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A ofensa

por Isabel Paulos, em 10.01.21

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Sabes que te perdes em abstracções e, em muitos casos, pecas por falta de nomear os problemas reais. Foges consciente das abordagens usuais que ocupam os jornais e as páginas virtuais. Não tomas para ti a todo o tempo, como é timbre dos utilizadores dos espaços de opinião, o papel de escrutinadora dos poderes fácticos e de defensora das verdades do momento. Não o fazes quer por falta de talento quer por ausência de vontade. Não é esse o papel que desempenhas - presunçosa e pouco dada à falsidade reconheces que o tens, mas cada macaco no seu galho e o teu quer-se recolhido

Muitas vezes referiste a aversão aos ditos e actos de superioridade e desrespeito pelos outros – possivelmente uma das ideias que mais te consome a vida, ao longo da qual te foi dito ou feito sentir diversas vezes que acusavas o toque com demasiada facilidade. Em tua defesa, esclareces que nunca serás imune à falta se sensibilidade e há muito te deixaram de impressionar os exemplos do domínio pela força gratuita ainda que dissimulada em palavras buriladas.

O que a muitos parece opinião, a ti afigura-se como ofensa. E não é por falta de consciência dos benefícios da liberdade de expressão e da democracia, nem sequer no plano mais mundano por falta de hábito de debate – cresceste e amadureceste a discutir e a defender com vigor o que acreditas. Felizmente, cresceste e amadureceste a ser contrariada, criticada, ridicularizada e nada disso te incomoda por aí além.

Sucede que cedo tomaste consciência, apesar da controvérsia e ironia te serem muito chegadas, que o hábito do debate não é um valor benigno per si, tal como o humor não é um valor benigno per si. Ao contrário do que é aceite como ideia unanime – e quanta unanimidade fictícia existe no presente – a livre opinião e o humor não são inócuas. São das mais perfeitas armas de combate e tanto servem na defesa dos mais nobres tesouros, como para saquear o adversário ou o próximo dos seus valores e potencialidades, tudo dependendo do coração e cabeça de quem peleja.

Dizes isto ciente que não há civilização ideal sem livre opinião nem humor, a menos que se tome a ignorância e a escravidão como um mal necessário. Mas também consciente, e aqui é que dói à maioria que perora de forma vã sobre democracia e tolerância, que a opinião e o humor para serem livres têm de ser universais. Não podem servir apenas as coutadas que se impõem não pela razão justa, mas pela força mediática em torno de mesquinhos interesses de cada tribo e que mantém o País manta de retalho de pequenas e grandes corrupções, conveniências, apetites e futilidades, incapaz de se sujeitar à justa autoridade dos princípios.    

Um país que festeja impante a liberdade todos os anos, mantém parte substancial da sua população a sobreviver de salários miseráveis e ambições pífias. Os estratos superiores da pirâmide social – hoje aferidos pelos recursos económicos e pela imagem -, egoístas e mesquinhos vão contando hipocritamente a anedota do elevador social. Na verdade, precisam da desigualdade como pão para a boca. Não só no sentido material da coisa, porque as desigualdades de rendimento são efectivas e gritantes, mas no sentido cultural também. O seu relevo na sociedade depende da sobrevivência de uma maioria pobre, inculta e resignada. E por isso se assustam tanto com os radicais.

Um país onde tudo se compara e a inveja é rainha, onde ser alguém significa possuir no mínimo o quadruplo rendimento dos seus administrados, onde assim que se chega a um patamar económico confortável se tenta mimetizar a etiqueta tradicional para impressionar a maioria dos portugueses que a desdenha, e se lê livros cujo léxico e conteúdo não é acessível nem inteligível à maioria da população. Um país onde a classe média é apenas remediada e onde muito poucos têm muitíssimo, quantas vezes à custa de negócios espúrios e da exploração dos impostos pagos por essa mesma classe média. Um país onde a grande corrupção não pode ser definitivamente repudiada por falta de legitimidade de parte substancial da população habituada a praticar ou consentir a pequena trapaça.

Um país que prefere continuar as bravatas contra a direita populista ou a esquerda radical, em vez de se unir em favor do justo, aceitando como boas quando razoáveis e merecidas as ideias de uns e de outros. Apesar da consciência de que são usadas apenas como pretexto para hastear bandeiras populistas, correspondem muitas vezes a anseios justos da população, que são a todo o momento desdenhadas e espezinhadas nos textos dos jornais e espaços de debate das mais respeitáveis figuras da opinião. E aqui está a ofensa que ninguém quer ver, mas existe, é real e magoa. Podem desmontar estes argumentos indo buscar os clássicos e os oitocentistas – que como as estatísticas dão para todas as leituras, para provar tudo e o seu contrário -, podem tentar colar-te o rótulo de lírica, ingénua ou ressentida. Tu sabes e eles também que estás a dizer a verdade que não lhes convém.

Não te cansarás de o dizer, ainda que só. É preciso ouvir a voz da população descontente, não só a que vota nesses partidos radicais, mas sobretudo a zangada que não vota há anos. Há que deixar de falsas declarações de pesar pela abstenção a cada eleição, retirar o peso da fúria e tirar espaço ao oportunismo. Não é normalizar, como dizem os desatentos ou desleais que se acham superiores aos seus compatriotas, até porque normalizada está ela, por enquanto mais pelo silêncio do que pelo reivindicação - até quando? É preciso esvaziá-la do que tem de maligno – a fúria da tirania, peneirando as razões válidas de descontentamento uma a uma. Trazê-las para o espaço moderado.  

Antes se ridicularizassem as elites - as antigas e as recém ascendidas -, que fingem pelejar pela justiça e democracia quando tudo quanto fazem é falar em pobreza ao mesmo tempo que recusam acesso a melhores salários e rendimentos, e sempre arranjam bons e liberalíssimos argumentos como a falta de produtividade. Pena que não usem igual raciocínio em causa própria. Enchem a boca para falar em educação e da necessidade de mais leitura, mas pouco lhes dá mais prazer e ser do que olhar cima da burra para os boçais e ignorantes. Se fosse a justiça e a democracia que os preocupasse não se dedicariam tanto tempo a desprezar os compatriotas, menorizando-os e achincalhando-os. Estariam a dar exemplo. Não sentiram desdém pela pobreza e ignorância. Estariam, sem disso se gabar em proveito próprio, a educar e regozijar cada vez que alguém passasse a viver em melhores condições. A alegrar-se cada vez que alguém se sentisse respeitado e percebesse o significado de democracia e liberdade na pele.

Não te venham com histórias da carochinha da defesa da democracia. Não é a ideia de que o poder está nas mãos do povo e no proveito dele que vês defender, apenas os interesses mesquinhos de tribos mais ou menos trapaceiras. E desta forma não há País, nem autoridade, nem Nação. Somos coisa nenhuma.

 

Anestesia da aldrabice

por Isabel Paulos, em 16.06.20

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Quando há duas semanas brincámos com o destino da bazuca não andávamos longe da realidade. Como se pode ver aqui e ali. Posso imaginar quantos argumentos válidos e humanitários me dariam os lúcidos para obrigar o Estado a vergar desta forma. São as mesmas razões usadas nas últimas décadas de prejuízos astronómicos da TAP, da RTP e outras. São as mesmas obrigações nascidas de contratos leoninos dos Novos Bancos. Não é difícil ser bruxo neste País. É tudo tão previsível, que dói. Dói porque não seria preciso muito para fazer diferente. Até conseguimos adivinhar com dez ou vinte anos de antecedência quem irá para a cadeia. A corrupção e o crime têm um cheiro nauseabundo e só quem já perdeu a sensibilidade do olfacto vive bem em silêncio conivente. Há sempre alguém que alerta, há sempre alguém que denuncia o fedor. Mas os processos judiciais chegam – e sabemos o quão demorados são – tarde e depois do mal estar feito. Sei que a ordem natural da Justiça impõe que primeiro haja crime para que exista processo. Mas os tempos da nossa Justiça inviabilizam-na. De qualquer modo, depois do sistema judicial ter dado – apesar de tudo – sinais positivos de estar atento aos crimes contra o bem público seria preciso que a população obrigasse quem está em situação de poder fazer a diferença, a fizesse de facto. E quem pode fazer a diferença é, em primeira linha, a classe política.

O drama é que a população, fingindo-se cansada, não só não é exigente com os políticos como eleva sistematicamente o laxismo a grande timoneiro da Nação. Era escusado o número do ‘os políticos são todos iguais’ e do ‘o que eles querem é poleiro para roubar’. O zurzir inconsequente da populaça através destas pérolas tem um único efeito: anestesiar e normalizar o laxismo e a corrupção no País. No fundo, os portugueses que vociferam contra o políticos aldrabões, revêem-se neles quando estacionam o carro em segunda e terceira fila em cima de uma paragem de autocarro ou de uma rampa de garagem ou declaram valor inferior em escritura de compra e venda de imóvel para se furtarem ao imposto correspondente. O zurzir inconsequente serve unicamente de eterna desculpa para ser trapaceiro. No fundo, a maioria dos portugueses que brada contra as contas da electricidade, não rejeitaria um alto cargo de gestor de uma eléctrica, se fosse capaz de vergar o Estado aos seus interesses particulares e tivesse direito a uma boa poltrona para ver o Benfica ganhar campeonatos. Por ser um País cheio de trapaceiros, Portugal tem os políticos que merece.

Faroeste

por Isabel Paulos, em 07.05.20

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O País está de pantanas. Os mais velhos trepam pelas paredes, fartos do zelo com a sua saúde. Os que não tinham vínculo laboral que os protegesse socorrem-se das instituições de solidariedade. Parte substancial das empresas está a colapsar, parte substancial dos trabalhadores está em casa. Os que trabalham estão cansados.

Muitos recebem ou receberão ajudas do Estado, ou seja, dos contribuintes portugueses. E os pistoleiros com que se preocupam? Com a justeza das medidas na distribuição dos apoios? Com eventuais desvios, imoralidades e ilegalidades? Com a forma de conseguir os meios para pagar esta injustíssima conta? Que não é por ser injusta que desaparece. Não, claro que não. Isso seria demasiado óbvio, coisa de quem tem têmpera de país do Norte. Essa gente quadrada que não tem acesso às temperaturas amenas do Mediterrâneo e às suas múltiplas sensibilidades. Gente que gosta de regras e as respeita. Que não vai na conversa mole e no engodo dos três mil quatrocentos e um pontos de vista de uma lei, ideia ou sentimento. Gente de pão pão, queijo queijo. Não, claro que não. Isso seria um horror.

Há assuntos muito mais prementes a tratar. Medir quantas vezes o vizinho de lado sai à rua, se a pessoa da fila da frente no supermercado põe a mão na máscara ou a desce um pouco para poder respirar. Acusar os perigosos compradores de comida online de afirmarem ou mostrarem que comem o que, como é sabido só deve ser feito presencialmente em bons e caros restaurantes de amigos. Culpar outros de insensibilidade social quando se manifestam bem-dispostos e contam piadas. Chamar imbecil a quem se queixe de abalo psicológico. Responsabilizar pessoas que trabalham por não terem ficado desempregadas e desempregadas por se passearem nas marginais. Enfim, todos os dias há uma novidade no rol de comportamentos inadequados. O enorme Índex de matérias sérias e graves a compilar e castigar antes que os cowboys mais rápidos do Oeste abram os olhos e vejam o lodaçal em que estamos atolados e do qual precisamos sair com esforço. De preferência, sem a costumeira lábia de quem paira acima da realidade sem nunca se deixar tocar por ela.




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