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Verdes - Mentrasto

por Isabel Paulos, em 30.06.20

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Imagem daqui, onde podem aprender um pouco sobre estas ervas medicinais. Aqui têm mais informação.

*

Tive a fortuna de conhecer a Glória, uma mulher do campo. Andaria nos sessenta quando eu era criança. Altiva, de pele branca, carrapito na cabeça e olhos muito azuis. Não se podia dizer que fosse um primor de asseio, mas era uma mulher absolutamente extraordinária. Daria uma complexa e rica personagem de romance. Analfabeta, era a mulher dos sete ofícios. Ajudante em restaurante e cozinheira em casa particular. Jornaleira e jardineira. Distribuidora do pão pelas aldeias. Bruxa e curandeira temida pelas gentes de toda a redondeza, a quem recorriam quando tudo mais falhava, mas logo maldiziam à primeira oportunidade. "Matou-me as galinhas todas só de lhes botar aqueles olhos", asseverava uma conterrânea. Mais do que tudo, e pelo constante trazer e levar de novidades, o Jornal de Notícias lá do sítio, como a conhecíamos em casa. Mãe solteira, mulher de má fama, de quem se contavam histórias de arrepiar, hoje impronunciáveis por atentarem aos mais invioláveis valores.

Segui os seus gestos e palavras quando amanhava a horta e tratava do jardim. Fazia a melhor broa de milho que algum dia comi. Gostava de a ver amassar a farinha, das rezas e da benzedura. Ao seu lado, imitava-a e ajudava a fazer as mini broas individuais. Vi como preparava o forno de lenha, com as achas em brasa. No Outono ia com ela colher cogumelos. Os sentieiros, como os tratava (tive que mandar uma mensagem por whatsapp para que me recordassem este nome, esquecido com o passar dos anos; a tecnologia também serve para estas coisas). Sabia distinguir os bons dos venenosos. Examinava os anéis à volta do caule. Confiámos em absoluto. Nunca falhou.

Sorrio quando me lembro da luz que saía daquele impressivo rosto ao afirmar: laranjas não posso, de manhã ouro, à tarde prata e à noite mata. E de toda a expressividade teatral com que nos disse: por estes olhos que a terra há-de comer que não sei da faca, enquanto se nos dirigia empunhando e gesticulando a dita. E eu ria cúmplice: mas está na sua mão. Alegro-me quando recordo as vindimas e  como preparava a sopa de lavrador nas panelas tripé de ferro ou as sardinhas fritas sobre a broa. O manjar dos deuses.

Conhecia as mais variadas ervas medicinais. Sempre que era preciso uma mezinha, a Glória trazia a planta certa para o chá certo. Secava-as e mais tarde pendurava-as na porta no quarto onde dormia quando era preciso lá dormir. Quando não era punha-se a caminho, já noite feita, pelos carreiros entre as matas. Corajosa, nada temia. Eu dizia-lhe que levasse o cão. Ela respondia que sim, que ele ia. Não sei quem guardava quem. Os cães respeitavam-na. Todos a respeitávamos. Era uma sábia.

O chá (não me apetece usar o rigor da infusão) de mentrasto era a mezinha que mais tenho memória de ela usar. Confirmo que, entre outras propriedades terapêuticas, ajuda na digestão e é analgésico.





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