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Saúde para além da Covid-19

por Isabel Paulos, em 05.08.20

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Segundo dados do Público, em Julho último morreram 10.390 pessoas em Portugal. Se consultarmos os dados da Pordata, verificamos que nos últimos três anos em Julho morreram 7.935 (2017), 7.963 (2018) e 8.202 (2019). Pelo que a notícia avançada ontem pelo jornal de que os 10.390 representam um aumento de 26% não só é pertinente, como a situação é ainda mais preocupante se comparada com 2017 e 2018. Só se recuamos a 2013 esmorece esta significativa diferença, e ainda assim nesse ano houve 9.172 mortes.

O facto da Covid-19 representar apenas 1,5% dos óbitos de Julho é elucidativo do desamparo a que os portugueses e demais residentes em Portugal foram votados nos últimos meses em tudo quanto não diga respeito ao coronavírus. Todos nós temos conhecimento de situações de adiamentos e cancelamentos de consultas, tratamentos e cirurgias. Em causa própria ou de familiares e amigos sabemos que, enquanto nos questionávamos se deveríamos ir ou não a tal ou tais consultas no hospital de residência, recebemos chamadas dos médicos que nos consultaram por telefone. E quando perguntávamos quando seria aquela cirurgia, nos respondiam para contar com pelo menos mais meio ou um ano de atraso e, em rigor, para não contar com nada certo, porque isto (o SNS) está de pantanas. Sabemos também que pessoas de saúde frágil tentam marcar consultas nos Centros de Saúde, vendo não só dificultado o agendamento em si, como a consulta ou outro acto médico permanentemente adiado. Algumas sucumbem.

No País onde a população - com a conivência dos profissionais de saúde e auxiliares - recorria e entupia os hospitais por motivos fúteis, passou-se ao extremo contrário de ter medo de lá ir ou tão simplesmente a ser dissuadido de o fazer. O SNS – ao qual gosto sempre de prestar a devida vénia pela regra de qualidade técnica dos médicos e enfermeiros - está igual a si próprio no que diz respeito à gestão e organização: caótico. Tal como o País, onde o maior dos males é a irracionalidade e a desorganização estrutural das instituições e de alguns cidadãos.

Desdém

por Isabel Paulos, em 04.08.20

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Há dias assim: maus. Atravessamos temporadas a observar, respeitar, dar o benefício da dúvida e eis que chega o momento em que acordamos e damos de caras com a realidade ordinária e desprezível do desdém. Entremeada de confrangedores actos falhados de humor. É quase inacreditável ainda haver gente decente a respirar no meio do lodo.

Soberba

por Isabel Paulos, em 03.08.20

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Oiçam. Vou contar um segredo: de manhã escrevi um texto sobre a palermice de se estar sempre a dar conselhos e determinar como os outros devem pensar e agir. Era um texto sobre a pequenez e burrice de se considerar intelectual ou moralmente superior aos outros.

Decidi desistir do texto, para não dar o exemplo.

Boa semana.

Poema épico

por Isabel Paulos, em 02.08.20

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*

X CONTRA XV
[Coimbra, MMXX]
 
FC PORTO CAMPEÃO
FAZ DAS TRIPAS
COROAÇÃO.
 
 
Ricardo Álvaro
 

Sobriedade

por Isabel Paulos, em 02.08.20

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Só uma nota que é devida. Ontem critiquei o ressabiamento na televisão em matéria futebol. Mas não quero deixar de assinalar a diferença que faz uma pessoa educada: hoje, no comentário da SIC, Ribeiro Cristóvão demonstrou uma vez mais ser um Senhor.

José Duarte

por Isabel Paulos, em 02.08.20

Nem sei bem porquê veio-me à memória a imagem de José Duarte, um dos principais responsáveis - senão o principal - por gostar de jazz. Pode parecer que não, mas houve um tempo em que a televisão educava. Acabo de ouvir esta entrevista e divirto-me com o mau feitio próprio de quem leva a sério aquilo de que gosta e se dedica, perdendo a paciência com a mediocridade. 

Costumava ver os programas da RTP2 no início dos anos 90, numa altura que cheguei a ir à Escola de Jazz do Porto. Já em 2001 conheci o Hot Clube, na Praça da Alegria, em Lisboa. Pena que tenham sido momentos tão fugazes.

Sem perceber nada sobre jazz, é o género musical que mais liga os meus neurónios: equilibra-me. Dá-lhes sentido. Há dias em que é uma necessidade. 

Bela noite de Sábado

por Isabel Paulos, em 02.08.20

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A noite corre de feição. Ao contrário do hábito de há vinte ou trinta anos não vi o jogo, de que fui tendo notícias pela reacção alegre e efusiva dos vizinhos. Uma das grandes vantagens de me ter mudado para uma zona mais popular da cidade.

Liguei a televisão ao apito final e mais uma vez vi gente cheia de azia. Tanto faz haver comentadores representantes dos três grandes, como não. Saem esses e ficam os jornalistas da casa que são tão ou mais facciosos e ressabiados do que os que deixaram de aparecer.

No dia que o Porto ganhou o campeonato, face ao portista contente com a vitória, vi duas criaturas cuja linguagem, olhar e postura corporal provavam doses impressionantes de raiva e despeito. Desliguei a televisão ao fim de dez ou quinze minutos.

Hoje já só apareceram jornalistas autóctones. A raiva e o despeito continuam presentes, mas agora dissimulados em análises sobre o jogo que, como de costume, se consubstanciam em falar de tudo quanto pode menorizar a vitória. Desliguei ao fim de cinco minutos. Ainda mais rápido do que no fim do campeonato.

Amanhã já estarão todos a falar no treinador e nas glórias do Benfica ou nas intermináveis trapalhadas e questiúnculas do Sporting. Que sejam muito felizes, amanhã. Hoje o meu portinho ganhou e posso continuar a noite alegre e a ler as Ficções, de Jorge Luís Borges.

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Isto apesar de perceber bastante mais de futebol - que cresci a seguir com atenção, aprender as regras e a apreciar -, do que sobre o sábio e erudito imaginário de Borges. Mas não há como insistir, ler, fuçar e alguma coisa há-de cá chegar, apesar de ter a sensação que para ler este livro, que já me tinha passado pelos olhos duas vezes teria primeiro que cair – como na poção mágica do Obélix -, no caldeirão bibliográfico borgiano, uma fonte inesgotável de força mental.

Vamos ao que interessa: obrigada uma vez mais ao Futebol Clube do Porto - ao treinador e jogadores, à equipa. E com isto passa mais uma buzina estridente. Que se oiçam bem nesta bela noite.

Beijinhos e abraços aos amigos portistas. A taça é nossa. 

Rui Rio no Observador

por Isabel Paulos, em 01.08.20

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O artigo O PS vai dar um Orbán a Portugal?, no qual Rui Ramos faz o que chama uma 'interpretação de uma possibilidade política', é um manifesto de má-fé. E custa ver isto numa pessoa que tantas vezes leio ou oiço com gosto. A tese simplificada: há um bloco eleitoral de dependentes do Estado, que pode naturalmente transferir-se do PS para a direita encabeçada por Rui Rio e André Ventura. Entre a direita reformista do passado e a direita que quer apenas ocupar o Estado - ou seja, clientelista -, Rui Ramos, numa dissertação mais elaborada que quem quiser pode ler, coloca Rui Rio na segunda categoria. Ora, não custa perguntar se o passado de Rui Rio na condução de cargos públicos prenuncia que venha a ser um líder populista sustentado por clientelas. Respondo: não. Antes pelo contrário. Mas isto não interessa nada a quem argumenta com base em ódios e estimas não ancoradas nos factos, mas em preconceitos de gosto.

Gadanha

por Isabel Paulos, em 31.07.20

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Acordaste a divagar sobre as expectativas dos outros. Durante as três horas que entretanto decorreram, dezenas de pequenos apontamentos despontaram no pensamento em forma de instantâneos que reflectem sentimentos tão díspares como mágoas, fúrias, alegrias ou gratidões. Tudo entrecortado por conversa de bom dia, chuveiro, iogurte e café para quem fica, autocarro resvés, fila para comprar o passe do dito, contas-corrente, café sem o qual não sobrevives, mensagens, emails e telefonemas, registo e trocas de informação e pontos de situação. E por isto que se faz sem quase notar que se fez, em vez de três horas já passam  três e meia, e ainda falta o iogurte para quem veio. Hoje é de pêssego, calha bem. E vem-te à memória o comentário desatento de que o grosso disto será automatizado para que o foco esteja no essencial. O sorriso malicioso enche-te a cara - por mania insistes na preferência da palavra cara. Não o vês mas sentes as maças do rosto e dos olhos retesarem: é o sorriso de quem já viu o suficiente para adivinhar que por cada automatização de tarefa com vista à rentabilização, duas outras ou mais tarefas manuais nascerão. Se é saudável almejar o lucro e até profícuo, é preciso que se saiba que a complexidade de daí decorre é exponencial. Às vezes diverte-te constatar como se tenta, na ilusão de simplificar o mundo, esvaziar o mar a balde. Mais um punhado de telefonemas e emails, e quatro horas depois de acordar, assinas o recibo do salário. É fim do mês e tudo te faz igual a uma multidão anónima de gente que deambula pelo mundo e tão simplesmente: precisa. Há quem diga que isto não é vida. Que é mera sobrevivência. Há quem defenda e sonhe com unhas e dentes grandes vidas carregadas de sentidos profundos e universais. Quando o sentido da vida pode estar numa conta-corrente ou num iogurte de pêssego comido numa manhã em que se acorda pronta a dizer que não se é, não se pode ser, nem se quer ser uma sombra da projecção dos anseios dos outros. E sem ter planeado dá por si a fazer o diário de um dia banal, de modo espontâneo, deixando que a realidade transcorra, pronta a ser pintada.

Afinal qual era a imagem logo cedo? Talvez o desenho de uma caminheira de varapau ao ombro, na ponta do qual o saco de sarapilheira - ou de linho, talvez de linho -, traz tudo quanto é preciso, para além do caminho e da vontade de caminhar. Era mais ou menos esta a ideia e logo decidiste que não a ias elaborar mas tão só mencionar. Se fosses mais capaz, farias uma metáfora em forma de fábula. Mostrarias a vagabunda, quase sempre só, percorrendo vales, rios e montanhas, e as conversas ao longo do périplo. À cabeça há sempre quem te diga que jamais conseguirás transpor a montanha ou cruzar o rio. Pois que essa história é reservada a predestinados. Devias contentar-te com as doçuras calmas do vale. E deixar esses devaneios destinados a almas mais bafejadas pelo talento, inteligência e coragem. Entretanto chega email da empresa de condomínio e a notícia de que o total da conta extraordinária será dividida em doze parcelas. Tanto melhor, concordas. Voltas à penúltima frase. Esses ditos da vida inteira - que visam proteger-te e por isso mesmo e apesar de te zangares, agradeces -, já infiltrados na carne e no miolo ajudam a fazer duvidar a cada instante do que és e do que és capaz. E no vale deixas-te dormir; também é preciso descanso. Até pegar no varapau e na trouxa para novamente percorrer mais umas léguas. Passas mais um ou outro rio e uma montanha e perdes a noção de quantos já foram sem que no vale reparem que há muito deixaste aquelas paragens – se é que alguma vez lá estiveste inteira – onde sempre voltas em sono sonâmbulo de modo a que não dêem pela tua falta. É preciso criar a ilusão de normalidade, é preciso um módico de apego, até na andarilha de pensamento. Agora passaram cinco horas e é preciso voltar a casa para almoçar. No regresso, mais expectativas virão.

Foste a casa e no caminho voltaste a ler o email do condomínio. Reparaste que aos nomes dos condóminos se seguia um parêntesis com o chamadoiro, dividido entre sr(a) e dr(a); a ti calhou o sra. Sorriste uma vez mais enquanto calcorreavas o caminho e congeminavas que o ar de gorda desligada, de jeans e sapatilhas quase 365 dias por ano tem os seus custos reputacionais. Já muito perto de casa, entraste na padaria e ao teu boa tarde, respondem-te com o habitual e simpático cumprimento, mas seguido de: desculpe, trabalha no hospital Santo António? Não te ocorreu responder na qualidade de Margarida e dizer que talvez sim. À tua resposta negativa, acrescentaram: é que fui lá na semana passada e há uma doutora que é mesmo muito parecida consigo. Reafirmaste que não eras tu e pensaste: lá se foi a tese das sapatilhas por água abaixo – além do que ainda dá uma camoeca a algum possidónio da exclusividade dos ténis. E afinal, na empresa de condomínio nunca te viram a fuça, talvez aqueles sejam parêntesis a pedido. Ris e constatas que se é certo que dispensas o dra, não desmentes que preferirias o senhora dona; o peso das ironias familiares não deixa de se abater sobre ti. E volvidas estas menoridades que não se confessam senão na intimidade e por isso exibes no blog, eis que preparas o almoço entre um chorrilho de palavrões, por qualquer coisa não ter funcionado. Dás por ti a pensar na repulsa que sentes por gente que contigo se cruza na rua a praguejar em vernáculo. Vês-te nesses preparos no meio da cozinha e entre muitos cês, pês e efes, olhas para os teus braços para confirmar se não tens tatuadas cobras, borboletas e nomes de entes queridos, nem chanatos de enfiar o dedo nos pés. Certificas-te que estás limpa de tais adereços e pedes desculpa a quem ouve os destemperos com generosa e divertida compreensão. Almoças com ele e decidem antecipar um encargo mensal que se iria prolongar por mais um ano, para poder fazer face ao novo encargo. O lema é sempre: se é para doer, que doa já, e o desafogo virá depois.

Voltas ao local de trabalho e pelo caminho confirmas no telemóvel que a palavra de conforto enviada ontem a quem perdeu alguém próximo chegou aos destinatários. Dás uma vista de olhos pelos blogs habituais, hoje sem particular atenção. Não chegas a ler os jornais. Voltas à metáfora para notar que há quem pelo caminho fale de gentes, pedras e paus para lá dos outros vales, montanhas e rios. Explicam-te como são belas ou feias, malignas ou benignas e dizem-te que devias escutá-las e com elas aprender a ser gente também. Acenas que sim, e perguntas-te presunçosa - mas apenas em pensamento, não vás ofender alguém -, se estarão a referir-se às pessoas, pedras e paus com quem treinas o jogo do galo desde criança. Em cada poiso, em cada degrau, tiras o varapau do ombro e, enquanto dás dois dedos de conversa, com ele riscas no chão dois traços na vertical, dois na horizontal, e independentemente de quem comece, quase sempre ganhas em perder antes de seguir caminho. E esse vício entranhado cobre-te da invicta carapaça da derrota. Talvez por isso, de quando a quando, apareça no caminho quem estranhando o paradoxo, não enjeite os teus sonhos, antes pelo contrário, os incentive. Sucede que não raro, o encantamento pouco dura. Na maioria das vezes não por responsabilidade de quem te motiva – e a quem és grata – mas por não saberes ceder ao natural desejo de te encaixarem num qualquer modelo de comportamento expectável. Advinhas sugestões sensatas e reprovações legítimas, mas encontras sempre um sem-número de equívocos que esbarram na ideia basilar de por vontade e natureza nunca seres aquilo que os outros de si em ti projectam. Nunca ficarás aquém nem além do que és.

Com tudo isto passaram dez horas desde que acordaste e falta uma para voltares a casa. Reparas que o rádio esteve ligado todo o dia ou não se tratasse de uma jornada normal. A meio da tarde um café descontraído de dez minutos, e uma conversa que envolve pequenas fantasias feitas realidade menos idílica de limoeiro, erva, relva e gadanha. Palratório que só entende quem contigo convive desde que nasceste. É sexta-feira e felizmente na tarde deste dia há menos gente a querer resolver assuntos inadiáveis. O telefone esteve mais sossegado, o que permitiu acabar de escrever este texto, que vais deixar para corrigir e publicar depois de jantar. É fim-de-semana e isso é o que mais interessa.

A reacção (2)

por Isabel Paulos, em 30.07.20

Não sei se me comova com a excitação que certamente despontará (já vi laivos) nas redes sociais com a frase de Rui Rio sobre a eventual convergência do PSD e do Chega. Para quem percebeu há trinta anos que vive num País com uma população de vigorosa maioria formatada no ideário socialista quando não comunista, ainda que por distracção ou conveniência vote em partidos como o PSD ou o CDS, esta exaltação não espanta. Resta saber se a lengalenga que resulta da lavagem cerebral feita nas últimas décadas aos portugueses vai continuar ou parte deles terão a coragem de mostrar o reverso da medalha sem pudores – e sem falsidades, porque o que mais há é reaccionários disfarçados de democratas -, que servem sobretudo os interesses instalados.

Para não me repetir, deixo em seguida texto escrito no mês passado.


A reacção

por Isabel Paulos, em 22.06.20
 

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Nenhuma simpatia me anima na figura de André Ventura e no Chega, mas não posso deixar de ver a sua existência e quiçá o crescimento como uma espécie de desforra da agenda dominante da elite política nacional e da comunicação social. Dos quarenta e seis anos de discurso benevolente com o marxismo-leninismo do Partido Comunista e vinte anos de apoio descarado ao ideário marxista-trotskista do Bloco de Esquerda.

Nas últimas décadas raramente o discurso preponderante nos jornais e na intelectualidade pôs em causa o extremismo ou radicalismo destes partidos. O facto do PCP recusar sistematicamente a demarcar-se dos regimes opressivos da Coreia do Norte, de Cuba ou da Venezuela foi visto como faits divers para preencher espaços humorísticos ou de curiosidades dos jornais. Nem o acesso privilegiado - o lobby - de militantes e simpatizantes do PCP a lugares e cargos na função pública alguma vez foi escrutinado. Pelo contrário, era promovido e amiúde elogiado, sobretudo nos meios culturais. Vícios que o Bloco de Esquerda também aprendeu a enfermar ou a matriz não estivesse tão próxima, apesar das pirraças e derivações ideológicas. Realidades nunca expostas na prosa dominante da comunicação social. A mesma que também não consegue perceber e denunciar a leviandade com que o Bloco de Esquerda aborda a economia, desprezando os seus principais agentes – trabalhadores, empresários e empresas – reduzindo-a à figura paternal do Estado Providência que amealha e distribui rendimento - dinheiro, essa massa abstracta e etérea que ora nasce na árvore das patacas ora tem origem na malvadez de medonhos capitalistas – e dos cidadãos beneficiários de protecção.  

Ainda bem que esta afinidade - da comunicação social e dos meios intelectuais e académicos com voz no País -, aos partidos mais à esquerda tornou a coabitação em democracia possível. Distanciou-os da imagem original de radicais esquerdistas, elevando-os à categoria de partidos do sistema, até ao ponto de, em 2015, passarem a fazer parte da solução governativa – com um pé dentro e outro fora, no melhor dos mundos.

Agora não estrebuchem quando da outra ponta do arco político aparece um partido radical de direita. É a vida. Para uma acção há sempre uma reacção. E o Chega, mais do que uma manifestação tardia da onda das novas direitas radicais europeias, é uma reacção ao desequilíbrio existente no País há quarenta e seis anos, que (apenas) se tornou evidente em 2015.

Os últimos cinco anos impuseram uma mudança. A partir do momento em que a esquerda radical deixou de apenas pesar na sociedade civil, passando a ter peso na acção legislativa e nas decisões governativas, impondo uma agenda identitária e de maior centralização dos poderes do estado, deixou de ser possível à direita fazer de conta que não via, como fez nas últimas décadas.

Mesmo os jornais conotados com a direita – e não me venham com a treta que não existe esquerda ou direita ou que é esta é uma visão redutora, porque se há coisa que os últimos meses têm mostrado à saciedade é que a dicotomia não é uma abstracção e que o excesso de preciosismo terminológico e semântico tem como efeito útil único não se dizer o essencial e o inteligível para a maioria das pessoas – como, no passado, n' Independente entretiveram-se sempre mais a destruir a direita do que a denunciar os vícios da esquerda. Uma espécie de temor reverencial às conquistas de Abril e o medo de ser rotulado de salazarista ou fascista fez com que muitos seres pensantes do burgo fechassem os olhos ao laxismo, à incompetência e a amiguismo socialista, ao mesmo tempo que não perdoavam qualquer demonstração de falta de estofo intelectual e ou de etiqueta a Cavaco Silva. Nem, claro, de qualquer erro na acção governativa. Tivéssemos nós uma imprensa com o mesmo vigor e rigor ao questionar a acção dos governos socialistas e das iniciativas dos partidos mais à esquerda e estaria bastante mais sossegada.

Não questiono a necessidade de investigação de todo o acto governativo, das suas razões e das suas consequências. Este escrutínio faz parte dos alicerces da nossa democracia. É sempre saudável ver uma comunicação social atenta à corrupção, aos erros e incongruências na governação. O que não posso aceitar nem justificar é que essa especial atenção seja muito mais branda e cúmplice quando vai na direcção dos partidos mais à esquerda, que haja maior pudor quando os visados são socialistas, comunistas e bloquistas (e queridos animalistas, claro).

Por tudo isto não deixa de ser com ironia que leio a doce entrevista sobre o Chega a Riccardo Marchi, publicada no Observador. Uma entrevista na qual o autor demarca o partido da velha direita radical ideológica – dos fantasmas do fascismo e do nacionalismo - e na qual refuta quase todas as críticas pesadas que são feitas ao Chega. Mas, sobretudo, em que define o novo partido como um partido reformista e perfeitamente enquadrável no regime democrático. Nem por encomenda André Ventura podia pedir mais. Os ventos, por agora, sopram favoráveis. Imagino quanto espuma a esquerda ao ler uma entrevista assim.

Seria bom que no PSD lessem a dita entrevista e começassem a dar corda aos sapatos, que se faz tarde. Digo isto com a maior das franquezas, até porque gostaria muito de ter razões para votar no PSD nas próximas eleições legislativas.

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Provocação

por Isabel Paulos, em 30.07.20

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«O civismo é simplesmente o medo agudo da opinião dos outros.» Fernando Pessoa.

Guerras, Contas & Bichas de chuveiro

por Isabel Paulos, em 28.07.20

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Hoje pela fresca tinha planeado escrever sobre o efeito anestésico da Covid-19 no mundo presente. Por sentir que os conflitos armados, as migrações, a seca, a fome e demais questões de relevo humanitário saíram do radar dos sound bites ou realidade paralela em que vivemos, comecei por procurar informação sobre os conflitos armados em curso. Não é fácil. Se fossemos avaliar a existência destas realidades pelo peso que lhes é dado, diríamos que o vírus as debelou. Ou pelo menos parece que o tempo presente ficou suspenso com a pandemia.

Em vez de horas a fio de dissecação sobre os estados de espírito de Trump e dos seus apoiantes, quem repara nas bandas de Caxemira, onde ao fim de quarenta anos de conflito e reivindicações territoriais entre a China e a Índia sem registo de mortos, na Linha do Controlo Real, há pouco mais de um mês havia combate corpo a corpo com mortos, no vale de Galwan, em Ladakh?

Em vez das extenuantes horas dedicadas à contabilização do número de bifes que deixam de pastar na areia das praias portuguesas e espanholas, quantos pensam no terror que se vive no Norte de Moçambique, onde os terroristas islâmicos continuam a executar e decapitar populares dos territórios que vão ocupando? Os ataques não ocorreram há anos, estão a decorrer nos últimos meses.

Ao invés da nova modalidade desportiva que consiste em ilustrar demorada, minuciosa e diariamente a patente debilidade de Bolsonaro, quem dá atenção à militarização do mar do sul da China; à exibição de poderio militar e medir de forças entre Estados Unidos e China?

Ia passar ao tema das migrações, mas recebi emails da empresa que faz a gestão de condomínio do prédio onde vivo: 3.050,33 euros de despesas extras com reparação do elevador e obras gerais. Ponho logo os patas no chão, ciente que esta é que é a minha guerra. Lá para Setembro, quando tiver férias, terei muito tempo para voltar a debruçar sobre as desgraças do mundo, já que agora é certo que nada de veleidades com viagens ou mesmo escapadelas de três ou quatro dias. Vou ter imenso tempo nas duas magníficas semanas de repouso no resort cá de casa, com banhos de sol na pequena varanda e mergulhos no jacuzzi natural proporcionado pelas fissuras das bichas do chuveiro do chinês de primorosa qualidade (da próxima tenho que voltar a uma tradicional drogaria, caso contrário continuarei a trocá-las à média de duas por ano). E, claro, vou ter a oportunidade recreativa de constatar que todas as poupanças do ano foram à viola. E ainda dar largas à criatividade para ver como reponho o rombo. Só vantagens como se pode imaginar.

Tudo isto acontece três dias depois de ter posto em consideração uma oportunidade profissional (real e palpável, ao contrário das habituais), que implicaria mudar de cidade, tendo-me decidido manter tudo como está face à constatação de que um pouco mais do dobro do meu salário actual não compensaria a mudança. Nem a paz que o Porto me dá, apesar dos pesares.

Irritações

por Isabel Paulos, em 27.07.20

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Ainda na rubrica das coisas que bolem com o sistema nervoso de possidónia, não pode escapar o ‘deve de ser’. E ‘deve de ser’ por isso que cada vez menos apetece ver televisão. Só não sei se irrita mais quando dito por apresentadores de televisão se por actores e actrizes de telenovelas e séries quando sentados à mesa de jantar gesticulam efusivamente o talher, no qual pegam de punho cerrado como segurassem numa pá de cimento. Deixa de ser irritante para ser especialmente divertido quando estão a tentar interpretar papéis de gente supostamente educada.

A ciência da treta

por Isabel Paulos, em 23.07.20

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Registo que agora quando alguém tem um discurso ou prática criminosa ou tão só não condicente com a cartilha dominante fica, de imediato, sob o libelo da doença ou perturbação mental. Hoje são as donas dos canis, há um par de anos uma dirigente de extrema-direita, são os presidentes de dois países das Américas, os militares, as polícias, os pais, professores mais duros ou qualquer pessoa que seja reaccionária ou simplesmente severa.

Nalguns casos há razões válidas e há epítetos bem aplicados, mas em muitas outras não. E é um perigo dar aparente cientificidade ao puro enxovalho popular, através de testemunhos de psicólogos que não fazem mais do que colorir de linguagem técnica a doutrinação ideológica. Vejo pseudo-notícias ou reportagens, notoriamente encomendadas, com avaliações psicológicas que só não se dão ao trabalho de se debruçar sobre o carácter tóxico dos participantes das marchas de justiça popular das unhas de gel berrantes ou da pichagem.

O resultado prático destas balelas é não discutir o que realmente interessa, não perceber a causa das coisas e tão simplesmente fazer o mais fácil: rotular arbitrariamente e em função das modas e apetites ideológicos momentâneos.

E estamos nisto: no psico-jornalismo ideológico.

Colinho

por Isabel Paulos, em 21.07.20

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Ter mau feitio dá para isto. Para me encanitar com algumas situações e pessoas. A mais recente urticária é com a aparição diária de Fernando Medina nos jornais. Se repararem todos os dias o menino aparece como Nossa Senhora de Fátima aos pastorinhos, que somos quase todos nós prontos a levar com o quotidiano estado de espírito do Presidente da Câmara de Lisboa. Hoje é para se congratular com o acordo de Bruxelas e gracejar sobre os forretas. Noutros dias é para defender o Governo ou a acção do município e mais um vislumbrar de grandes oportunidades na Covid-19, agora em sede de habitação. Ou para apelar a que se despachem com a decisão sobre o aeroporto do Montijo, ou se atirar às más chefias no combate à pandemia.

Todas as oportunidades de figurar são aproveitadas. Pois que o menino estudou o bê à bá da esgrima política e segue a cartilha ipsis verbis. Sem um desalinho, com vocação e disciplina digna de escuteiro. E com a ajuda dos jornais vai impor a sua agenda: o cânone do politicamente correcto. Até porque tendo sido baptizado, no ano passado, no Bilderberg acha que as suas aspirações são mais do que legítimas. E, por ele, daqui a uns anos Portugal estará transformado no recreio de berçário com as ruas e estradas cor-de-rosa para as meninas, azulinhas para os meninos e verdinhas para os assim-assim. E nós estaremos todos a dizer gugu dá dá.

Está para chegar o dia em que os jornais levem ao colo um futuro líder nacional que defenda ideias de responsabilidade na cidadania e de efectiva racionalização na utilização dos recursos financeiros (além dos naturais). Gente que diga coisas desagradáveis, mas que ajude a fazer do País uma Nação decente e mais autónoma. Bem, pensando melhor, tenho uma vaga memória do Diário de Notícias ter feito este papel no passado com Pedro Passos Coelho. De facto defendia algumas ideias certas e era desagradável q.b., pena que trouxesse atrelada gente oportunista e gente capaz de debitar de cor teorias económicas sem conhecer nem querer conhecer a realidade do País, por não ter um pingo de sensibilidade social.

*

Nota. Para que não pensem que só sei dizer mal. Ontem gostei da peça que a SIC mostrou no Jornal da Noite sobre o estado de avanço na procura de vacinas para a Covid-19.

Stalkers à portuguesa

por Isabel Paulos, em 20.07.20

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Em certas situações os portugueses são verdadeiramente pífios. Abrimos as páginas sobre bisbilhotices dos famosos e vemos beldades de Hollywood a queixarem-se de ser perseguidas por fãs. Malucos obsessivos anónimos que são inoportunos, vasculham as suas vidas, quebram a reserva da intimidade, chegando a ser agressivos.

E, em Portugal, o que se passa?

Por cá, ora são personalidades públicas desinteressantes, que debaixo da máscara do anonimato virtual, usam e abusam em proveito próprio da confiança dos transeuntes das vias online. Ora são anónimos e anónimas sem um pingo de glamour a queixarem-se - numa tentativa ridícula de se enaltecer -, de alegados stalkers.

*

Boa semana.

Absurdos

por Isabel Paulos, em 19.07.20

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Depois de semanas de uso do termo ‘isolamento social’ temos a novidade da ‘ordem de confinamento voluntário’ em Espanha. E, pelo caminho, ontem ouvi um repórter (cuja voz conheço há anos na televisão) a usar a expressão ‘regra dos três simples’. Levantei a orelha como os cães, encantada por ouvir um jornalista referir-se à dita. Pena que tenha desenvolvido a ideia como sendo uma simples soma de três parcelas. Chego à conclusão que, afinal, a outra é a regra dos três complicados.

Só vos digo uma coisa: o mundo está bom é para os humoristas.

Degelo da distância

por Isabel Paulos, em 19.07.20

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Ignora a estranheza e a presunção. Desvaloriza cómodas sentenças. Não sabem do que falam. A aparência é como um círculo vicioso e falacioso. Demoraria uma infinidade de vidas a explicar o que és e que és como eles. Não se chega a ninguém pela razão; é um esforço em vão. Só a emoção é capaz de fazer a ponte entre seres humanos anulando o infundado preconceito.

Por importante que seja, não se faz o degelo da distância pelo raciocínio lógico, mas pela empatia.

Irritações

por Isabel Paulos, em 17.07.20

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À espera de ataques apinhados de pontos de exclamação e reticências de gente muito ofendida com a minha mania - no lugar dos sensíveis atiraria já com um ‘possidónia’ -, revelo a minha segunda irritação: ‘falar para’ em vez de ‘falar com’ é das coisas mais rascas que leio e oiço.

Aprendam: é assim que se ganha amigos a rodos. 

Portinho

por Isabel Paulos, em 15.07.20

Sinto-me uma adepta de segunda por só hoje me manifestar portista nas Comezinhas. Mas não resisto. Obrigada por mais esta alegria, dragões.  

E obrigada à Sapo Blogs pelo Ennio Morricone. 




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