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Tílias - Avó

Fragmento 10

por Isabel Paulos, em 13.12.21

Passaram cem anos desde a construção da casa, e no cantinho do bisavô sentadas nas cadeiras de realizador de estopa a avó contava-me que desde que perdera a visão mobilava mentalmente as casas da família. Entre as muitas por onde passara, entre as que vivera. Para onde fora a mesinha da tia. P.? Em que sala estivera antes o aparador do tio L. P.? Agora em Valinhas na ponta da sala, ao fundo da mesa que eu achava ter vindo de Vilar de Ossos, mas afinal também era do Paraíso, na Foz onde nascera e de onde veio a escrivaninha da sua avó N. - na Foz Velha como fazia finca-pé em dizer para a distinguir da Foz nova-rica. E o piano? Estaria em que parede no Paraíso?, antes de repousar desafinado no salão de Valinhas. Contou-me que desde que cegara compunha os sonhos assim. Antes de dormir, mobilava as casas da família. Já não podia ler. Mas na verdade, faria falta a visão? Ao fim de tantos anos, aos noventa, a colecção da Agatha Christie tinha sido lida e relida diversas vezes e não só fazia parte da mobília, como se tornara tão real, que era difícil distinguir a dona da casa da Miss Marple. O tricot, a astúcia e a graça não deixavam mentir. Nem as mitenes, as mãos macias, a pele branca e lisa de avó. As noites eram passadas a reler mentalmente os livros que havia lido ao longo da vida. Era a alma da casa e sentia o cheiro da sua casa ao longe de cada vez que regressava: as minhas tílias. À noite lembrava-se da Xilá, do Paraíso. A Xilá, a criada da infância, contava histórias de faca e alguidar que a assustavam nos sonhos. Teria sido um colo materno que cedo deixou de ter.

Também participou no destino português da ida e regresso. Começou cedo, em criança pequena, depois de ter perdido a mãe e visto o pai embarcar para Angola e Brasil, indo para o colégio das Doroteias na Galiza. Na adolescência para o colégio Sacre-Coeur em Lucerna, Suíça. Noiva como enfermeira de guerra de regresso à Galiza e casada para Madrid. Depressa voltou, não às tílias mas ao Porto. Ainda assim estiveram sempre lá, à espera com paciência, nuas no Inverno, frondosas no Verão. O porto de abrigo da velhice: a casa da avó. Até que também elas sucumbiram para anunciar o fim. Começaram a tombar para que se preparasse, desse as instruções necessárias à Santíssima Trindade para governar os que ficavam, arrumasse os papéis na papeleira e nas várias cómodas, os talheres nos aparadores e acabasse de mobilar as casas. Sob o olhar da minha mãe e meu em sofrimento com a agonia, segurou uma mão da amiga argentina, como se pedisse mais um dia. Não o teve. Tombou como as suas tílias. Em Agosto de 2008.

*

Da mesma saga existem os seguintes postais:

Fragmento 1. Tílias - Rua N. S. de Fátima

Fragmento 2. Tílias - Compor os Sonhos

Fragmento 3. Tílias - Brilho e Falsidade

Fragmento 4. Tílias - Rua General Torres e Brasil

Fragmento 5. Tílias - Filha e Maternidade

Fragmento 6. Tílias - 11 de Setembro 2001

Fragmento 7. Tílias - Chave em Christchurch

Fragmento 8. Tílias - Maçãs e Batatas

Fragmento 9. Tílias - Jerusalém há 2000 anos






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