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Pintarolas

Um passeio com os meus pais às lojas do Porto

por Isabel Paulos, em 13.11.22

Ontem foi dia de conversar cá em casa com os meus pais. À vez, no usual entra e sai dos sábados. Aproveitei para tirar nabos da púcara sobre espaços comerciais do Porto. Desde a minha meninice às memórias parentais. Ia dividir estes apontamentos por dois ou três postais, mas decidi, contra tudo quanto é recomendável, colocá-lo inteiriço. E sem grandes arrojos de embelezamento já que hoje não estou mesmo com grande inspiração. Talvez um dia pegue nele e o melhore. Quem sabe valerá a pena?

Em criança desde o tempo do infantário até à segunda-classe faltava várias sextas-feiras ou outro dia da semana para vir com a minha mãe ao Porto – até ser chamada a atenção pelas irmãs da escola da Misericórdia, que naturalmente achavam pouca piada a este quebrar de regras. Ainda assim, pelo menos até à quarta-classe ainda faltei umas vezes para vir ao Porto, maravilhada.

Nessa altura não vínhamos na Renault 4L branca da mãe, mas no amarelão, o VW 1600 do pai que eu odiava. Saíamos na Praça do Infante, junto ao Palácio da Bolsa e do Mercado Ferreira Borges. Subíamos Mouzinho da Silveira até São Bento. Em frente já existia o anúncio de três andares em gaveto, que persiste aos dias de hoje: VESTIR BEM E BARATO SÓ AQUI. Nunca lá entrei, mas duvido que haja um genuíno portuense que não conheça a publicidade. Naquele ponto interessava à minha mãe a loja dos plásticos. Se a minha avó se referia com claro desapreço aos Estados Unidos, como a terra dos pentes de plástico, a minha mãe era fascinada por caixas e caixinhas de plástico: novidade para quem delirou desde criança com inovações. Por vezes íamos à Modelo nos Lóios, uma papelaria hoje vocacionada mais para pintura, cujo dono antigo, Sr. Lemos, era familiar da Semaria, a adorada pela minha mãe caseira de Tarrio. Mais ainda do que os plásticos, artigos de papelaria enchem-lhe as medidas. Deve haver poucos alunos e filhos tão presentados com lápis, canetas, borrachas, cadernos, cartolinas, guaches, pinceis etc. Ali perto, na Rua dos Caldeireiros, pontuava outro centro nevrálgico: a Drogaria Felismino, na qual a minha avó era cliente antiga e bem lembro das muitas encomendas que fazia à Eca às quartas-feiras, dia de folga e vinda ao Porto. Vendiam produtos de higiene e medicamentos. Diz a minha mãe que o artigo mais consumido no Sr. Felismino era a acetilcisteina (?), com que se tratava a família inteira a meia dose ou um quarto de pastilha. Mais abaixo na Rua das Flores, onde se situava uma casa antiga da família, hoje transformada em hotel, havia a Ourivesaria Rosas, cujo dono era amigo dos meus avós maternos. Não há muito a dizer já que a mãe não apreciava o Rosas, creio que nunca lhe perdoou o dano nas alianças de casamento.

Seguíamos para a Rua dos Clérigos e entrávamos na loja que no meu espírito define o Porto e também o meu crescimento em centímetros: a loja do Sr. Fernandes. O Porto da minha infância era pejado de armazéns de tecidos e fazendas, alguns ainda subsistem, como os do Largo dos Lóios onde a minha avó se abastecia. Mas no meu tempo de pequena era aos Armazéns Matos e Fernandes que íamos. Um punhado de degraus dava acesso à porta envidraçada entre as duas altas janelas da frente para o grande espaço com enorme pé direito e uma escada de madeira. Ampla divisão em madeira escura sólida, com vários balcões corridos onde estavam as peças de fazenda e outros tecidos em rolos achatados. Dois dos filhos do Sr. João Fernandes, que tinha uma prole de oito ou nove rebentos, acompanhavam os clientes com especial educação e mesura, aconselhando sem nunca se imiscuir nas decisões. Junto às janelas laterais um balcão das medições e cortes. Alto e largo, impecavelmente liso para que não houvesse perigo de estrago dos tecidos. Havia metros de madeira e giz. Era um mundo que me lembro ver de baixo para cima, já que tenho perfeita memória do meu nariz não chegar ao tampo dos balcões e da minha curiosidade para o que ali se passava. Ao lado direito do balcão das medições havia uma espécie de púlpito com degrau lateral onde estava o Sr. João Fernandes ou a empregada de grande confiança a fazer as contas. Lá via eu aquilo de baixo para cima, parecendo-me um pedestal de matemática aplicada. Mas esse, soube mais tarde era ao fundo na loja: o escritório com vidros martelados verde arte déco onde se fazia a contabilidade. Os anos foram passando e espiguei acima dos balcões até poder ver o que se passava: depois de conhecer bem aquela loja foi-me difícil compreender os comentários que ouvia acerca da profissão de comerciante não ser um labor nobre. Tudo aquilo me parecia tão digno. O Sr. João Fernandes, amigo do meu pai, almoçava com ele amiúde num restaurante da Rua D. Manuel II – onde a minha mãe e eu almoçávamos também nesses dias -, pontualmente no Hotel Paris na Rua da Fábrica. Às vezes, convidava o meu pai para o Clube Inglês, do qual sempre ouvi relatos paternais do Gin de entrada, do Douro de acompanhamento do prato e do remate a Licor Beirão, de que o Sr. João Fernandes jamais prescindia. Um senhor à moda antiga. A dada altura a mana Portas num acordo com a família transformou o espaço numa loja de quiqueriquis de portugalidade e tudo perdeu a graça e dignidade. Foi dos Armazéns Matos e Fernandes que veio a fazenda para o meu casacão três quartos azul-marinho, de amplos bolsos e foro xadrez, com o qual fui muito feliz durante vários anos no liceu. Dessa época ainda existe uma blusa de vaiela de lã marfim, que também adorava. O tecido havia sido comprado na Lobo Xavier, loja da Praça Carlos Alberto, com tecidos de inegável qualidade mas presunção a mais.

Na Praça Santa Teresa, como é conhecida pelos portuenses a Praça Guilherme Gomes Fernandes, íamos buscar um cartucho de Cacos da Padaria Ribeiro: bolachas deliciosas, de feitio irregular, bem tostadinhas e estaladiças, com bolhas empoladas de ar que, diz a minha mãe nada têm a ver com as actuais, mal cozidas e sem sal. Visitávamos também pontualmente a Leitaria da Quinta do Paço, para grande agrado da minha mãe que a conhecia bem desde sempre, e algum desgosto meu, já que não gostava do recheio de chantilly dos éclaires, preferindo o banalíssimo creme de pasteleiro. Em matéria de confeitarias a minha mãe arreigava pontos de honra e repetia os da meninice e juventude. A Arcádia na Praça da Liberdade, a Aliança em Santa Catarina e a Confeitaria do Bolhão. Recorda-se de não saber que os bolos que vinham para a mesa (quatro numa caixinha de vidro de duas tampas) iriam ser todos pagos, tirando apenas um de cerimónia, no tempo em que os namorados pagavam o lanche. Lembra-se ainda com saudade do tempo de criança em que ia com o tio F. ao Café Ceuta comer uma taça de morangos com chantilly.

Nos Leões, na Praça Gomes Teixeira, destacam-se os Armazéns Cunhas. Lembro-me de lá ir desde criança e ainda hoje a colcha que cobre a cama do segundo quarto cá de casa é de lá. Tem a vantagem, sobre as de má qualidade do Ikea, de resistir melhor às unhas do Ritz. Em matéria de tecidos para colchas e cortinas a minha mãe era cliente de uma loja em Passos Manuel, com tecidos de algodões e chintz, dos apelidados motivos típicos portugueses, que mais não eram senão reproduções de pinturas renascentistas de obras de Florença – o meu quarto de solteira em casa da minha mãe ainda tem uma colcha assim. Em José Falcão ao cimo da Rua de Ceuta passei horas a deambular pelas escadas da Livraria Leitura enquanto a mãe ia espiolhando demoradamente os livros e comprando um ou outro. No chão nessas escadas os livros estavam dispostos em montinhos, já que não cabiam todos nas estantes. Para mim era bom: ficavam à mão de semear. Também íamos à Livraria Latina na Rua de Santa Catarina. E às editoras Porto Editora e Asa. Mas por razões profissionais da mãe. Aí fascinavam-me os mapas.

Como não podia deixar de ser há também memórias do Bolhão, não especialmente minhas que lá fui pouco, mas da minha avó. Lá se deslocava uma vez por semana, tendo peixeira e hortaliceira certas, indo o meu avô ou um dos filhos buscá-la de carro. A minha mãe ainda recorda os nomes quer das vendedoras do Bolhão, quer as que iam à porta de casa. A Irene, peixeira em casa. A Florindinha e a Julieta, as hortaliceiras do mercado e de casa. Em apontamento relevante recorda que todos os dias se sentavam 11 ou mais à mesa, sendo estas compras essenciais apesar das cestas que vinham de camioneta de Valinhas e Tarrio, incluindo folhagem das japoneiras e as camélias.

Para terminar este giro pelos estabelecimentos comerciais do Porto em companhia maternal, sabendo que faltou nomear muitos, como os cabeleireiros e os pronto-a-vestir de que talvez fale noutra altura, vou até à Rua do Loureiro. De qualquer modo recorda a minha mãe a diferença entre os nossos tempos. No antigo, de tudo confeccionado pelas costureiras em casa, até os fatos-de-banho que a envergonhavam por não serem modernos. De tal modo que quando o meu avô lhe deu o primeiro fato-banho de loja aos 12 anos se sentiu uma princesa com direito a um luxo. E do tempo mais recente em que comprávamos quase tudo feito em lojas como a Saint Trop e a Giola, e muito raramente na caríssima Morgado, na Rua Santo António - na Rua Primeiro de Janeiro para os rigorosos; nesta família ainda não chegámos à República ao dar nomes às ruas, às vezes com algum exagero penso que ainda não chegámos aos liberais. Em Dezembro, a avó tratava ou encomendava-nos as compras para os vinte netos. E sendo tantos era preciso economizar pelo que partíamos, como era uso da avó, para a Rua do Loureiro para as lojas dos indianos comprar estojos de unhas, canivetes, baralhos de cartas e outros presentes do género, todos embrulhados para serem abertos no Campo Grande ou em Valinhas na noite de 25 de Dezembro – a noite de 24 de Dezembro era passada em General Torres. Ainda no tempo que a minha avó fazia as compras presenteava-nos com pares de passarinhos, coelhos e outros animais de estanho em miniatura. Os meus avós paternos deram-nos também miniaturas de antigos utensílios: candeeiros, telefones de mesa, máquinas registadoras e ferros de engomar.

*

O meu pai recorda as mercearias finas da Rua Sá da Bandeira, a Casa Chinesa e a Casa Ramos, que a mãe também conhecia bem. A filha dos donos da Casa Chinesa era amiga dos meus pais de Cabinda e Angola. Lá se vendiam frutos secos a granel em impecável higiene. Lembro-me que a minha mãe trazia umas caixinhas de massa fina para rechear. Na casa de muito movimento, ainda hoje a funcionar, vendiam-se enchidos, queijos, bacalhau. A receber estava o próprio Sr. Mota Cardoso, pai da tal amiga dos meus pais, casada com um camarada de armas do meu pai. O dono da loja viveu até aos 100 anos, e ainda perto dessa altura lá se deslocava pontualmente.

Também na Rua de Sá da Bandeira há a Casa Cristina, onde se comprava café a granel, e quer o meu pai quer a minha mãe se recordam de comprar uma porção do saboroso e aromático arábica e outra do intenso robusta, ajustada ao gosto de cada um, com a indicação da origem: Angola, Brasil, Timor. Tal como hoje em dia se faz nas cápsulas que consumimos compradas nos supermercados – no meu caso Sical, de uma selecção com origem na Colômbia, Honduras, Brasil e Vietnam, mas sem indicação de percentagens.

O pai recorda especialmente a Rua Formosa e as mercearias boas, como a Mercearia do Bolhão e produtos como queijo da serra e o polvo seco. É tradição trazida pelos trasmontanos cozinhar polvo seco no Natal. Lembra ainda a Casa Januário atrás dos Correios e do outro lado da baixa, junto à Cadeia da Relação, no largo que dá para São Bento da Vitória, uma Mercearia fina com azulejos bonitos, que vendia também bom bacalhau e café. Ontem passou pela Casa Africana, que faz 150 anos. Lembra o pai que há muitos anos tinha um africano à porta, assim como o restaurante A Regaleira, onde nasceu a francesinha. Recorda o africano de bom ar que nos anos 50 (e 60?) estava à porta, ao fim do dia já bastante tocado.

O meu avô paterno começou a trabalhar em 1939 na Companhia de Seguros A Social, na Rua Cândido dos Reis, em frente ao Club Portuense, fundado por antepassados da minha mãe. Era a rua dos armazéns de fazendas, como a Rua do Almada a das ferragens. Ali ao lado, na Rua da Fábrica, conta que havia duas livrarias às quais se lembra de ir. A Educação Nacional e Simões Lopes, editoras de livros escolares, uma associada à situação outra do contra. Na Rua da Fábrica havia alfarrabistas e na Rua José Falcão livros em segunda-mão. E a Porto Editora da Rua Filipa de Lencastre.

*

As saídas ao Porto com a minha mãe acabavam num supermercado de Massarelos, para onde íamos de eléctrico - coisa com que eu delirava -, ter com o meu pai. Davam-me a escolher um mimo: optava invariavelmente por um tubo de Smartis, mais tarde Pintarolas. Fazia a viagem Porto Valinhas, encafuada no banco de trás do 1600, a comê-las e presumo a magicar na aventura do dia – fora uma vez mais ao Porto. Com sorte um dos próximos fins-de-semana seria passado em General Torres, em Gaia, na casa contígua à dos meus avós que viria a ser do pai por uns anos, cujas janelas davam para o postal ilustrado que sempre é usado para publicitar a beleza do Porto: o rio Douro, as pontes, a cidade velha, linda de morrer. No meu tempo de criança com a alegria acrescida dos telhados da ribeira de Gaia terem os reclamos luminosos coloridos das caves de vinho do Porto, que sempre associo às luzinhas da árvore de Natal. Em pequena era Natal todos os dias.

São João

por Isabel Paulos, em 23.06.22

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São precisas várias mãos e sorrisos para lançar um Balão de São João. Daqui de Portimão sinto a noite longe de casa e nenhuma dúvida que pertenço à minha gente. Só aspiro a que se concretizem os sonhos de todos os que têm bom coração e vontade. Em espírito e a quinhentos e cinquenta quilómetros do Porto estico com as pontas dos dedos uma das dobras do papel de seda até que o balão ganhe forma e voe cuidando do divertimento e desejos de todos os que vibram com descontracção e cumplicidade a noite mais alegre do ano. Festa nas ruas da cidade molhada pela morrinha que premeia e abençoa o ano de trabalho.

São João é antónimo de solidão. É companhia, alegria em multidão - pertença à nossa casa.

Até amanhã, Porto.

Porto

por Isabel Paulos, em 27.11.20

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Jardins do Palácio, 4 de Novembro 2020.

*

Confesso os momentos em que deixei correr as lágrimas só por me aproximar do Porto. Foram muitos. Chegada a casa de carro, autocarro, comboio ou avião, ao sentir o aconchego da cidade comovo-me. Creio que que metade da minha vontade de viajar – e céus, é muita apesar de pouco o fazer nos últimos anos –, é desejo de regressar. Sinto-me afortunada por viver neste chão que não é meu de nascença. Sou filha de pai gaiense e mãe portuense, e creio ter tomado posse do Porto, não só por herança como por usucapião. Chamam-lhe bairrismo. Orgulho tonto. Será. Mas é absolutamente sentido. Nestes dias difíceis em que tropeço nos que choram de preocupação e medo de perder os seus, vale-me o exemplo desta terra de fibra. Bonita, digna e de valentes corações.

Parque das Serras do Porto

por Isabel Paulos, em 29.10.20





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