Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]




Tílias - Cozinhotes

Fragmento 15

por Isabel Paulos, em 31.03.22
Em pequena os almoços e jantares em Valinhas tinham o seu quê de cerimonial. Mãos lavadas, toalha de pano sobre a mesa rectangular da copa e guardanapos de pano em argolas coloridas, as do pai e mãe verde seco e laranja, as dos manos N., F., e T., branca, amarela e verde petróleo, a minha vermelho escuro. Éramos sete à mesa, com a Eca, cuja argola era cinzenta. Ou mais quando ainda lá viviam os meus tios G. e R, e F. Nos últimos anos juntávamo-nos às argolas de prata dos avós - herdei com grande orgulho a da avó - na mesa grande da sala de jantar - para 18 pessoas. Não havia refeição que não começasse pela sopa e as que me lembro variavam entre as de agrião, nabiça, penca, couve branca, vagens e os cremes de cenoura, grão e feijão que davam direito a peixinhos (croutons) e ainda o caldo verde de Domingo. 
 
Guardo especial saudade de alguns pratos que nunca mais souberam ao mesmo, por ter deixado de haver mão que os fizesse tão bem. Não voltei a comer Lulas à Bordalesa acompanhadas de Arroz Branco como as de Valinhas, o meu prato favorito. Conservavam a tinta e creio que só a avó e a Eca as sabiam no ponto. Era o prato ideal para uma família grande como muitos dos outros tradicionais portugueses que me habituei em criança. Como o Bacalhau à Gomes de Sá, à Brás e à Espanhola. Este último só aprendi a gostar já na adolescência em Gaia. Tudo pratos fáceis de multiplicar para famílias grandes. Recordo-me também de adorar Arroz de Polvo e do Arroz de Tomate ou de Espigos com Pescadinhas de Rabo na Boca (marmotas) introduzidas em Valinhas, contra gosto da família no lado materno, por via da minha avó paterna. Ainda assim a mãe não autorizava, para grande desgosto do marido e filhos que se fizessem sardinhas e carapaus, tendo nós que esperar pelas Vindimas ou pelas idas ao Algarve para matarmos saudades das boas das sardinhas frescas. A mãe só aceitava peixe mais graúdo, mais até em Gaia, como robalos e douradas. Havia uma excepção, sendo apreciadora de linguados e havendo muitas bocas para alimentar a mãe trazia Azevias - mais pequeninas e económicas -, que se faziam com Arroz de Tomate. A Pescada com Todos, a que chamávamos simplesmente Peixe Cozido, era uma instituição a que aderimos e ainda hoje replicamos em casa. Porém o prato de peixe que mais vingou foi aquilo a que chamamos o Prato da Mãe e que na geração anterior era denominado o Prato do Pai, que mais não é do que o refogado de azeite, cebola e alho onde o bacalhau em lascas vai alourar, vertido entre camadas de batata, couve, cenoura, e ovo todos previamente cozidos e cobertos de béchamel antes de levar ao forno. Mais tarde em Gaia recordo que era comum comermos salmão, que adoro. Em dias não direi festivos mas quando aparecia gente para petiscar a mãe preparava pitéus como ameijoas ou camarões, mas o forte eram mesmo os doces. Em Angola era reconhecida por boa doceira, mas essa fase não apanhei. Tiveram mais sorte os meus irmãos. De qualquer modo, há três doces que não conheço melhor feitos por outras mãos: o Molotof, com todo o cerimonial da forma a boiar na água ferver para cozer as claras e a rabeta com os ovos moles no ponto cobertos por amêndoas torradas cortadas em palitos. Doce que só é bom no próprio dia e sem comparação possível com a gelatina horrível que servem em restaurantes ou outros poisos.  A Mousse de Chocolate, que só leva ovos, açúcar e chocolate e nem uma pitada de leite ou manteiga. Fofa e maravilhosa. E os Sonhos de Natal. sequinhos, ocos e muito saborosos. Quase me esquecia do Pudim de Chuchu que continua a fazer as minhas delícias. De qualquer modo, no dia-a-dia não havia doces, mas sim uma peça de fruta à escolha, mas obrigatória, para cada um de nós comida de garfo e faca.
 
No capítulo carne do dia-a-dia com a minha mãe não vingava inicialmente a galinha e o porco, mas sim a vaca ou novilho. Devo confessar que aí preferia os rojões perfeitos da minha avó Rosa, ou mesmo os um tanto engordurados feitos pela Glória por indicação da avó Isabel, que mandava também assar frango com batatas amiúde o que me agradava e felizmente a distanciava da sofisticação dos jantares que dava em nova que sempre ouvi recordar à minha mãe e tios - com inclusão dos grandes peixes assados no forno bem tratados na cozinha antes de virem para a mesa, onde não admitia espinhas e peles. Mas voltando a Valinhas, sob orientação da minha mãe comíamos aquilo a que chamávamos Batatas Guisadas (Jardineira), que eu odiava, Massa Guisada (Carne Guisada com Massa para os possidónios), que gostava muito e Arroz com Guisadinho de Carne, que me era indiferente, todos contendo carne de vaca ou novilho. E Açorda ou Farinha de Pau com bifinhos, que gostava bastante. Consumíamos carnes que hoje dificilmente são admitidas nas dietas das modas, como Fígado de Vaca com Cebola (ambos cortados bem finos) e Batata Cozida, e Língua de Vaca, acompanhada de Guisado de Ervilhas e Cenoura e Arroz Branco. Lembro também que pontualmente havia Coelho ao almoço, raramente Cabidela e com frequência Bifes de Peru com Arroz de Cenoura ou Ervilhas ao jantar. E o horrível Empadão de Carne para mal dos meus pecados. Aos Sábados era comum ser Feijoada com carne de porco e vaca acompanhada de Arroz ou Grão com Massa e carne de porco e chouriço. Mais uma vez pratos bons para famílias grandes. Ao Domingo era invariavelmente aquilo a que chamávamos Maionese, e que mais não era senão Salada Russa com Maionese acompanhada de atum e sardinhas pequenas picantes em lata, feita pelos mais novos, cozinhote simples que todos adoramos e preparamos muitas vezes quando nos reunimos no Verão. A noite de Domingo era tenebrosa com as ideias de simplificação da minha mãe. Numa das fases da ementa constava esparguete (branca; eu gosto de a pintar sempre do rosa do tomate) com omelete de cebola - devo dizer que raramente comi coisa pior. Em dias festivos lembro-me do jeito da minha mãe para os canapés de entrada, assim com ovos recheados e uma série de entradas bonitas. Havia às vezes Arroz Árabe e de Açafrão -, que eu adorava. E também era comum o Timbale - tarte de massa folhada recheada com guisadinho de carne de vaca ou frango ou um creme de qualquer espécie. E é preciso dizer a verdade, o infalível Lombo Assado, que já ninguém podia ver. Salvavam-se as batatas assadas que eram sempre óptimas e o maravilhoso esparregado de nabiças ou couve da Glória. O Jantar de 25 de Dezembro era abrilhantado com o Bacalhau Espiritual feito pela minha mãe, que é perfeito e nada tem a ver com os sucedâneos que fui experimentando, seguido do Peru Recheado da avó.
 
E pronto, estas são as memórias de muitos dos pratos que fizeram a minha infância. Devem faltar imensos, de que me recordarei mais tarde. É a vida. Entretanto enquanto estava a acabar o texto tocaram à campainha e era o carteiro com uma encomenda. Uma prima do Nuno que vive no Algarve a mandar favas, coentros, salsa e doce de amora. O primo chorou-se das saudades do Estufado de Favas com Chouriço e lá vou eu ter que aprender a fazê-las - também as comi desde criança, mas não sei preparar. Desta não me livro. Bem lhe disse que sou mais de escrever sobre comida do que de cozinhar, mas ele não se compadece e já anda por aí a babar.

 

Da mesma saga existem os seguintes postais:

Fragmento 1. Tílias - Rua N. S. de Fátima

Fragmento 2. Tílias - Compor os Sonhos

Fragmento 3. Tílias - Brilho e Falsidade

Fragmento 4. Tílias - Rua General Torres e Brasil

Fragmento 5. Tílias - Filha e Maternidade

Fragmento 6. Tílias - 11 de Setembro 2001

Fragmento 7. Tílias - Chave em Christchurch

Fragmento 8. Tílias - Maçãs e Batatas

Fragmento 9. Tílias - Jerusalém há 2000 anos

Fragmento 10. Tílias - Avó

Fragmento 11. Tílias - Virinha

Fragmento 12. Tílias - Sonhos

Fragmento 13 - Tílias - Livros da Infância

Fragmento 14 - Tílias - Café

 






Dose recomendada

Accuradio


Mensagens

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Arquivo

  1. 2023
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2022
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2021
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2020
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2019
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D