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Anestesia da aldrabice

por Isabel Paulos, em 16.06.20

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Quando há duas semanas brincámos com o destino da bazuca não andávamos longe da realidade. Como se pode ver aqui e ali. Posso imaginar quantos argumentos válidos e humanitários me dariam os lúcidos para obrigar o Estado a vergar desta forma. São as mesmas razões usadas nas últimas décadas de prejuízos astronómicos da TAP, da RTP e outras. São as mesmas obrigações nascidas de contratos leoninos dos Novos Bancos. Não é difícil ser bruxo neste País. É tudo tão previsível, que dói. Dói porque não seria preciso muito para fazer diferente. Até conseguimos adivinhar com dez ou vinte anos de antecedência quem irá para a cadeia. A corrupção e o crime têm um cheiro nauseabundo e só quem já perdeu a sensibilidade do olfacto vive bem em silêncio conivente. Há sempre alguém que alerta, há sempre alguém que denuncia o fedor. Mas os processos judiciais chegam – e sabemos o quão demorados são – tarde e depois do mal estar feito. Sei que a ordem natural da Justiça impõe que primeiro haja crime para que exista processo. Mas os tempos da nossa Justiça inviabilizam-na. De qualquer modo, depois do sistema judicial ter dado – apesar de tudo – sinais positivos de estar atento aos crimes contra o bem público seria preciso que a população obrigasse quem está em situação de poder fazer a diferença, a fizesse de facto. E quem pode fazer a diferença é, em primeira linha, a classe política.

O drama é que a população, fingindo-se cansada, não só não é exigente com os políticos como eleva sistematicamente o laxismo a grande timoneiro da Nação. Era escusado o número do ‘os políticos são todos iguais’ e do ‘o que eles querem é poleiro para roubar’. O zurzir inconsequente da populaça através destas pérolas tem um único efeito: anestesiar e normalizar o laxismo e a corrupção no País. No fundo, os portugueses que vociferam contra o políticos aldrabões, revêem-se neles quando estacionam o carro em segunda e terceira fila em cima de uma paragem de autocarro ou de uma rampa de garagem ou declaram valor inferior em escritura de compra e venda de imóvel para se furtarem ao imposto correspondente. O zurzir inconsequente serve unicamente de eterna desculpa para ser trapaceiro. No fundo, a maioria dos portugueses que brada contra as contas da electricidade, não rejeitaria um alto cargo de gestor de uma eléctrica, se fosse capaz de vergar o Estado aos seus interesses particulares e tivesse direito a uma boa poltrona para ver o Benfica ganhar campeonatos. Por ser um País cheio de trapaceiros, Portugal tem os políticos que merece.




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