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Tílias - Livros da infância

Fragmento 13

por Isabel Paulos, em 31.01.22

Aos onze ou doze anos, falho sempre a memória por doze meses, tinha na mini estante vermelha que fazia a vez de mesinha cabeceira livros e cubos. No tampo um candeeiro e uma boneca pirosa de loiça, que uma amiga do ciclo me deu no aniversário. Todos devíamos ter direito a ter uma ou várias peças pirosas de estimação. Dizem-nos quem somos e a todos cedo ou tarde foge o pé para o chinelo. A avó Adelaide, que não era avó nem bisavó, mas sim tia-bisavó, confessava à sobrinha e amiga que tinha pena de não poder gostar de coisas pirosas. Era uma mulher inteligente. Dizia o Pereira, sogro do Carvalho da Lama, que encabava todos menos a senhora dona Adelaide, o homem mais difícil que conheceu em negócios. Na prateleira do meio estavam os livros, à época já espécie de memória dos primeiros tempos - é engraçado como aos onze ou doze anos já podemos ter passado, mas de facto temos. Eram os primeiros livros, onde comecei a juntar as letras, uma colecção colorida em fundo azul escuro e letras e desenhos a vermelho, amarelo, verde, branco e delineados a preto. A ideia: introduzir as crianças ao mundo. Recordo as palavras: viagem e avião. Foram as que ficaram registadas. Havia também um pequeno livro de argolas em tons de castanho, dourado e amarelo que ensinava o processo da fecundação e da multiplicação das células dentro do óvulo. Vendo agora à distância constato que foi uma bela apresentação ao mundo. Além desses lembro-me de lá repousar a Sissi, Imperatriz da Áustria, o primeiro livro que comprei com dinheiro meu, e os Bichos de Miguel Torga. Na prateleira de baixo: os cubos com as figuras tão desvanecidas que não se reconheciam os motivos. Sei que lá estavam porque na noite da morte do avô, depois do telefone tocar com a notícia, arrumei-os vezes sem conta naquela presumo meia-hora atordoadora em Valinhas. Encastelei-os e desfiz o castelo algumas vezes enquanto tentava conter as lágrimas que ainda assim corriam. Pouco depois estava no andar de cima a ajudar a Eca a arrumar o corredor e a salinha onde ficaria o avô no dia seguinte para as despedidas da família e amigos. Era preciso organizar e arranjar espaço. A minha primeira morte. Apesar dos enterros a que já tinha ido nenhum deles me fizera sentir a morte. Tinha doze anos, lembro-me agora. À altura fazia um pouco original trabalho de fósforos com a Ponte D. Luís para a disciplina de Desenho ou Trabalhos Manuais – recordo-me por ter chocado colegas de Liceu ao ter ido às aulas na manhã seguinte à morte do avô. Aquela morte sim, era verdadeira: o avô que vivera em sofrimento com enorme e bem audível dificuldade respiratória provocada por duríssima asma e nos últimos anos já padecendo de demência, fora uns dias antes para a Casa de Saúde da Boavista e lá, entubado e rodeado de familiares, sucumbiu. Desconfio que a certeza da avó de querer morrer em casa teve a ver com aquele momento. Até na morte devíamos poder ser senhores de nós mesmos, ainda que isso se consubstanciasse apenas em escolher morrer sem tubos, nem paliativos ou palpites.

Alguns verões antes, no alto dos nove anos, e aqui não erro por doze meses - sei que acabara a primária quando essas férias deram entrada -, li a colecção inteira Os Cinco de Enid Blyton. E naquele tempo assumi intimamente que mais ninguém poderia saber ser como a Zé. Com o Ritz, em vez do Tim, também houve um Tim que teve morte trágica, percorri a quinta vezes sem conta a devanear com um mundo onde imperava a independência e a aventura, fosse o que isso fosse. Podiam ser apenas três horas sem que ninguém de mim soubesse, e fossem passadas sentada num penedo no meio da mata a ouvir o rugir da casca dos eucaliptos contra o tronco, ou das lagartixas nas folhas secas, ou mesmo na expectativa e no medo de ver a cobra que tinha largado a casca na rocha do lado, ou a atravessar o campo do milho alto, que cortava a pele dos braços, ou à espera que o Ritz saísse da represa, onde nunca entrei com medo de ficar atolada na lama, que me parecia areia movediça de um qualquer filme. A bater bolas com a raqueta de ténis na parede da eira. Ou na velha casa da Agra, abandonada com a fachada cada vez mais fanada das lousas em forma de escudo e perigoso soalho, ou resto dele, tais eram as falhas das ripas. Poucos anos depois já não era possível lá ir. Mas quando ainda dava saltitava de tábua em tábua com a pequena vertigem dada pelo medo de cair no rés-do-chão, no lagar. E o terraço, com vista sobre a eira e Valinhas. Aquela casa era o fruto proibido: aquele terraço não nos pertencia, mas dele nos víamos. É sempre assim: vemo-nos melhor do terraço do vizinho. Visto à distância, o eirado equivalia às ameixas que protegíamos dos outros. O fruto do vizinho é sempre mais apetecível do que o nosso. Assim vemos as nossas pequenas fragilidades, os nossos pecadilhos.

E na mesinha cabeceira por volta dos onze ou doze anos vieram parar os Bichos e os Novos Contos da Montanha, de Miguel Torga. Ficaram instalados ali, ao lado do avião e da fecundação e da multiplicação das células do óvulo dentro do útero. Dos Bichos não ficou memória, suponho que a ligação com os ditos era tão banal e palpável que não cabia nas letras de adulto ou então, simplesmente, não percebi. É o mais provável. Mas lembro-me do susto do abafador. Acho que abri e fechei o livro várias vezes: abria, lia, relia e, logo de seguida, fechava o livro com medo de ter percebido. Ainda hoje estou para saber o que terei entendido à época. Lembro-me do medo e do fechar e abrir do livro como se tapasse os olhos numa cena mais violenta de sessão de cinema e entreabrisse os dedos em manifesta curiosidade. O Alma-Grande e Fronteira faziam parte do programa de leitura e presumo que, por isso mesmo, tivesse feito esforço maior de compreensão. Quando crianças estamos mais despertos, somos mais espertos. Pena que com a idade perdesse a vontade de aprender o que fazia parte dos programas. Da leitura do Fronteira nessa altura e da viagem ao sul de França através de Espanha e com um salto a Itália, deve ter vindo aquela certeza de que os países tinham princípio e fim, de forma que quando o professor de religião e moral perguntou à turma se era melhor um mundo com fronteiras ou sem elas, a turma inteira respondeu em uníssono sem e eu com, sozinha. Absoluta e terrivelmente só. 

Os livros da Colecção Azul estavam na singela prateleira de pinho também pintada de vermelho na parede dos pés da cama, a uma altura que me fazia precisar da cadeira para subir e de esticar os braços. Dessa colecção recordo sobretudo de chorar baba e ranho com O Pequeno Lord. Dizem-me que aos seis ou sete anos me perguntaram de que cor queria decorar o quarto, e que respondi: vermelho. O que atesta o grau de mau gosto que tinha enquanto criança. Felizmente, pouco mais tarde aderi em força ao azul e amuava se o cabo da escova de dentes não fosse azul. Mas não me lembro de alguma vez ter gostado do Benfica, o que confirma que não confundia realidades nem se trataria de mau gosto total. Na dita prateleira estava o grande livro da Bíblia, uma edição juvenil ilustrada, e a Colecção Azul. Além das passagens dos Evangelhos dos meus irmãos - os pequenos livros de capa azul celeste que suponho terem-lhes sido dados por ocasião da comunhão e a que não tive direito, fui lendo os episódios daquela Bíblia com alguma curiosidade, mas não com o terror com que li numa também ilustrada que havia na Escola da Misericórdia, onde fiz a primária entregue aos bons ofícios das irmãs de São Vicente de Paulo. A mãe e a avó não as consideravam. Não eram Doroteias e como se sabe à falta do Sacré Coeur, as Doroteias são como os Jesuítas a nata intelectual da Igreja. Os educadores da família. A Bíblia ilustrada da escola tinha a imagem do quase sacrifício de Isaac e a ideia de se sacrificar um filho fosse porque razão fosse não me cabia no cérebro. Acho que aquela imagem foi a semente do meu ateísmo que durou mais de vinte anos. No resto da infância e adolescência participei em actos religiosos sempre desconfiando, mas ainda assim como se procurasse conselhos sábios, sabendo intimamente que não havia sábio-mor. Ajudou à descrença a resposta crua que a minha mãe me dera ainda na infância sobre o fim do mundo. Aos sete ou oito anos perguntei se o mundo acabava, respondeu-me: sim, acaba para cada um quando morre.






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