividade, que condena sumariamente todos os ignorantes da base da pirâmide intelectual. Precisamente os que os sustentam.

No fundo, o que está em causa? A necessidade de amesquinhar e acusar outros de imperfeição, ao mesmo tempo que com grande proa e sofisticação se diz ser contra moralismos – a maior das falsidades. Ao mesmo tempo que se pretende fazer passar a imagem de grande conhecedor da complexa e imperfeita natureza humana.

Moralistas, antes os que se assumem como tal. Nada pior do que amantes da devassidão a perorarem sobre o que devem ou não devem fazer os ignorantes. Se gostam tanto e é tão boa a podridão que fiquem por lá. Estranho é que sejam tão infelizes e cultivem tanto a infelicidade, sua e dos outros.

Para alertar para os perigos do populismo, do fundamentalismo, do relativismo, da corrupção e de toda a sujeira do mundo basta denunciá-los, não é preciso espezinhar os outros nem dar provas de podridão, como ser fosse necessário para ascender ao patamar de ilustre conhecedor da natureza perversa do homem.

Este texto foi escrito na decorrência de vários eventos não relacionados entre si, não se dirige a ninguém, nem pretende ofender ninguém.

Trabalho

por Isabel Paulos, em 26.08.21

Interrompo o “emailar”, olho para o relógio [10h45] e penso: tens 15 minutos para escrever um postal sobre o que estavas a pensar.

Li há pouco tempo que Elon Musk – creio que é ele, senão for será um outro crânio multimilionário da tecnologia – diz querer libertar a humanidade das tarefas aborrecidas. E volto à mesma tecla. Sempre que oiço a conversa do sacrifício das tarefas rotineiras, aborrecidas e do ódio ao trabalho menor, irrito-me por dentro. Às vezes, quem o diz são pessoas que estimo por isso tento distender os ânimos.

Fico sempre a pensar que espécie de auto-estima insuflada têm as pessoas que se acham superiores ao rotineiro e ao trabalho dito estupidificante. Acredito que todos os que trabalham deveriam fazer algumas tarefas rotineiras diariamente a bem da disciplina e da saúde mental. Quanto mais não seja para ficarem mais situados e não se acharem pequenos deuses, a quem o Universo conferiu poderes especiais sobre os outros e sobre a natureza. Sei, há qualquer coisa que assusta: “o trabalho liberta” tem de facto a pior das reputações. A questão é que agora a ameaça está do outro lado: agora querem libertar-nos da própria natureza humana. A humanidade anda sempre atrasada em relação aos perigos. Presa ao que já foi, vê sempre as profecias no lado errado.

E acabei às 10h59. Falta publicar.

Boa disposição

por Isabel Paulos, em 24.08.21

Isto da Missa ser machista - juro que não consigo dizer isto sem me rir muito -, faz lembrar a prisão do Al Capone por fraude fiscal.

A busca e o acaso

- o lado belo da vida -

por Isabel Paulos, em 22.08.21

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(Porto, 25 de Dezembro de 2019)

*

Dei por mim a pensar num lugar-comum: a vida é feita de momentos. Daí parti para a ideia-feita de que não se é feliz, está-se feliz - termo que já aqui contei não gosto de usar. A felicidade - até arrepia, só falta passar o texto a cor-de-rosa - seria então um disperso de migalhas de alegrias.

Não é que não seja verdade, também. Mas não é só isto. A aproximação da plenitude – e essa sim pode dar-se num instante concreto e intenso que se esvai, mas também se pode prolongar no tempo desvanecida, porque não sobreviveríamos a viver em êxtase – passa muito por descobrir o fio invisível que une os momentos bons e maus da vida e lhes dá sentido. Não se assustem: não vou falar de fé. Apenas na ideia de que nalguns momentos ou épocas do percurso acreditamos numa força motora que dá sentido à vida: a dor dos momentos maus atenua quando percebidos no contexto universal e os bons resplandecem.

Longe da premência dos porquês e na eterna insatisfação que mais nos define, há momentos ou épocas em que pensamos: a vida faz sentido. Esse é o contentamento.

O facto de o tempo não parar - se é que não pára, aliás, se é que há tempo tal qual o configuramos -, ou pelo menos, o facto de durarmos na sucessão de circunstâncias para além desta descoberta mágica que nos deixa mais radiosos por instantes, meses ou anos, faz com que os motivos que nos alegram se vão alterando ao longo do percurso. O que sentimos antes pode não morrer, mas transformar-se noutra coisa. A felicidade (ai, outra vez) que descobrimos antes pode não morrer enquanto houver memória, mas a natureza verga-nos à eterna insatisfação, que mais não é senão a busca do contentamento.

O que importa na vida é a busca tantas vezes inconsciente e fortuita, que ora desemboca no desencanto ora no encanto.

Ao cuidado dos Enfermeiros

por Isabel Paulos, em 19.08.21

Só vos digo, Ordem dos Enfermeiros: isto é o maná. Não se deixem ultrapassar pelos nutricionistas.

Face à tomada de conhecimento da lista de alimentos prejudiciais à saúde retirados dos bares e cantinas escolares por decisão do Governo e do papel que os nutricionistas pretendem conquistar, digo que tirando o aparte de sempre ter notado que quem mais maça os outros com a evangelização nutricional ser quem mais asneiras gastronómicas costuma fazer ao seguir modas e, lamento informar, mais cedo costuma sofrer na pele as consequências da ausência de bom senso - a falta de saúde -, a única coisa que me apraz dizer é que na minha Escola Primária havia Enfermaria (à séria) que frequentei com assiduidade e distinção. Por mim o Governo, terminado que seja o afluxo anormal de trabalho na enfermagem provocados pela pandemia, colocava um enfermeiro por cada Escola - e já, agora, um médico por cada grupo escolar.

Além disso, quando li ontem esta notícia - Sistemas nervoso e imunitário trabalham juntos para manter peso saudável e reduzir risco de doenças como cancro, do Observador -, fiquei de monco caído e para espevitar pensei logo em tomar medidas: vou sentar o meu sistema nervoso e o sistema imunitário frente-a-frente a discutirem a relação. Há anos que arrastam um casamento de conveniência e as consequências são cada vez mais visíveis. Talvez faça pargo com batatinhas assadas e cogumelos salteados para alegrar a ocasião - enquanto me deixam.

Inho

por Isabel Paulos, em 16.08.21

Há quem não goste do uso de diminutivos, os considere ridículos ou apoucados. Claro que tudo em excesso, cansa. Mas, como boa portuguesa, gosto de usar ‘inhos’ e ‘inhas’. Os espanhóis acham piada a este nosso tique. É coisa que nos caracteriza. Não vejo razão para nos envergonhar, quando parece tão só um modo delicado, terno ou irónico de tratar o mundo que nos rodeia. Será ridículo? E quanto do melhor nesta vida não tem ridículo?

Entre os técnicos da língua portuguesa há quem não os aconselhe, e chegue mesmo a proibir na literatura. Só vos digo uma coisa: é de fugir de alguns técnicos linguistas, sobretudo, quando se dedicam a ensinar escrita criativa, mas também dos que parecem muito sérios e recomendáveis quando entram em modo de censura. Vejo por aí gente que tenderia a escrever muitíssimo bem, não fosse o medo da quebrar regras e preconceitos de época introduzidos pelos linguistas. Não se apercebem o quão castrador e obtuso é o medo do ridículo.

Afeganistão

- perspectivas -

por Isabel Paulos, em 15.08.21

O mundo não pára. Estamos em permanente desactualização.

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Leio algures num jornal português que os talibãs querem evitar um banho de sangue na tomada de Cabul. Fui espairecer para os jornais britânicos. No The Independent encontro esta leve conversa sobre as intenções dos novos/velhos donos do Afeganistão e várias pequenas peças jornalísticas sobre os últimos dias em terras afegãs - o formato em permanente actualização não permite fixar os momentos pretendidos: das entrevistas de rua de Cabul a afegãos às declarações dos ocupantes, mas também o ponto de vista do dirigentes dos vários partidos representados no Parlamento britânico. A informação parece ser incinerada a todo o momento, como no buraco de memória para ser devorada pelas chamas. Até no mecanismo de dar as notícias percebemos que o mundo não pára e como estamos em permanente desactualização.

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Sábado

por Isabel Paulos, em 14.08.21

Início de tarde dedicada às plantas.

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Primeiro passo: ir ao chinês comprar um vaso de 40cm de diâmetro e com maior altura para que a japoneira possa expandir as raízes, que ocupam todo o espaço actual. Uma vez em casa catar na caixa de ferramentas as duas verrumas da Eca. E perfurar o fundo do vaso.

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Depois preenchê-lo com a terra: em baixo a que estava há mais tempo cá em casa e que não me parece de grande qualidade. Nela vai assentar o cilindro com a japoneira e toda a terra retirada do antigo pote.  Usei o conjunto de cozinha à falta dos utensílios de jardinagem próprios – evitei sempre comprar para não ter mais quinquilharia, mas não vou resistir à tentação de o fazer e acrescentar aqueles jarros bonitos do Ikea.

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Para que a japoneira saísse em bloco com todas as raízes e terra junta, bastou usar o garfo ao longo da parede lateral. Depois de pousada na terra a 1/3, despejei os 11 litros de substracto universal, mas não cobriam integralmente o cilindro. Por isso, abalei novamente e fui ao Continente comprar mais 11 litros, aproveitando para completar alguns vasos fanados.

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Entretanto a antiga japoneira jazia noutro pote, seca que dava dó. Tirei o esqueleto, abri um buraquito e enfiei lá o resto da pequena roseira – daquelas que dá rosas minúsculas e que o Ritz me fez o favor de comer e estragar. A ver vamos se ela vai gostar do ar livre e se vingará.

 

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Aos vencedores

por Isabel Paulos, em 10.08.21

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Aqui ficam alguns postais - há mais, mas tenho preguiça de procurar - que dedico aos vencedores, aos audazes, aos que nasceram ensinados, aos que não têm dúvidas, aos cínicos, aos presumidos, aos que se assumem como exemplo de virtude (sim, sei, também me assumo), aos que desprezam as fragilidades - e aos que o fingem não fazer. Enfim, aos caterpillars que passam pela vida sem nada perceber de essencial, mas apesar disso a tudo e todos assinalam falhas e a tudo e todos pretendem informar, instruir, esclarecer, doutrinar. 

 

Que a vida vos continue a soprar de feição e não vos doa - só assim vos suportará a surfar tanta onda de soberba. Sóis o Sol a Lua, a verdade e a mentira. Sóis tudo e o seu contrário. Ninguém vos pára. 

A nós  - o pó - só nos resta aplaudir: clap, clap, clap. Curvar à passagem e render homenagem a toda essa coragem e grandeza de carácter de pisar nos derrotados. É de homem. É de mulher. Não haja dúvida.

Joan Baez

Let it be

por Isabel Paulos, em 08.08.21

Para tudo há resposta.

There will be no sorrow, let it be.

Metáfora

- actualizado -

por Isabel Paulos, em 05.08.21

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*

Os portugueses de tão habituados ao absurdo da política portuguesa estão anestesiados. É possível que a maioria de nós, face a um paradoxo destes, resolva arranjar um escadote – uma burra – para trepar a casa e assim viver o dia-a-dia.

Aliás, é assim que sobrevivemos: a trepar à burra para conseguir chegar a ter vida no meio deste entulho que nos governa e administra.

A imagem  - e notícia do Observador - é uma metáfora para a vida política portuguesa.

As justificações de que: a) a obra não se encontra concluída, b) as casas não são de habitação permanente, c) são para uso de militares da GNR que têm acesso por um portão lateral, definem com absoluta clareza e exactidão o estado de estupidez natural das desculpas das autoridades públicas a que os portugueses estão bem acostumados e cada dia mais acham normal. Só resta marimbar na realidade, assistir e comentar o futebol para esquecer esta tragédia de país.

Roman Protasevich

Memória recente

por Isabel Paulos, em 02.08.21

A propósito da atleta bielorrussa que pediu asilo, e que parece estar em vias de o vir a obter na Polónia, lembrei-me do caso Roman Protasevich (e Sofia Sapega): depois de preso e torturado foi recambiado para prisão domiciliária, tal como a namorada, face às pressões internacionais – nomeadamente de interdição do espaço aéreo e aeroportos da União Europeia às companhias de aviação da Bielorrússia. Após ter visto uma conta do Twitter cancelada (?) – pergunto-me a razão – tem vindo a responder naquela rede social a perguntas sobre a detenção e as condições da prisão domiciliária começando por negar no início do mês passado ter sido torturado. É um novo mundo, este.

Entretanto, Oleg Galegov, o controlador de tráfego aéreo que deu ordem para que o avião da Ryanair aterrasse na Bielorrússia, cujo testemunho é fundamental, desapareceu do radar, havendo quem considere que abandonou o país e se refugiou no Ocidente.




Ode ao Reencontro - Nuno Guerreiro da Silva

https://www.youtube.com/watch?v=m7W20TII5UA

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14 Agosto 2014