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Voltas de cobra

por Isabel Paulos, em 24.01.22

Seria espantoso se não fosse previsível assistir às voltas de cobra e contorcionismo argumentativo do último mês. Uns debruçam-se sobre as trocas de galhardetes entre amigos e conhecidos das redes sociais como se fossem a base ou espelho do entendimento do país (o umbigo das relações). Outros excitam-se com a possibilidade de dar entrada às inebriantes ideias liberais na economia. Continuam é a esquecer-se de perceber o país em que vivem. Das favas contadas da permanência dos socialistas no Governo e da total inabilidade da direcção do PSD que bem podia arrumar as botas, estamos agora noutro estágio: o do frenesim liberal. A excitação com um mundo novo fundado na esperança de que Rui Rio ganhe as eleições – esperança perversa a que muitos chegaram por conveniência nas últimas semanas e perversa por tomarem-no por porta aberta à lei da selva do mercado.

São reais os inúmeros casos de sucesso das ideias liberais nos países desenvolvidos. É fácil a um estrangeiro que viva num país com uma economia sã e regrada considerar o forte pendor de esquerda do eleitorado português como anacrónico e inviabilizador do progresso. Mais difícil é perceber que os nacionais não tomem em consideração que num país sem regras a canga liberal só virá aprofundar mais o fosso entre os mais desfavorecidos e os privilegiados. Não é treta de radical de esquerda. É a pura da realidade. Num país onde há o hábito de cumprir a lei e onde os mecanismos de regulação económica funcionam o liberalismo pode funcionar com potenciador de riqueza. Num país sem rei nem roque depositar total confiança na iniciativa privada, não controlando a economia é meio caminho andado para favorecer a desigualdade.

Afirmar que se defende a liberdade individual é muito atraente se soubermos que existem mecanismos para evitar os atropelos aos direitos dos outros. Em países como Portugal, onde a regra é em muitos casos desrespeitar a regra (a menos que haja uma campanha de lavagem cerebral na comunicação social com recurso ao maniqueísmo, caso em que percentagem elevada dos portugueses seguirão a regra mesmo que não faça o menor sentido), onde os serviços públicos e a burocracia embaraçam o cumprimento da lei e onde a Justiça funciona francamente mal, o liberalismo é um docinho bem bom para todo o tipo de chico-esperto que se queira beneficiar à custa de esbulhar o próximo dos seus direitos.






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