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Poema em Linha Recta

por Isabel Paulos, em 30.04.21

 

*

Poema em Linha Recta

Nunca conheci quem tivesse levado porrada.
Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.

E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil,
Eu tantas vezes irrespondivelmente parasita,
Indesculpavelmente sujo,
Eu, que tantas vezes não tenho tido paciência para tomar banho,
Eu, que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo,
Que tenho enrolado os pés publicamente nos tapetes das etiquetas,
Que tenho sido grotesco, mesquinho, submisso e arrogante,
Que tenho sofrido enxovalhos e calado,
Que quando não tenho calado, tenho sido mais ridículo ainda;
Eu, que tenho sido cómico às criadas de hotel,
Eu, que tenho sentido o piscar de olhos dos moços de fretes,
Eu, que tenho feito vergonhas financeiras, pedido emprestado sem pagar,
Eu, que, quando a hora do soco surgiu, me tenho agachado,
Para fora da possibilidade do soco;
Eu, que tenho sofrido a angústia das pequenas coisas ridículas,
Eu verifico que não tenho par nisto tudo neste mundo.
 
Toda a gente que eu conheço e que fala comigo
Nunca teve um acto ridículo, nunca sofreu enxovalho,
Nunca foi senão príncipe — todos eles príncipes — na vida...
 
Quem me dera ouvir de alguém a voz humana
Que confessasse não um pecado, mas uma infâmia;
Que contasse, não uma violência, mas uma cobardia!
Não, são todos o Ideal, se os oiço e me falam.
Quem há neste largo mundo que me confesse que uma vez foi vil?
Ó príncipes, meus irmãos,
 
Arre, estou farto de semideuses!
Onde é que há gente no mundo?
 
Então sou só eu que é vil e erróneo nesta terra?
 
Poderão as mulheres não os terem amado,
Podem ter sido traídos — mas ridículos nunca!
E eu, que tenho sido ridículo sem ter sido traído,
Como posso eu falar com os meus superiores sem titubear?
Eu, que tenho sido vil, literalmente vil,
Vil no sentido mesquinho e infame da vileza.
 

Álvaro de Campos

 

Bom Domingo.

por Isabel Paulos, em 01.11.20

 

Armário

Eu queria, senhora, ser o seu armário 
e guardar os seus tesouros como um corsário 
Que coisa louca: ser seu guarda-roupa! 
Alguma coisa sólida circunspecta 
e pesada nessa sua vida tão estabanada.
Um amigo de lei (de que madeira eu não sei)
Um sentinela do seu leito com todo o respeito.
Ah, ter gavetinhas para suas argolinhas
Ter um vão para seu camisolão e sentir o seu cheiro, senhora, o dia inteiro
Meus nichos como bichos engoliriam suas meias-calças,
seus soutiens sem alças, e tirariam
nacos dos seus casacos,
E no meu chão,como trufas, as suas pantufas...
Seus echarpes, seus jeans, seus longos e afins 
Seus trastes e contrastes.
Aquele vestido com asa e aquele de andar em casa.
Um turbante antigo. Um pulôver amigo. Bonecas de pano. 
Um brinco cigano.Um chapéu de aba larga.
Um isqueiro sem carga.Suéteres de lã e um estranho astracã. 
Ah, vê-la se vendo no meu espelho, correndo.
Puxando, sem dores, os meus puxadores.
Mexendo com o meu interior à procura de um pregador. 
Desarrumando meu ser por um prêt-à-porter...
Ser o seu segredo,senhora, e o seu medo.
E sufocar com agravantes todos os seus amantes.

Luís Fernando Veríssimo

 

Do lado de fora

por Isabel Paulos, em 04.03.20

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Os versos de Ricardo Reis desenham a definida sensação de estar do lado de fora. Bem sei que a ideia feita de outsider, popularizada entre mui integrados e in intelectuais e artistas, traz grandes dividendos. Mas nada disso assenta no desajustado. Quem se sente do lado de fora nunca estará dentro nem vingará no território e tempo dos seus pares. O desajustado não brilha, muito menos usa o sentimento de inadequação para colher lucro. O hiato de entendimento entre si e o outro tem peso, fere e dói. É ferida com que se aprende a viver, mesmo no contentamento.

Esta é também a loucura de Van Gogh.

Com propensão para a estranheza do mundo quando, na segunda metade dos anos oitenta, descobri Van Gogh e Fernando Pessoa não sabia que se iriam democratizar tanto. A queda para o gosto proletário, este pé de pobre onde me sustento, faz-me gostar daquilo que todos apreciam ou passam a gostar. E constato que o mundo se tornou tão inadequado quanto os grandes mestres. É o reconhecimento das massas, que neles se revêem.

Na mesma altura encontrei a poesia de Miguel Torga, José Gomes Ferreira, Sophia de Mello Breyner Andersen e Jorge de Sena. Este último ensinou-me que O viver que grita muito não diz nada./A morte ao dizer tudo é bem calada.

Alguém disse que o carácter se forma por volta dos quinze anos. Idade com que li os versos que me marcaram. Foi na ode de Ricardo Reis e o dístico de Jorge de Sena que me moldei. Com Ricardo Reis percebi que para sempre seria forasteira no sentimento e na ideia. Sem perder o juízo completo, porque a vida é para ser vivida e o desnorte contente só cabe no cinema. Só um tonto ou intrujo procura a loucura. Quem um dia perdeu o norte só quer voltar a ter paz.





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