Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]




Velho Oeste

por Isabel Paulos, em 06.06.21

Trogloditas@Sonsos.png

*

O facto de se reconhecer a existência de um frenesim opressor por parte dos identitários não obsta a que quem se sinta ofendido por uma afirmação produzida em peças jornalísticas, humorísticas ou textos literários actuais –  esqueçamos o revisionismo e a questão caricata da História errada e dos factos históricos errados - possa reagir de forma também ofensiva.

Por muito se saiba que isso pode levar a uma espiral de agressividade, o respeito pela liberdade de expressão não impõe a lei da rolha ao ofendido, para infortúnio de muitos trogloditas que pululam nas caixas de comentários online – a quem se continua a dar infinita trela -, que rotulam de sumidades os que injuriam, salvo se forem aquilo a chamam virgens ofendidas, logo catalogadas de asnos.

Sucede que se as virgens ofendidas – mulheres, homossexuais, negros e outros que tais – têm todo o direito a injuriar quem acham que as desconsiderou. Não têm é o direito (ou não deveriam ter) a impor uma doutrina, uma moral, muito menos proibir a publicação de livros, jornais ou peças de humor. Agora, ofender misóginos, homofóbicos, racistas, claro que sim.

Não tenho dúvida que há excessos de auto-defesa. Mais: não tenho dúvida que há muita injustiça, destempero e irracionalidade do lado dos identitários e também dos que não o sendo percebem muitas das razões para as fúrias. Pagam os justos pelos pecadores. Vejo por mim, quando me tocam nos calos, às vezes, vai tudo a eito. Temos pena, como diria o maçon. São muitos anos de ofensas, milhares de leituras e comentários agressivos e lesivos. Não estou a falar de chamar maricas, preto, loira burra ou gorda por piadinha. Estou a falar de dias e dias, meses e meses, anos e anos de agressões verbais deste ou de outro tipo com perfeito desprezo e no intuito de diminuir, marginalizar, achincalhar. E durante todos esses anos, onde estavam os actuais defensores da liberdade de criação literária de da liberdade de expressão? A insurgir-se contra os ataques à integridade dos ofendidos? A defender o bom senso? Ou antes a assistir em surdina à paródia regalados, quando não a participar das injúrias? E a tomar notas para uso nas suas peças humorísticas, jornalísticas ou literárias, tirando disso vantagem financeira?

Partem do princípio que todos os ofendidos ou os que simplesmente reparam nas ofensas não têm sentido de humor, são asnos, ignorantes e insanos. Não os vi reagir nas últimas duas décadas quando os espaços online se enchiam de injurias. Vi-os sim fazer de conta que não estavam lá, tantas vezes a ofender sob o anonimato. Tantas vezes a criar prejuízo sério a outros.  Não é a liberdade que defendem, mas a lei do mais forte.

Não tenhamos ilusão de que muito deste amor súbito pela liberdade de expressão é do mais hipócrita que há e nada tem a ver com o travão necessário ao totalitarismo e pensamento único. O que dói a muitos é que se ponha em causa a lei do mais forte. É a perda de poder e arbitrariedades. Temem o desaparecimento das teias de amigalhaços e respectivos interesses e dos velhos costumes que permitam rebaixar as mulheres, discriminar os homossexuais e os negros.

Vi muitos westerns em criança: sempre que reparar que valem os velhos costumes e a lei da selva, ainda que sujeita a erro de avaliação, reagirei olho por olho, dente por dente. Quando aceitarem ser cuidadosos com os outros, reverei o mau feitio e o carácter intempestivo.






Dose recomendada

Accuradio


Mensagens

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Arquivo

  1. 2021
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2020
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2019
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D